Todos temos um caminho que deve ser percorrido, mas em algum momento ele chega ao fim.
Clara Oswald surgiu em Doctor Who em 2012, no episódio “Asylum of the Daleks”. Durante a sétima temporada, ela serviu mais como um plot (The Impossible Girl) do que realmente como personagem em si, mas com o passar do tempo, Clara acabou ganhando uma enorme importância dentro da mitologia da série. Ela se espalhou através da timeline do Doctor em um esforço para mantê-lo seguro, teve influência na escolha da TARDIS, foi responsável por conseguir um novo ciclo de regeneração para o Doctor, esteve presente no momento que definiria o futuro de Gallifrey, encontrou-se com o Time Lord quando ele ainda era uma criança, etc.
Nossa Soufflé Girl se transformou ao longo desses três anos. Em suas primeiras aventuras, Clara parecia não se importar muito com o encantamento proporcionado pelas viagens através do tempo, tanto que ela deixou claro que não estaria na TARDIS em tempo integral, pois sua vida social ainda era mais importante. Com o tempo ela não conseguiu resistir e suas viagens ao lado do Doctor se tornaram mais frequentes, porém ela ainda via a necessidade de manter uma vida civil. Foi então que surgiu a dificuldade de conciliar uma vida dupla, mantendo tudo isso em segredo, principalmente do seu namorado, Danny Pink. Com a conclusão do oitavo ano, nós presenciamos o surgimento de uma Clara mais impulsiva e que desafiava o perigo de uma forma que nenhuma outra companion havia feito e era óbvio que esse tipo de comportamento lhe traria problemas.
Clara sempre possuiu uma personalidade difícil. Questionadora e abusiva, ela teve seus altos e baixos com o 12º Doctor. Ambos passaram por uma fase de constantes conflitos até se acostumarem um com o outro. Mesmo tendo uma leve inclinação para desafiar as pessoas ela também mostrou que possuía um lado compassivo e altruísta, sendo capaz de por sua vida em risco para ajudar alguém, mas após tanto tempo ao lado do Doctor, a garota começou a assimilar pequenos traços da personalidade do Time Lord e, mesmo que inconscientemente, tentou se igualar a ele. Isso ficou muito claro no episódio “Flatline”, onde Clara assume o posto como Doctor e toma a maioria das decisões com base no que ela acreditava que ele faria.
Essa tentativa de emulação do Doctor acabou colocando Clara em um lugar frágil. Seus esforços constantes para encarar o perigo a fizeram agir de um modo menos racional e mais impulsivo e isso foi sendo anunciado desde o inicio dessa temporada. Essa disposição sem medida para enfrentar o perigo acabaria gerando sua ruína.
“Face the Raven” dá o pontapé para o finale dessa temporada, mas também marca o fim de Clara na vida do Doctor. Nós já estávamos sendo preparados para a morte da personagem desde o começo dessa temporada, isso pode ter aliviado um pouco da tristeza causada, mas mesmo assim não conseguiu fazer que ficássemos indiferentes a essa perda. Mesmo que você não seja o maior fã da Senhorita Oswald, não há como não ficar mexido, mesmo que minimamente, com a sua morte.
Nada estava ali por acaso, desde o casaco usado pelo Doctor, em clara referência ao fato do roxo ser a cor da morte, como dito em “The Woman Who Lived” até a participação de Rigsy. O garoto não estava ali apenas para cobrir uma vaga de elenco. Foi ao lado dele em “Flatline”, que Clara acreditou que poderia assumir a função do Doctor e salvar o mundo e nada mais justo que seja na presença dele que ela perceba que se precipitou e que estava errada.
Agir como o Doctor não foi de todo ruim, até porque isso acabou criando uma independência em relação ao Time Lord e fez com que ela se sentisse mais segura em situações difíceis, o problema foi quando ela perdeu o controle disso e passou a acreditar que era invencível. E essa crença sobre a sua invencibilidade fez com que Clara assinasse a sua sentença. Ao receber a tatuagem, Clara foi imprudente sim, mas também foi ingênua e altruísta.
Ela estava ali para salvar o amigo e o gesto foi com essa finalidade, ainda mais agora que ele tinha uma família. Clara não pensou em salvar apenas uma vida, mas, sim, três. E a ingenuidade vem do fato de que ela acreditava cegamente na capacidade do Doctor em resolver os problemas. E ela não é a única nisso. Diversos companions acabam criando a ideia de que o Doctor é capaz de fazer qualquer coisa, que ele é inatingível, mas ele não possui o controle sobre tudo, principalmente sobre a vida e a morte, pois ele não é um deus.
O sacrifício feito por ela é lindo e durante seus momentos finais nós somos agraciados com uma das mais belas e tocantes cenas entre os dois. A despedida, o pedido para que o Doctor não insulte a memória dela procurando por vingança, a forma como ela aceita o seu destino e como ela passa os últimos minutos demonstrando uma enorme preocupação com o futuro do Doctor é simplesmente sensacional. As expressões de tristeza no rosto de ambos nos revelam, em poucos segundos, o quanto eles são importantes um para o outro, o quanto de confiança e companheirismo eles criaram entre si durante todo o tempo que passaram juntos.

Clara pode não ter sido perfeita durante a sua caminhada, pode não ter conseguido agradar a todos, mas ela conseguiu deixar sua marca naquele universo. Sua jornada chega ao fim e, mesmo que tenha sido tumultuada, acabou mostrando que ela foi uma das personagens mais humanas a ser inseridas na série. Mesmo sendo cabeça dura, ela foi dona de uma compaixão incomparável e não mediu esforços para proteger aqueles que ela amava. Adeus, Clara Oswald. E muito obrigado, Jenna Coleman.
Considerações finais:
– Algo me diz que essa não foi a última vez que vimos Clara na série. Ainda aposto em algum eco perdido por aí.
– Possivelmente teremos Gallifrey na finale. Gallifrey, gente! GALLIFREY!!!















