Quem quer brincar põe o dedo aqui, que já vai fechar o abacaxi.

Spoilers Abaixo:

Algo que sempre fez Monk uma série especial é que mesmo com o processo de planificação do protagonista ela sempre conseguiu se estabilizar em um nível de qualidade surpreendentemente alto por colocá-lo em situações onde Adrian Monk tinha que enfrentar algum dos seus medos, uma de suas crenças, o seu passado, etc; sendo que ele quase nunca realmente enfrentou aquilo, resultando em momentos muito engraçados. “Mr. Monk and the Kid” é um exemplo sensacional de como Monk soube utilizar o seu protagonista ao longo da série, colocando-o em uma narrativa que é tanto bastante divertida como é também capaz de retirar um balde de lágrimas do seu público. Uma das características que mais definiriam o personagem foi sua inaptidão em largar qualquer coisa, algo que antes mesmo do fim do episódio piloto a série conseguiu estabelecer com segurança. É por esse motivo que todas as cenas de Monk com Tommy acabam sendo muito emocionantes, é certo que em algum momento daquela história Monk teria que ceder a criança, mas a série utiliza essa previsibilidade em um pensamento de que se deve aproveitar o tempo que nos resta que encapsula grande parte do avanço que Adrian Monk tem como personagem nesse episódio, decidindo que ele tome uma das maiores decisões da sua vida (adotar Tommy provisoriamente) antes mesmo do término do primeiro ato.

Antes dessa decisão, “Mr. Monk and the Kid” faz um trabalho sensacional de plantar as sementes que levarão a resolução do caso policial* do episódio de forma sutil enquanto inicia os paralelos entre Tommy e Monk que se desenvolvem ao longo da história. O rosto dos atores mirins que interpretam Tommy convida um daqueles sorrisos ao rosto do público e transpõe certa pena por Monk e todo o seu desespero ao ver a criança brincar com um galho de árvore. A admiração oferecida por Tommy da maneira mais ingênua possível atrai o próprio Monk a se abrir de uma maneira que ninguém (nem mesmo Dr. Kroger) conseguiu fazer em um tempo tão rápido.

* Para quem não lembra: Esse é o episódio em que o caso da semana se desenvolve ao redor de uma investigação que se inicia com um dedo que é encontrado em um parque, tornando-se em seguida um caso de sequestro. Toda a evolução da aventura policial segue o esqueleto de um episódio comum da série, o que acaba ficando em segundo plano diante do envolvimento que Monk tem com Tommy.

Uma das coisas mais curiosas da série que aqui se faz presente, mas sob um ângulo totalmente diferente do habitual, retirando mais momentos dramáticos do que buscando gargalhadas, é justamente essa idiossincrasia de Monk em não deixar coisas para trás, o que poderia ser o calcanhar de Aquiles do personagem se não fosse a habilidade da série em trabalhar com isso. A grande história de Monk em busca de redenção e do assassino de sua esposa é justamente baseada nesse princípio do personagem que fez com que ele se tornasse obsessivo até no momento de escrever sua assinatura**, sendo esta tendo que atingir a perfeição. Dói bastante ter que observar Monk entregar para outra pessoa alguém por quem ele tinha uma afeição tão grande. Adrian Monk sempre foi um personagem que se esforçou em preencher o vazio que Trudy deixou e quando ele finalmente conseguiu chegar perto desse objetivo tudo desapareceu diante dos seus olhos, algo que a série faz de forma mais complexa ainda por fazer de toda atividade algo voluntário do personagem, o momento de reflexão mais importante e bonito*** do mesmo em toda a série.

** Esse é um dos episódios mais engraçados de Monk. O timing de Tony Shalhoub em algumas cenas é quase perfeito, principalmente naquela em que ele liga para 911 por causa de uma troca de fraldas em total desespero. Andrei Belgrader faz um excelente trabalho ao nunca mostrar o lado de Monk naquela situação, deixando que a histeria de Shalhoub guie o espectador no processo, e também nas tomadas do teto exibindo o comportamento dos outros operadores.

*** A cena em que Monk faz a versão do “Here’s what happened…” através de uma pequena história para colocar Tommy para dormir com todas as animações é linda, assim como a despedida no fim, que acaba sendo um dos momentos mais felizes e ao mesmo tempo tristes da história da série, um daqueles paradoxos que são decisivos quando falamos de uma pessoa tão fascinante como Adrian Monk.

***

24/06 – Bad Moon Rising (Everybody Loves Raymond)

01/07 – Afternoon Delight (Arrested Development)

08/07 – Blink (Doctor Who)

15/07 – Pilot (Friday Night Lights)

22/07 – Out of Gas (Firefly)

29/07 – Our “Cops” Is On (My Name Is Earl)

05/08 – Exodus (Battlestar Galactica)

12/08 – Something Borrowed, Someone Blue (Frasier)

19/08 – Coda (The Wonder Years)

Infelizmente, por causa das reviews e a gigante quantidade de séries que aparecem no período da Fall Season os meus textos na coluna Flashback terão intervalos maiores entre eles a partir da última data do calendário. As dicas estão anotadas, mas graças ao aumento da quantidade de “trabalho” que normalmente aparece nessa época, elas não poderão ser transformadas em textos em datas específicas, fazendo com que eu não garanta o texto em certo dia como venho fazendo no período da Summer Season.

Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas. Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios. Espero que vocês gostem.

Artigo anteriorThe Big C – 3×09: Vaya Con Dios
Próximo artigoThe Glee Project – 2×02: Danceability