Homeland se aproxima de sua reta final mantendo a coerência dos eventos, mas perdendo vigor.
Protagonistas amorais são a moda do século vinte e um. Recentemente, O Mecanismo, produção original nacional do Netflix, colocou – em meio a outro mar de obviedades – seu personagem principal nessa mesma caixinha da “complexidade dramatúrgica”. Marco Ruffo, vivido por Selton Melo, surge nos primeiros momentos da série sendo diagnosticado com transtorno bipolar. Os roteiristas de hoje em dia fizeram seu dever de casa e precisam oferecer a seus anti-heróis algum mal constante que aprofunde a humanidade dessas criações.
Homeland tentou sair na frente, anos atrás. Depois do transtorno de ansiedade de Tony Soprano (lá no final da década de 90) a televisão nunca mais foi a mesma. Ao criarem Carrie Mathison, deram a ela uma boa dose de pzisismo e quando é necessário, quando precisam dar uma sacudida nas coisas, eles lançam mão da condição da personagem e fazem a trama crescer, já que Claire Danes tornou-se premiada ao dar vida plena a um papel que exige tudo de mais intenso que um ator tenha a oferecer para sua persona.
Porém, não é desmerecer o show simplesmente reconhecer que ele apela para algumas muletas já não é de hoje. A doença de Carrie é uma; e estamos entrando num momento dos eventos em que o investimento direto dos roteiros será em mais um dos estados de constrangimento e torpor gerados pela abordagem. Carrie é uma personagem muito bem construída e sempre foi estabelecido pelo show que ela nunca se esquece das limitações da própria mente. E não deve mesmo. Se é para usar a doença como muleta, que ao menos seja de forma digna e honesta.
Red Alert
Chegamos a um ponto da temporada de Homeland em que os motores da narrativa foram para uma direção tão inesperada que ficou uma sensação de que algo está perdido. É só uma sensação mesmo, sem nenhuma base crítica efetiva, justamente porque quando olhamos para o quadro geral a coerência dos eventos é muito bem estabelecida. O que talvez seja um problema é que o foco de tensões desviou-se da manipulação pura e simples e tornou-se um item já velho conhecido do show: a disputa entre pátrias.
Até isso é coeso, vamos admitir. De certa forma, o que estávamos vendo acontecer até o momento em que O’Keefe estava no meio da ação era uma narrativa que ampliava a culpabilidade dos eventos de conspiração até o cidadão comum. A América responsável pela lama onde estava inserida. A ousadia, contudo, não durou muito tempo… O desvio foi honorável, mas logo o show recomeçou a apelar para os mesmos códigos de sempre.
Usar os russos não é a coisa mais original do mundo, mas não é nada menos que correto também. É como se uma outra temporada tivesse começado e saber que eles estavam no meio da conspiração para a queda da presidente enfraqueceu a proposta inicial. Usaram Dante, recolocaram as vidas de Carrie e Saul na mesma direção novamente, mas esse giro de intenções acabou um pouco entediante. A temporada entrou numa “barriga” e está dando passos lentos para garantir longevidade. Mas, repito: isso não é um problema. Homeland não pecou em nada, mas não vive a história com os melhores vilões do mercado.
Nada do que aconteceu foi surpreendente: já esperava o envolvimento de Simone, a ligação dela com os russos, até mesmo a dualidade de Dante. Já esperava também que Carrie fosse ter um surto oficial. Nenhuma dessas coisas, contudo, foi ilustrada com clichês e os roteiristas tem tentado fugir de dizer as mesmas coisas das mesmas maneiras. O surto de Carrie, sobretudo, é um terreno delicado, que pode colocar a série no alerta vermelho dramatúrgico. Todas as vezes em que isso foi usado como muleta, jogou a série no abismo.
Nesse ponto da temporada não há muito mais para onde crescer. Já sabemos quem são os culpados, já sabemos quais são as consequências e a não ser que uma grande surpresa esteja sendo guardada, a finale deve focar na luta de Carrie para ficar com a filha. Ela não tem sido uma boa mãe e por mais que ame a filha isso é notório. Talvez esteja aí a grande e complexa questão em torno da protagonista: Homeland chegou no momento em que precisa enfrentar a consequência da decisão que tomou lá atrás. Engravidar de Brody não era bom para a personagem em nenhuma instância que não fosse a do shock value e agora os roteiristas precisam lidar com essa maternidade que para uma mulher como a ex-agente, é absolutamente incompatível. Carrie deixar a filha ser cuidada pela irmã seria o mais sensato, mas os produtores não vão perder a chance de fazê-la perder o controle mais um pouco antes disso.
Vamos esperar, mas algo me diz que depois do espetacular investimento em contrapeso social que fez da temporada passada e de metade dessa um grande evento, Homeland deve voltar a velhos vícios.
Carrie’s Pills: Que interessante a metaforização em torno do “idiota útil” que o episódio 9 propôs.
Carrie’s Pills 2: Acho que brincar de”morreu-não-morreu” não é ganho para ninguém. Dante é um bom personagem e vivo ele pode ser melhor aproveitado.















