Essa review poderia tratar da maneira mesquinha e maldosa que Hannah, Marnie, Shosh, Jessa e Elijah interagem. Poderia tratar também sobre a infelicidade de Marnie em seus relacionamentos. Poderia tratar de Hannah buscando adaptação em uma vida pós Adam. Mas depois de um argumento tão forte em um de seus arcos, essa review tratará principalmente da forma como Girls abordou um dos “tabus” mais discutidos dos últimos tempos: o aborto.
Mimi-Rose é uma personagem nova na série, e isso supostamente implica que pouca carga dramática lhe será imposta. Mas em apenas dois episódios, a personagem de Gillian Jacobs faz um argumento belíssimo que envolve o feminismo presente em Girls, através de sua criadora Lena Dunham. Se Mimi-Rose toma a decisão de fazer um aborto é porque o corpo é somente seu, e as decisões devem ser tomadas inteiramente por ela. A reação de Adam é costumeira, mas errônea por parte do “pai”. Ao buscar espaço na decisão, o homem infere diretamente em algo que transformará o corpo da mulher, unicamente, e isso é errado. Fazer o aborto sem consultar Adam pode parecer algo monstruoso, mas é, na verdade, um ato de bondade. Para Mimi-Rose, só existia uma alternativa, e privar Adam de tentar uma mudança de pensamento que não iria acontecer, só mostra como Mimi-Rose se importa com o personagem.
Mimi-Rose não precisa de Adam, como ela mesma diz. Mas isso não significa que não é interessante ter sua presença extravagante por perto (Mimi-Rose parece obcecada por observar o comportamento meio animalesco de Adam). A relação dos dois é diferente, pouco se vê nas ações de Adam semelhança na maneira como agia com Hannah (atitudes de carinho e sensibilidade são novidades). Assim como em um belo filme do ano passado, Obvious Child (estrelado por Jenny Slate e dirigido por Gillian Robespierre), um aborto não é motivo suficiente para destruir uma relação, contanto que as pessoas envolvidas tenham consciência de seus direitos e deveres, e de que o espaço privado do parceiro é inviolável.
Mirando no futuro, mesmo que de forma muito singela porque o argumento fortíssimo de Mimi-Rose deixa o resto do episódio um pouco na sombra, Girls atirou Hannah para um novo destino. Ser professora? A iluminada sessão com o terapeuta que só fala o que a paciente quer ouvir desvia Hannah de uma revelação honesta, e a coloca no caminho de mais um insucesso. Como os próprios amigos falam, Hannah é a pessoa mais egoísta que existe, incapaz de dividir um doce. Ainda que a última sequência do episódio mostre com euforia e coragem a protagonista entrando em uma escola, fica difícil de acreditar no sucesso de Hannah nessa mais nova empreitada.
















