Para uma edição que começou com lições truncadas, os resultados podem ser surpreendentemente positivos.
Quando o Big Brother Brasil começou tudo era uma questão de enquadramento social. Mais do que vistos como pessoas, os participantes estavam sendo vistos como bandeiras. Os brancos privilegiados, os pretos engajados politica ou artisticamente, os gays, os “desconstruídos”, os monstros da direita… Chegamos a um ponto em que as pessoas estavam sendo tratadas e julgadas dessa maneira, como “vítimas” de suas condições ou algozes das condições alheias. Tudo era uma oportunidade para esfregar conhecimento válido em superfícies erradas, confundindo mensagem com oportunismo e vaidade.
O programa se tornou uma ameaça para si mesmo. De fato, é bastante possível que convencer outros famosos a entrarem depois dessa edição seja muito difícil. Convencer as pessoas a viverem sem medo dos cancelamentos é uma regra valiosa dentro de um reality show (sob o risco de ser cancelado, inclusive). O BBB 21 deixou um monte de gente tóxica tomar o protagonismo e o resultado disso foi um monte de gente tóxica assumindo a liderança das votações. Apenas isso explica a eliminação absurda de Carla Diaz, humilhada e enganada por um cafajeste por dias e dias; e pagando no lugar dele por pecados que não eram dela.
Rodolffo é o símbolo de uma parte do Brasil que se recusa a andar. Pessoas que ainda acham que em 2021 a desculpa de ser “caipira” é escudo suficiente para disseminar ignorâncias. É preciso reforçar que Rodolffo é o menor dos males. O perigo mesmo são os milhões que votaram em todas as vezes em que ele poderia ter saído e ficou. Na realidade paralela – e compartilhada – do BBB, o perigo maior é sempre o que está aqui fora. E o que estava aqui fora era o racismo, o machismo e a homofobia. Todos devidamente envolvidinhos naquela argumentação clássica do “ele tem um coração bom” – o que ele realmente deve ter – mas esquecidos de que a eliminação não é só se livrar da presença física, mas do que ela representa – e acorda – aqui do lado de fora.
Então, na última terça-feira, depois de encerrada a votação, Thiago Leifert resolveu falar abertamente sobre o episódio do cabelo de João. A reação emocionada de Camilla veio na hora. Ela provavelmente também estava cheia de surpresa. Sejamos francos: Boninho foge de posicionamentos como o diabo da cruz. Acredito, inclusive, que é o próprio Thiago quem tem insistido para falar. A conversa sobre abuso no BBB17, quando Marcos foi expulso, foi outro momento em que as cortinas do entretenimento foram levantadas e um diálogo sério entre Ieda, Vivian e Emily, entrou na casa das pessoas para muito mais do que o planejado para um programa como esse.
O que aconteceu enquanto Thiago falava com Rodolffo sobre João foi muito mais intenso e efetivo do que todas as semanas em que Lumena e Karol cavavam engajamento por entre as almofadas. E foi assim porque o que João sofreu, aconteceu daquele jeito como acontece com pessoas pretas todo dia: assim, do nada, no meio de uma conversa aparentemente inofensiva, tão trivial que a reação nem vem de cara, tão real e tão palpável que lá estava o apresentador – que não se manifestou sobre nenhum dos rompantes do “grupão” que havia entrado ali para engajar-se – finalmente falando a respeito, para uma plateia externa e interna totalmente silenciosa, ouvinte, disposta. No final das contas, era em João e Camilla que a razão e o coração trabalhavam a nosso favor. Uma vez retirados os que gritavam sem serem ouvidos, ficaram os que souberam quando falar.
Camilla sempre se envolveu em tudo, mas João permaneceu discreto por tempo demais. O engraçado é que na outra ponta, Gil e Juliette estiveram no protagonismo da edição desde sempre. Gil começou por cima e ela por baixo. A péssima influência de Sarah e dos “bastiões” colocaram Gil no lugar errado do jogo, então ele desceu e Juliette subiu. Mas, será que eu não deveria estar colocando aspas nesses termos? Será mesmo que os dois “subiram” ou “desceram” no jogo de verdade? Será que eles não sempre estiveram naquele mesmo lugar onde são colocados os gays afeminados e as mulheres que tem muito o que dizer?
Gil e Juliette tem isso em comum: eles são “demais”. Gil grita demais, é viado demais, fala de sexo demais… Juliette reclama demais, se vitimiza demais, fala demais, é chata demais… Nenhum dos dois – nem ele e nem ela – sofre do mal da indiferença. E tem melhor tipo de pessoa para entrar no BBB? Ao mesmo tempo, são opostos racionais. Gil é paranoico, sanguíneo. Juliette, advogada, coloca as emoções um pouco de lado no momento da fala e se explica, com sentenças completas e inflexão segura. Ela quer convencer. Gil quer ser convencido. Os dois vão se afastando e se reencontrando nesse processo, afinal de contas, metade da casa reclama dele e a outra metade reclama dela.
As histórias de Gil e Juliette se esbarram num programa de televisão que não foi concebido para acolher diferenças. Por anos, o BBB foi um desfile de corpos, um desperdício intelectual disfarçado por seu apresentador erudito. As histórias de Camilla e João se entrelaçam diante de uma audiência que não está acostumada a ser acusada de celebrar Rodolffos todos os dias. Os quatro, então, formam quase que uma comissão de frente demolidora, que vai forçar a passarela custe o que custar, porque o desfile é inevitável em pleno século 21; e a gente (sim, nós estamos aqui)… a gente quer ver esse desfile passar.
Foi terrível, foi difícil demais ver assuntos tão importantes sendo ridicularizados no começo desse BBB. Mas, vejam que virada inesperada… Dois gays, dois pretos, dois nordestinos, protagonizam o programa em suas últimas semanas e podem ser, enfim, o Top 4 que faria a edição 21 ser maior, melhor e mais poderosa que qualquer outra. É uma esperança para todos nós. O programa tá chato? HERESIA! O programa está no lugar em que devem chegar todas as melhores histórias da vida: o lugar em que prevalece a redenção.
* O título desse texto se refere às trajetórias de cada um no programa, dentro das posições em que eles foram colocados pelos participantes. Gil se autodeclara preto e sobre isso não há nenhuma dúvida.
Notinhas:
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Vih Tube FAZIA o jogo mais eficiente da casa. A forma como se aproximou de Gil e João após os eventos recentes foi ridícula de tão óbvia.
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Thaís: PELO AMOR DE DEUS, JÁ DEU.
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A aproximação entre Gil e João, contudo, tem sido maravilhosa de ver.
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Pocah começou a aparecer e vejam só, está sendo até um pouco querida.
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Fiuk: tem sorte que tá do lado do Gil, mas é descartável pro jogo.
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Arthur é um peso morto, quase um vilão de desenho animado pra quem nada nunca dá certo.
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Apesar de nossas IMENSAS reservas, não vamos tirar nunca do Rodolffo e do Caio o reconhecimento da amizade entre eles. Existe amor de verdade ali, um amor que apareceu mais forte ainda quando Caio se machucou. Ninguém nunca é uma coisa só. Lembra do que o Thiago disse? Caminho do meio… Nem fogueira, nem indiferença.






















