Quando os primeiros e os últimos a ficarem contra a parede se encontram.

Um professor uma vez me falou que em toda história observada sobre o ponto de vista de duas pessoas traz três lados: a versão de uma, a da outra e a verdade. Aquela das duas primeiras que se comportar melhor diante da verdade é a que merece ser considerada mais precisa, independentemente do que realmente ocorreu.

Além do fato desse rápido comentário mais uma vez salientar o quanto os professores da área de exatas que conheço são peculiares, ele também traz de sua bizarra maneira uma correlação com a proposta de “Happy Go Lucky”, que joga o conceito da verdade e justiça pela janela para que os personagens tenham seu comportamento testado em um ambiente diferente. Sabemos que os mocinhos da nossa jornada não possuem nenhum controle sobre o que acontece em Neptune, mas a inteligência deles é capaz de fazer com que certos problemas sejam superados. Dentro de um tribunal, seu poder de reação é quase que anulado diante das perguntas do advogado de defesa. Esse clima de tensão é a raiz que o episódio que promete desde a sua primeira cena ser memorável por anunciar o aparente momento em que Aaron Echolls será penalizado por todo o processo que vimos na primeira temporada.

No próprio universo da série, não poderia ser mais claro a noção de que todo mundo deve pagar por algo. Os estilhaços da granada atingem até mesmo o faxineiro de escola, um efeito surpresa que seria impossível de conseguir um resultado melhor do que o seu ataque durante o intervalo, apenas mais uma das excelentes cenas e sequências que são distribuídas ao longo da narrativa. Penúltimos episódios normalmente estão em uma posição reservada para estouros como aqueles montados aqui, o que “Happy Go Lucky” respeita com uma intensidade ótima, usando o modelo televisivo de poder serializar suas histórias das maneiras mais variadas possíveis para abastecer o nossa mania de ver as pessoas de Neptune desfilando no sistema medíocre existente da cidade.

Sistema esse que repõe em jogo o eterno conflito entre poder e justiça. Esse é um episódio de perguntas, as mais dolorosas possíveis no pior local possível para fazê-las. O poder de subversão desse lado da narrativa não poderia ser mais eficiente do ponto de vista dramático. Veronica, Keith, Logan e todos que estavam em busca de justiça e eram apaixonados por Lily Kane estão tão sedentos e confiantes que expuseram o suficiente para que essa história pudesse ter o desfecho mais justo que ela poderia ter diante do contexto que deixaram-se levar por certos detalhes. O alívio passa gradualmente a ser o fardo. Os questionamentos sobre o que eles acham de si próprios e de seus entes queridos guia todos por uma saga de redescobrimento que não poderia ser mais inconveniente. O conceito de verdade em Veronica Mars mais machuca do que liberta, se é que podemos classificar aquilo como verdade por ser tão maleável.

Esses eventos gigantescos também servem como o impulso para outras temáticas universais da série. A revelação pública do fato de Veronica ter tido clamídia retoma a relação paternal dela com Keith de um jeito tão alheio ao resto em seguida que termina reforçando esse elo da dupla. Logan não larga os ideais com que ele começou o episódio, por mais que aquilo significasse sua entrada como isca nos planos de Aaron. Veronica e Logan são os adolescentes mais bem intencionados do mundo quando o assunto é fazer com que o assassino de Lily pague por suas ações, mas sistemas judiciários não são moldados apenas no conceito de intenção. Eles descobriram a verdade, porém estiveram longe de se comportar do modo que a lei queria para poder mandar Aaron para a cadeia.

Existe toda uma minúcia no momento de deixar todos os personagens no buraco mais fundo que Veronica Mars pode cavar. Uma daquelas sequências maravilhosamente tristes em que os personagens encontram-se em uma posição de felicidade (Wallace e Jackie se acertando, Weevil conseguindo terminar o ensino médio…) e partem para uma tristeza coletiva por razões particulares. Justamente aquele tipo de derrubada de pedestal que nos move e nos moverá enquanto a televisão existir.

No fim, Aaron Echolls terminou inocente. De todas as injustiças, provavelmente aquela com que eu mais me diverti.

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