Descanse em paz, Estelle Leonard, o primeiro homem negro a voar solo sobre o Atlântico (só que não).

Depois do cliffhanger bombástico do episódio passado – Rachel recebendo uma proposta para trabalhar na Louis Vuitton, em Paris – o natural seria o capítulo posterior focar totalmente nesse assunto.  Quando ouvi o raro “previously on Friends”, já tinha preparado as lágrimas, esperando um episódio triste e carregado. Felizmente, o texto de The One Where Estelle Dies soube balancear bem o drama e a comédia, dividindo os protagonistas em três arcos principais – e predominantemente cômicos, olha só.

O primeiro arco, envolvendo Phoebe e Joey, foi a despedida da “linda” mulher (por dentro) e “competente” agente Estelle Leonard. Mais uma vez, Friends prova que sabe fazer piada com o assunto morte, sem pesar o clima ou ser deselegante. Se valendo da inocência de Joey e do companheirismo de Phoebe, gerou cenas leves e divertidas. Foi interessante ver a preocupação genuína de Phoebe com seu amigo, que já estava por demais angustiado com tantas coisa acontecendo com a gang (o casamento da massagista, a mudança de Chandler e Mon ao subúrbio e, agora, o novo emprego da Rachel). Sendo assim, vendo que Joey ia tirar satisfação com Estelle por sua incompetência, Phoebe encarna a agente, replicando com maestria as idiossincrasias de Estelle (kudos para Lisa Kudrow, que acertou em cheio nos sotaques, nos gestos e até nas expressões faciais da falecida).

Claro que esse plano só funcionaria com o ingênuo Joey, que se impressiona pela filosofia de botequim de Phoebe e promete esperar um minuto para ligar, assim, sem motivo (pois “uma promessa entre amigos significa nunca ter que dar uma razão”) ou, ainda, se faz por satisfeito por aguardar o retorno da agente (pois “paciência é a estrada para o autoconhecimento, que, por sua vez, é a chave para um coração feliz”). Mesmo quando Joey é informado pelo outro-cliente-comedor-de-papel do acontecido, ainda prefere acreditar que está recebendo uma ligação do além, aproveitando para perguntar “como é lá” e se tremendo todo quando fake-Estelle fala algo sobre “dar uma passadinha”. No final, Joey (junto com a audiência) dá seu adeus à colega de showbiz – uma morte justificada, imagino eu, pelo então já confirmado spin-off do personagem (sem sua agente de anos, Joey tinha o caminho livre para tentar uma vida nova em Los Angeles – o que, como sabemos, não deu muito certo).

O segundo arco, o meu preferido, traz Maggie Wheeler de volta à série para reprisar, uma última vez, a espalhafatosa Janice Litman-Goralnik née Hosenstein. Mais anasalado e irritante do que nunca, aquele “OH… MY… GOD!” proferido pela personagem quando se encontra com Monica e Chandler foi uma grata surpresa – Friends não poderia acabar sem Janice de novo! Como foi bom ver o desespero do casal com a possiblidade de uma vizinha tão barulhenta (custava ficar de bico calado, Mon?) – e como eu queria que “Os Janice” tivessem mesmo comprado a casa (ia ser um spin-off muito mais legal que Joey, diz aí?)! Mas o melhor foi Chan sendo esperto, tomando coragem e se jogando em cima da ex, que, muito bem casada, rejeitou a proposta de se tornar “a outra” – não sem antes tascar um beijo apaixonado no rapaz (e fazendo com que suas bolas subam e nunca mais voltem ao lugar).

