Abaixo da média entre os espectadores, o Big Brother Brasil 22 foi um absoluto sonho comercial.

Durante muito tempo, o Big Brother Brasil foi considerado a escória da TV. As falas de Ícaro Silva que foram rebatidas com a insensatez de Tiago Leifert eram, na verdade, um eco do tempo. Embora hoje em dia já haja um movimento maior de compreensão acerca do que o programa representa em termos de entretenimento e estudo social (o que ele não tem a menor obrigação de ser, diga-se de passagem), ele segue sendo uma peculiar peça de anacronismo complacente: ele avança duas casas para o futuro por uma ou duas edições e volta três na edição seguinte.

As polêmicas que cercaram o programa sempre foram de ordem extrema. Comportamentos sexuais permissivos, bebedeiras, brigas vulgares e tudo aquilo que reflete exatamente a vida real, mas que eram um espelho desconfortável, muito mais fácil de combater com senso de superioridade. O BBB é sim uma experiência quase zoológica, mas é uma janela hiper exposta do que constitui a sociedade. Sob um olhar específico, o programa é um sortimento de possibilidades fascinantes; e elas incluem, sim, o pior da natureza humana.

Boninho nunca teve problemas em vender o programa para anunciantes. Ele nunca teve, tampouco, tantos negócios fechados quanto agora. Se a gente puxar da memória, em edições passadas, acontecia de vez ou outra uma prova do líder ou do anjo não ser atrelada a uma marca. De três anos para cá e especialmente esse ano, TODAS as provas eram patrocinadas e as marcas ocupavam uma posição de residentes da casa, tanto quanto os participantes. E isso, é claro, foi o resultado do quanto os Big Brothers 20 e 21 tinham quebrado alguns dos preconceitos e se tornado, em ordem crescente, os mais vistos da própria história.

Contudo, ainda precisávamos lidar com os extremos. No BBB 20 o comportamento dos homens transformou a edição numa batalha ideológica. As marcas, então, acabavam atreladas a isso involuntariamente. Na edição 21 o problema era de ordem energética. Um grupo exalava negatividade e nenhuma marca quer ser reconhecida por estar ligada a tal processo. Depois, começou o assustador plano de gaslighting dos participantes em cima de Juliette e as marcas todas se redirecionaram na direção dela, que assinou contratos com várias assim que saiu. É importante ficar “do lado certo”.

O BBB 22, enfim, veio para deixar todas essas marcas em pleno conforto. Apesar da reputação de “flop”, essa é uma edição tão bem sucedida quanto as outras. O que ela perdeu em senso de entretenimento, ela manteve em audiência, volume de votos, engajamento em redes sociais e retorno financeiro. E o melhor de tudo: sem absolutamente nenhuma polêmica, nenhum resvalo político velado ou declarado, nenhum posicionamento extremo ou mesmo um barraco gigante para ser usado em montagens detratoras no Tik Tok. O BBB 22 foi “esterilizado”, “higienizado”, seguro para qualquer anunciante e defensor de uma narrativa de redenção que é a preferida da sociedade desde os primórdios da cultura pop: a do cafajeste arrependido.

O Que Deu “Errado”?

Um dos momentos mais emblemáticos dessa edição foi a entrada do próprio Boninho no jardim da casa. Sob o pretexto de divulgar a nova programação da casa (o que facilmente poderia ser feito por um astro da empresa), o “Big Boss” saiu do protocolo estabelecido por ele desde a primeira edição: só se comunicar com os brothers e sisters através de chamadas no telão ou através daquela voz eletronicamente alterada. Ele, que costumava dar declarações rudes sobre os participantes, entrou com um sorriso de orelha e orelha e cumprimentou os 5 homens que restaram na competição como se estivesse encontrando velhos amigos no “futevôlei” da Barra da Tijuca.

