“And there in the desert, through the tragic sand storms, there was a boy and a priest and He gathered them together into a place called Armageddon”.

Lá nos idos de março de 2005, chegava ao fim Carnivàle, drama criado por Daniel Knauf, que concebeu a trama ao longo de mais de 10 anos antes da mesma ir ao ar. A série é ambientada nos Estados Unidos da década de 1930, em plena Grande Depressão, e conta a história de um jovem acolhido por um circo e um padre, que, em mundos opostos, descobrem serem peças-chave na batalha entre o bem e o mal, entre o Céu e o Inferno.

Com 15 indicações ao Emmy, vencendo em 5 categorias, o drama iniciou sua trajetória em 2003 batendo recorde de maior estreia para a HBO. No entanto, a natureza bizarra e o desenvolvimento pausado de sua história influenciaram a queda da audiência, que levou ao cancelamento da série ao fim de sua segunda temporada. E que cancelamento triste.

Mas antes de falar sobre a série em si, é válido apontar que ela abriu espaço para que a HBO desenvolvesse alguns projetos mais recentes, como Boardwalk Empire e Game of Thrones. Isso se deve ao fato de que, apesar de ter encerrado com metade da audiência de sua estreia, Carnivàle foi uma demonstração para a o canal de que existia um público que se manteria fiel a projetos que tivessem um desenvolvimento lento, mas que contasse com história rica e personagens bem trabalhados.

E se tem um aspecto forte na série é sua história. Liberando pistas aos poucos sobre qual seria o verdadeiro foco da trama, Carnivàle emerge de um piloto simples, em que se deixa claro pouca coisa, além da natureza bizarra daquele universo, para ganhar contornos bíblicos e apocalípticos intensos em torno do qual giram questões sociais e políticas. Vale ressaltar que para firmar a ideia da luta entre o bem e o mal, as estratégias visual e narrativa adotadas giram em tornos de opostos. Temos o núcleo do Padre Justin, com sua irmã Iris e a busca do mesmo em seguir o plano de Deus que ele acredita ter recebido através de suas visões e de suas habilidades estranhas (como fazer uma mulher vomitar moedas, após o furto das mesmas).

Em outro núcleo, temos o elemento principal: o circo chamado Carnivàle. Ben Hawkins é encontrado pela caravana do circo itinerante durante travessia pelos Estados Unidos. Após enterrar sua mãe e ter sua casa destruída, o garoto entra para o circo e neste, através da interação com indivíduos com habilidades singulares, como a cartomante Sofie e Lodz, cego e capaz de ler mentes, percebemos que o garoto tem algo estranho dentro de si, chegando a quase causar a morte de Lodz durante a leitura da mente do rapaz enquanto dormia. Mas logo vemos que Hawkins tem o dom de dar vida a pessoas, mas, para tal, existe um preço a ser pago.

Em seu âmago, Carnivàle é um drama de atmosfera. Para estabelecer o clima de tensão, a série é constantemente imersa em uma escuridão sufocante, certas vezes sem trilha sonora e, em determinado momento, sem qualquer imagem, somente com sons diegéticos amplificados. Para evidenciar a natureza bizarra do circo, a fotografia investe em ângulos baixos, closes angulares e a maquiagem pomposa que não suaviza qualquer traço de seus personagens únicos (a garota lagosta, a mulher barbada, as deformações de Belyakov e os demais). Mas nenhum aspecto é tão marcante na série quanto o enclausuramento, por vezes, levando a uma sensação de claustrofobia, resultante das cores quentes e dos planos abertos que intensificam as paisagens desérticas e desoladas, marcadas por tempestades de areia, nas quais os personagens são inseridos.

Mas nenhuma atmosfera poderia ser efetiva se não existissem personagens interessantes e intérpretes talentosos para nos fazer acreditar nesse universo. E que galeria invejável de personagens e atores Carnivàle ostenta. Nick Stahl compõe Ben Hawkins como um rapaz quieto, calado e que parece carregar o peso do mundo nas costas, mas que, aos poucos, desenvolve a coragem para enfrentar seu destino. Por outro lado, Clancy Brown transparece a convicção religiosa do Padre Justin de forma quase fanática e habilmente assume as diferentes facetas que o personagem ganha ao longo da segunda temporada. Contando com 15 coadjuvantes regulares, é esperado que acabesse por faltar complexidade a algumas figuras. Mas é possível destacar Michael J. Anderson, como Samson, o anão que administra o circo; Tim Dekay, como Jonesy, o braço direito do anão; Clea DuVall, como Sofie, a cartomante que se comunica telepaticamente com a mãe catatônica; Patrick Bauchau, como Lodz, que possui um interesse incisivo em Hawkins; Cynthia Ettinger e Carla Gallo, como Rita Sue e Libby, mãe e filha que fazem um show de cootch (striptease); e, por último, Amy Madigan, como Iris, a irmã fiel e fanática do Padre Justin, com o qual tem uma relação distorcidamente incômoda.

Apesar de toda a depressão, do isolamento, do deserto (várias vezes eu me via sentindo uma sede insuportável enquanto assistia aos episódios) e da pobreza vista nas séries, Carnivàle é um banquete visual dos mais belos que pude presenciar na TV. Como não se deslumbrar com um plano aberto em que vemos um corpo coberto de piche e penas, no chão do deserto, sendo sobrevoado por abutres? Ou com uma cena que, para mostrar a incapacidade daqueles personagens fugirem daquela realidade trágica e miserável, vemos mãe e filha dançando o cootch como se cada uma representasse o seu próprio reflexo no espelho? E mais, que forma mais elegante de apresentar o dom do protagonista que ele curando uma garota paraplégica e, ao mesmo tempo, destruindo uma grande plantação ao redor? E tudo embalado por uma trilha soberba, que aplicando sons diegéticos e instrumentos folclóricos e religiosos, representa um espetáculo à parte.

Carnivàle é única. Desde seus personagens à sua forma de enxergar a batalha entre o Bem e o Mal, o Céu e o Inferno. Mas, apesar de ter uma mitologia grandiosa, a série não se esquece de seu lado humano e não subestima o público. Só uma série com plena confiança no público tem a coragem de, em uma cena de sexo, transmitir tristeza, vergonha, carinho, dor, pena, entrega, desejo e auto-descoberta sem precisar explicar nada, dizer nada. E é pela coragem, pela elegância, pela beleza e pela humanidade pulsante que Carnivàle se tornou uma série revisitada por mim e pelos críticos. Uma série que no seu tempo foi criticada por se desenvolver lentamente, mas que, hoje, é laureada por isso. Por fim, uma obra que recompensa quem se aventura em seu universo com uma mescla singular de drama, suspense e religião.

Segue abaixo a primeira cena da série:

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