Por fim, nos voltemos ao plot que faz com que 10 entre 10 espectadores do seriado roam suas unhas desesperadamente. Afinal, o último episódio está aí, dobrando a esquina e Rachel ainda inventa de ir morar fora. Como assim? Se Monica, Chandler e Phoebe levaram a notícia com mais tranquilidade, entendendo que é o melhor para a carreira da amiga, os outros dois demonstraram grande inquietação. Joey, mais infantil, não fez cerimônia e protestou veementemente contra a partida daquela que talvez tenha sido a única mulher que já amou na vida (“meus abraços são reservados para pessoas que ficam na América”, arremata). Ross, claramente apaixonado pela moça, se joga ao desespero e vai implorar a Mr. Zelner que recontrate Rachel, mesmo que isso custe visitas ao museu, réplicas de ovos de pterodátilo e artefatos arqueológicos – parafraseando Jota Quest (ai, que vergonha), se isso não é amor, o que mais pode ser?

O que eu não esperava era a injeção de maturidade que o personagem parece ter tomado. Mesmo o plano tendo dado certo, Ross considera os sentimentos de Rachel e a aconselha a não ficar em Nova Iorque por conveniência e ir atrás do novo desafio. E mesmo o capítulo tendo sido, em sua maioria, divertido e descompromissado, no fim fica um sentimento de tristeza no espectador. Faltam só três episódios, meu santo, e agora Rachel vai mesmo para o exterior. “Algo vai acontecer e ela não vai viajar”, é o desejo/certeza de todos que terminam esses 23 minutos. Mas, com a série quase acabando, parece que não vai dar tempo de tudo se acertar. Angústia define.

Observações:

– Todo o plot de Joey vai por água abaixo se considerarmos que certamente ele reconheceria o número de telefone de uma de suas melhores amigas – que já deveria estar salvo na agenda de contatos…

– A corretora da casa à venda em Westchester foi interpretada por Jane Lynch, a já veterana atriz e comediante que só se tornou conhecida de muitos Série Maníacos mesmo no papel de Sue Sylvester, em Glee.

– Esta foi a última aparição de Janice na série. Além dela, apenas outros 3 personagens (além dos protagonistas) apareceram em todas as temporadas: Gunter e Mr. e Mrs. Geller.

– Descoberta do dia: a menos que Snoopy fale para Charlie Brown, Joey nunca vai descobrir algo por meio de um jornal.

– Estelle se junta a Joanna, Mr. Heckles e Althea (ou Nana, a avó de Monica e Ross) no obituário de Friends.

– Comentário desnecessário do dia: dá para ver a calcinha de Rachel no começo do episódio, quando ela está agarrada em Joey, tentando abraçá-lo.

Citações favoritas:

– Ross: “Emma deixou o T-Rex de pelúcia dela lá em casa! Você sabe, ela não consegue dormir sem ele…”

– Rachel: “Bem, ela está dormindo agora… Pare de forçar isso nela, Ross!”

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– Ross: “Eu sei que Rachel rejeitou sua proposta, mas eu acho que pode ter um jeito de você conseguir contratá-la de volta!”

– Mr. Zelner: “Isso pode surpreendê-lo, mas recontratar empregados demitidos não é minha ocupação principal!”

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– Monica: “Ok, a corretora disse que outro casal também fez uma proposta! Talvez “Os Janice” não consigam a casa…”

– Chandler: “A única maneira disso acontecer é se o outro casal for “Os Hitlers”!

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– Monica: “E se nós comprarmos as duas casas? Essa aqui pode ser a casa de convidados…”

– Chandler: “Ótima ideia! E, por falar nisso, eu não quero ser deselegante nem nada, mas quando foi que você começou a cagar dinheiro?”

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– Janice: “Que mundo pequeno!”

– Chandler: “E mesmo assim eu nunca topei com a Beyoncé…”

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– Rachel: “Você não vai acreditar no que aconteceu hoje: Ralph Lauren ligou de novo e me ofereceu mais dinheiro!”

– Ross: “Sério?!?!”

– Rachel: “Sim, foi muito estranho! Zelner ligou e disse que vai fazer tudo para eu voltar. E que eu deveria agradecer um tal de Ron. E eu nem sei em que departamento esse cara trabalha!”

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