A maior e mais aprovada mudança no enredo de Vale Tudo teve seu momento de glória; e ela se desenvolveu sem pé nem cabeça.

Todo remake passa por mudanças… A essa altura do campeonato, já sabemos que a questão com Vale Tudo não são as mudanças que já se antecipavam necessárias, mas sim as mudanças que seriam apenas uma escolha criativa de sua autora. Sim, porque os remakes têm o direito de pedir licença e mudar algo apenas porque os envolvidos querem. Essas mudanças, contudo, precisam estar na sintonia com a essência do original, já que – também já deixamos isso claro – se não fosse para emular o original era melhor ter feito uma trama todinha nova. 

Até mesmo o preciosista Bruno Luperi deu-se a oportunidade de cometer algumas ousadias. Com Pantanal, as mudanças foram mais singelas que com Renascer. O resultado pode servir como uma espécie de prenúncio de que por mais livre que seja o autor, o aspecto nostálgico (principal motivador da decisão comercial de se produzir um remake) tem que ser respeitado; do contrário, o público se incomoda. Renascer foi muito menos bem-sucedida que Pantanal; e Vale Tudo – campeã de mudanças drásticas – muito menos bem-sucedida do que qualquer uma das duas. 

Antes que os contestadores se adiantem, a questão do que é “bem-sucedido” depende de perspectiva. A Globo considera Vale Tudo 2025 bem-sucedida pela perspectiva comercial e pela perspectiva virtual. O remake vende muitos anúncios dentro e fora da novela. Além disso, aparece de modo ascendente como pilar de engajamento em redes sociais e imprensa. Curiosamente, esses dados não representam a unificação do conceito de “bem-sucedida”, uma vez que o desempenho da novela é pautado em desaprovação na grande maioria do tempo. O “falem mal mas falem de mim” funciona; mas não é ele que sintetiza a força da palavra “sucesso”. 

Quando Manuela Dias resolveu mexer no passado de Odete, a iniciativa foi recebida com otimismo. Na primeira versão, Leonardo também havia morrido em um acidente de carro; e Odete também fazia Heleninha acreditar que a filha é quem estava dirigindo. A morte efetiva de Leonardo estabelecia a segurança desse enredo. Odete mentiu e não havia quase nenhuma testemunha do engodo. Como Raquel e ela travavam uma batalha de poderes, foi a poderosa Acioli que foi atrás da única testemunha do que aconteceu; e depois de conseguir convencê-la a falar, desmascarou Odete na frente de toda diretoria da TCA. 

A iniciativa de Manuela Dias tinha problemas de concepção graves. Para impedir que o próprio Leonardo fosse atrás da família, o moço ficou com sequelas de locomoção e fala. Faria sentido que Odete quisesse ter o filho por perto se a questão afetiva fosse marcante. Mas, evidentemente, a vilã não demonstrava nenhum carinho por Leonardo, o que fazia com que a permanência dele a poucos quilômetros de distância parecesse imbecil. Além disso, diante de uma vilã disposta a matar tão facilmente, fazia menos sentido ainda passar anos se permitindo ser chantageada. 

A coisa piorou na hora de revelar o que aconteceu. A morte de Ana Clara foi uma patacoada. Após levar o tiro, Ana Clara prefere ligar para alguém que está a horas de distância dela. Então, Fátima chega e manda mensagem para que Heleninha vá até lá. Heleninha larga a vida toda para ir atrás de uma estranha, no meio do nada. Ao chegar lá, ela também não faz nada a respeito do corpo de Ana Clara; e sai com o irmão a tira-colo. No capítulo de quarta-feira, a volta de Leonardo foi tratada como se ele tivesse ido comprar pão.

Em seguida, começam as explicações sobre o acidente. Na versão de Heleninha, Leonardo topa entrar no carro dela – e não dirigir –  mesmo vendo a irmã completamente bêbada; o que já seria ruim. Mas, aquela não era a versão real. A versão real vem da própria Odete, por livre e espontânea vontade. Depois de passar anos fazendo de tudo para esconder o segredo, ela decide contar assim, só porque quer. Preferiu-se desperdiçar o impacto da vilã sendo exposta, e dar a ela a voz que tem sido silenciada na protagonista. 

Do mesmo acidente que deixa um homem com sequelas graves, Odete sai intacta. O acidente acontece no mesmo lugar onde providencialmente está Nice. Quem está debaixo do carro é o marido de Nice e não Leonardo; e a direção providencia para que apenas pernas sejam vistas. Pernas essas que providencialmente também vestem calças e sapatos idênticos aos de Leonardo. E se não bastasse tudo isso já ser ridículo o suficiente, no meio daquela loucura toda, Leonardo teria ido parar no quintal de Nice sem que ninguém visse (voou até lá, rastejou até lá, quem sabe?). E Nice, perdeu o marido e não parecia nem um pouquinho abalada. 

Mais em choque que os personagens estávamos nós, diante de tamanha chorumela. Depois de Odete contar tudo, Nice contou tudo de novo. A direção do capítulo era desconexa; o enredo era estapafúrdio; e o impacto das relações entre os Roitmans mudou de eixo. Se na primeira versão o esclarecimento da morte de Leonardo servia como “cura” para Heleninha; dessa vez tudo só serviu para destruir a família mais ainda. A “grande revelação” esvaziou a novela, deixou tudo ainda mais paródico… e nem era o fim. 

Para piorar a semana, Fátima topou entrar no carro de Odete mesmo sabendo que ela virou uma assassina em série e foi parar num lugar abandonado para viver a perseguição mais esdrúxula dos últimos tempos. Raquel foi escalada para fazer parte dessa tensão pelo menos, mas é como se para Taís Araújo estivessem reservados os piores momentos dessa reta final da novela. 

Se novela é um processo de colaboração, Manuela Dias falhou em sua missão de prover as bases para que todos façam bem seu trabalho. Para ser uma boa protagonista, a atriz precisa de um bom texto. A “cruzada” da autora desse remake para provar que ela se daria bem “fazendo do seu jeito”, esbarrou na desconsideração pelo que essa história representou na teledramaturgia. A partir do momento em que você é responsável por um remake, você se torna responsável também por respeitá-lo. É preciso entender que não, aqueles personagens não são seus. Não, aquele universo não te pertence. Você só ganhou uma licença para contá-lo novamente (e não pela primeira vez). 

Sim, novela é um processo de colaboração… e ela começa no momento em que se cumprem as responsabilidades entre criadores e criaturas. 

É isso. 

Sem dúvida nenhuma, Bella Campos será a pessoa a sair mais bem ajustada do remake de Vale Tudo. Ela não foi a Fátima dos sonhos de ninguém, mas foi a Fátima que deu a volta nas expectativas de todos. 


Ana Clara não foi encontrada, mas Samantha Jones fez muito bem seu trabalho. A posição aqui no “Vale Quase Tudo” é muito mais porque a personagem também acabou sendo desperdiçada. 


E o César hein? Virou um completo idiota. 

 

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