A edição 24 do Big Brother Brasil não foi DIFERENTE das outras; ela só foi pior.
Vamos começar estabelecendo que um esforço na memória vai nos dizer que vencedores dúbios não são uma novidade no Big Brother Brasil. Essa não é a primeira vez que a torcida estraga tudo; não é a primeira vez que a produção estraga tudo; não é a primeira vez que pautas são esvaziadas; não é a primeira vez que o programa desemboca no equívoco… Mas, não é porque a mesma história está sendo contada que ela não é capaz de tocar de um jeito diferente.
Tenho a sensação de que o BBB24 foi mais amargo que os outros… Talvez seja uma percepção mais evidente porque conforme as edições dessa “era pós-pandemia” foram passando, foi ficando mais difícil esconder desconfortos ou ter paciência para certos detalhes. Talvez nada nunca tenha mudado, mas alguns de nós talvez tenhamos nos tornado mais rabugentos, mais descontentes com os “truques” e com a mercadologia do programa; mais reativos ao enredo da “justiça”… Talvez só tenhamos jogado a toalha porque ela encharcou e não deu tempo para secar.
Mas, é possível que dessa vez algumas coisas tenham passado de conta… É possível que dessa vez a direção de Boninho tenha pesado a mão onde não devia e sido negligente onde deveria ser pesada. É possível que ele tenha esquecido que quem tem favoritos é a torcida… É possível que ao dedicar mais de 15 minutos por dia de programa para vender, vender, vender; tenha esquecido que quem “compra” exige um serviço, um resultado…
Também é possível que a torcida tenha azedado a palavra “torcida”. Quando Paula venceu o BBB19 a luta contra o racismo não era pauta. Quando Amanda venceu o BBB23 dentro de um quarto em que a única participante preta restante ignorava a branquitude dos resultados, a luta contra o racismo também não era pauta. Dessa vez, por ser Davi um participante preto e periférico, houve uma convergência daquele lado grande que só vai para onde o vento leva e o outro lado, o de quem geralmente nem assiste o programa, mas está pronto para reverberar o discurso vigente. Quando a luta contra o racismo finalmente virou a pauta, a luta contra o machismo, a homofobia e a misoginia é que foi esvaziada; porque torcida de Big Brother funciona assim: ela cobre as necessidades do que o favorito representa. O que ele não representa não interessa.
E talvez por isso tenha sido mais difícil ignorar que a defesa a um rapaz preto significava ser negligente com uma mulher preta… com duas mulheres pretas… com três mulheres pretas. Davi era defendido com ares de revolucionário em postagens de influencers e celebridades; porque é assim que determinam os deuses do compartilhamento; essa é a praxe do posicionamento reverberado e não discutido. Mas, que revolucionário é esse? É aquele que consegue o impensável: ter uma dezena de falas machistas e misóginas e escapar do funil do cancelamento, simplesmente porque está em não torcer por ele a verdadeira carapuça do cancelado. Não quer ser racista? Torça pelo Davi. Você pode continuar sendo racista no seu dia-a-dia e com outros participantes, mas se tem um carrinho no seu perfil, você é ativista.
Talvez isso tenha sido um pouquinho mais complicado de aceitar dessa vez… A produção do Big Brother sempre gostou de um merchan, mas esse ano só faltou capitalizar em cima do ar que eles respiravam. Vender era a palavra de ordem. E as dinâmicas propostas para “movimentar” o jogo também não foram exatamente convidativas. De um lado o apresentador exige que joguem, mas do outro o diretor os impede de conseguir o mínimo de organização. Esse ano, até o líder foi esmagado pela megalomania de Boninho, que exigia que o soberano do voto só votasse em alvos declarados. Elemento surpresa? Pra que?
O botão de desistência trabalha duro desde que foi inventado, na edição 22. A receita do caos proposta pela direção resulta em caos psicológico nos participantes… Participante desiste com surto psicótico agudo; participante racista expulso por uma manobra oportunista; participante gaslighter, machista, homofóbico; participante declarando miséria emocional; participante desesperado por atenção fazendo roupa de casca de fruta, berrando, exasperando; participante dando soco na cabeça porque foi eliminado… e apresentador fazendo declarações eugenistas em pleno horário nobre. A saúde mental desse louco organismo chamado Big Brother esteve em frangalhos.
Será que sempre foi assim? Talvez tenha sido. Ou talvez esse ano não tenha havido campo-de-força suficiente para conter a nossa impaciência. Talvez esse ano ver uma participante ser expulsa por conta de um toque num edredom enquanto não são expulsos dois outros que quase se agrediram, machucaram outras pessoas e infringiram várias cláusulas contratuais; tenha sido mais indigesto; principalmente adicionando o episódio em que uma outra participante pede autorização para cometer um ato de vingança e depois é chamada atenção por executá-lo. “Não tocando um no outro, pode até colocar uma cadeira na frente pro outro cair”.
Talvez esse ano tenha sido mais insuportável que antes, porque não havia nada que aliviasse a nossa frustração. Aos fãs de Fernanda e Pitel essa declaração não chega do mesmo jeito. A relação delas foi a mais sincera da casa, mas elas não eram as figuras mais carismáticas desse enredo. Estavam mais para Meredith Grey e Christina Yang do que para Rachel e Monica. Foram um alívio para quem ainda capinava possibilidades no meio da selva de favoritismo, mas não o suficiente para tornar a experiência menos agonizante. Era difícil gostar de qualquer pessoa, porque todas elas estavam munidas de humanidades calculadas para as câmeras ou de realidades ignorantes. O elenco mais disposto a errar… lidando com uma produção decidida a cometer erros.
Davi merece o prêmio porque foi protagonista. Essa é a loucura desse formato… Outras vitórias foram complicadas porque os piores tipos também eram protagonistas. As mentiras dele; as hipocrisias dele; as artimanhas e oportunismos dele… tudo isso faz parte de um cenário permitido para o jogo. O problema é que o Davi virou ferramenta de esvaziamento de pautas; virou soldado da justiça e da moral; virou tatuagem de “consciência social” e escapou de muitos julgamentos que seriam justos, mas que foram ignorados. Ele não é um jogador bom; os outros é que são piores. Ele representa tudo que o país precisa ver na TV todos os dias: homens e mulheres pretas vencedores. E também representa tudo que eu não admiro em um homem. Paradoxal como a vida; desde que o paradoxo seja reconhecido. E não foi. Esse moço não é o Deus da verdade. Mas, ele foi o protagonista.
O protagonista de um país desnorteado… e acostumado com o sucesso da estupidez.
Acabou. Ano que vem tem mais.






