Vamos ser justos aqui, claro. Na edição passada Boninho já tinha declarado publicamente, em seu instagram, a simpatia por Gil do Vigor. Mas, a vibe do encontro com PA, Scooby, Eli, Arthur e DG era diferente… era REALMENTE orgulhosa. Acredito que os encontros dele com André Marques, Tiago Leifert, Bruno de Luca, Michel Teló e todos os outros que fazem parte de sua rede de contratações seja bem parecido. E não será surpresa se ao menos Scooby se integrar ao time. Uma jornalista da Veja foi rechaçada depois de publicar uma declaração do diretor anunciando sua torcida pelo surfista. Boninho voltou atrás e criticou a revista. A revista rebateu.

O que Tadeu Schmidt (emocionadíssimo) e a edição tentaram vender foi a ideia de que essa era a edição da camaradagem. O grupo dos meninos foi ficando, semana após semana, muito mais porque eram o “gado” no plano de Arthur Aguiar, do que porque essa narrativa de amizade estivesse colando. Sem humor e sem carisma, o grupo se movia no jogo com legitimidade, mas seria ingenuidade achar que o público mantinha todos juntos por conta dessa ligação. O que o fandom queria era proteger Arthur – e isso ainda é questionável. Após a final, Maíra Cardi declarou que Arthur tinha uma equipe de 50 pessoas trabalhando para fazê-lo campeão. A Sra Aguiar também tinha uma “agenda”, não se enganem.

Ao mesmo tempo, Arthur protagonizou a edição e por isso merecia vencê-la. Lina era uma participante que até poderia ter salvado o programa na sua reta final, mas se pensarmos friamente, ela não era uma boa jogadora; assim como Natália e Jessi – também muito presentes – também não eram. Arthur entrou com um plano e a única coisa que ele não previa era que Rodrigo entrou com quase o mesmo. Então, ele precisou primeiro influenciar a maioria para eliminar o colega e depois assumir EXATAMENTE a função dele: tentar jogar, não conseguir e se isolar. Com uma oratória impressionante e uma perigosa competência em convencer os outros do que ele quisesse, Arthur fez uma exibição em rede nacional daquilo que ele antes só havia feito no âmbito das próprias relações: dissimular.

E ele ainda deu sorte, esbarrando num Tiago Abravanel que plantou sua positividade tóxica, travando emoções humanas naturais e que talvez tenha sido a pior escalação da história dos realities. Abravanel, que supostamente é fã do programa, também entrou com a própria “agenda”: uma elusiva ideia de que um BBB pode ser feito com harmonia. Foi atropelado pelo escrutínio público. Apesar de suas boas intenções, Abravanel só esqueceu que o programa que ele ama é feito de extremidades, de embates de personalidade… e que todo crescimento e toda evolução são parte de um processo de luta. Luta. A harmonia é o nome que se dá ao descanso dos que batalham. O BBB 20 e o BBB 21 são os melhores do mundo justamente porque eles foram luta, exposição, debate, força. O lugar da harmonia é aqui fora… e ela, graças a Deus, foi sempre alcançada. “O que tem de errado em querer a paz?”. Nada. O problema é o que há de errado em exercer a “superioridade do equilíbrio”.

Assim, chegamos ao fim dessa edição sem erros graves e sem acertos felizes. O BBB 22 será devidamente colocado na prateleira das edições esquecíveis. Esperemos que ano que vem se instaure de novo o caos. Não existe reality sem catarse. Não existe catarse sem drama.

Notas dos Dummies:

  • A música de abertura piora a cada ano. Quando faremos a petição pela versão original?

  • Vini foi uma decepção? Foi. Precisamos deixar o Vini em paz? Também.

  • O paredão falso do Arthur acaba de tirar do paredão falso de Carla Diaz o título de mais “vergonha alheia”.

  • Dani Calabresa no CAT foi uma delícia.

  • Paulo Vieira esteve sensacional TODAS as vezes. Um primor.

  • Tadeu Schmidt nos conquistou sem esforço algum. Que profissional e que pessoa adorável.

  • Pedro Scooby foi um participante celebradíssimo por Boninho, mas que é tudo que um participante não deve ser: anti-BBB.

  • Saudades loucura bem-vinda de Naiara.

  • Minha admiração pelo comprometimento da Jade. Teria sido lindo ver uma mulher muito decidida tombar com Arthur, que está acostumado ao contrário.

Que venha o 23.

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