Conforme comentei brevemente no texto sobre o primeiro episódio de Room 104, as antologias estão em alta. A volta e o sucesso de Black Mirror, que recentemente conquistou mais dois Emmys para a sua conta, lembrando que já havia conquistado a estatueta no não tão conhecido Emmy Internacional, impulsionaram ainda mais o investimento no gênero. E é bom já começarmos abordando a série de Charlie Brooker, uma das mais famosas antologias atuais, justamente porque ela será comparada o tempo todo com a série deste post.

Não é uma comparação totalmente injusta, porque o próprio idealizador da produção reconhece as influências de outras antologias. O que talvez seja injusto é creditar o questionamento da tecnologia à produção britânica somente, uma vez que todas são filhas de The Twilight Zone e seus episódios sobre o futuro, a tecnologia e a relação humana com esses temas. Desta última, partimos para o rádio, depois para a Literatura, e por aí vai. A questão é que Black Mirror não inventou a própria proposta. Fez uma ótima contribuição e definiu rapidamente seu estilo, ganhando prestígio por isso, assim como os anos de ouro da série clássica mencionada. Dimension 404 faz o mesmo, contribuindo de outra forma, mais voltada para a comédia, mas não deixando de adicionar à fórmula.

“Não clique para voltar. Não atualize. Nós o reconectamos à Dimension 404”.

— trecho da abertura da série.

A Primeira Temporada 

Produzida pela Hulu, a primeira temporada da série é constituída por seis episódios de pouco mais de quarenta minutos cada e foi lançada em abril deste ano. As histórias seguem rumos diferentes, nunca abusando de um drama muito complexo para se comunicar com seu público; vamos de seguimentos de horror à aventura. Passeamos por épocas diferentes e personagens de aspectos diferentes, mas sempre com a intenção de questionar nosso relacionamento com aparelhos eletrônicos e a era em que vivemos.

O nome da série já é inspirado em um erro de internet, o que explica seu interesse em falar sobre o tema. Acrescenta-se que a idealização vem de Dez Dolly, um dos produtores por trás da RocketJump.com, produtora de conteúdo para o YouTube, dona de um canal com mais de sete milhões de inscritos. É em parceria com sua companhia que a Lionsgate Digital Studios tirou Dimension do papel. A história da produção, então, relaciona-se ao quanto de tecnologia e de mídia digital seus idealizadores entendem e planejam repassar às tramas abordadas no projeto.

Sobre os episódios: 

01×01: “Matchmaker”

Dimension 404
Dimension 404

Com uma história dos criadores (Will Campos, Dez Dolly, Daniel Johnson & David Welch), o primeiro episódio fala sobre relacionamentos e tem Robert Buckley (iZombie) e Lea Michelle (Scream Queens, Glee) como protagonistas. O roteiro é bem humorado, por mais que fale sobre uma questão existencialista.

Adam, personagem de Robert, é um blogueiro que escreve sobre música. Solitário, ele costuma ir a encontros que não resultam em nada. Mesmo assim, ele não deseja encontrar alguém por aplicativos. Greg (Matt Jones), seu colega de apartamento, insiste muito para que ele aceite criar um perfil no Make a Match, cuja propaganda garante que é possível achar quem tanto se procura. É assim que ele encontra Amanda, com quem vive dois meses de harmonia e encanto, até que decide falar que a ama. Isso acaba com o relacionamento, porque não é o que ela queria ou procurava. A consequência principal é que Adam é preso e tem a si revelada uma realidade que ele desconhecia, ligada ao aplicativo e à possibilidade de encontrar o par perfeito.

“Não há alguém lá fora para todo mundo. Mas deveria haver”.

Dr. Matthew (Joel McHale de Comunnity) em Dimension 404.

O roteiro se estabelece rapidamente, e em menos de quinze minutos há a reviravolta que dá ao episódio a originalidade que a série propõe. Sua conversa com tecnologia aqui se estabelece quando se amplia o desejo comum de se relacionar. A história absurda por trás de Matchmaker é sustentada por uma personagem que tem questões facilmente relacionáveis. Adam é carismático e não permanece por muito tempo dentro da realidade em que está condicionado, voltando-se à desistência ou à revolução conforme acha justificável.

A história tem ares distópicos, mas não carrega consigo o drama e a seriedade de obras desse gênero. Isso mostra o quão consciente é o projeto de si e o cuidado em não se deixar levar na intenção de explorar zonas que não condizem com o público que deseja alcançar e que talvez não consiga abordar com a mesma precisão que outras produções.

01×02: “Cinethrax” 

Dimension 404
Dimension 404

O segundo episódio conta com o mesmo time na elaboração da história. A direção, entretanto, vai para as mãos do showrunner, Dez Dolly, que ocupa essa cadeira também no quarto. Cinethrax é o meu favorito e um dos que justificam sua presença aqui no Mês do Horror. O gênero é abordado em uma história simples, mas delicada e com muitas camadas, tornando-se uma interessante alegoria para como a tecnologia chega às pessoas mais velhas e acostumadas a outras experiências e tradições.

Os protagonistas são Daniel Zovatto (recorrente em Fear the Walking Dead) e Sarah Hyland (Modern Family), que interpretam Zach e Chloe, tio e sobrinha que têm o costume de ir ao cinema juntos. A relação entre os dois não é mais a mesma, afinal, ela está crescendo e não se interessa tanto pelas músicas que ambos ouviam juntos ou nas conversas que costumavam ter. Esse amadurecimento se reflete no desinteresse para os filmes que Zach deseja ver e que ela recusa. O que a adolescente prefere é o novo filme 3D, sobre alienígenas, em cartaz. Convencido, seu tio aceita que ambos assistam o filme escolhido por ela, mas leva seus óculos de casa, recusando-se a usar o equipamento dado pelo cinema. Essa é uma boa escolha porque assim, diferente de todas as outras pessoas assistindo, ele consegue ver criaturas saindo da tela e devorando os espectadores.

O conto de horror aqui é aquele que se dá diante de diversas pessoas, em ambientes que, por conta disso, deveriam ser seguros, mas não são. O roteiro ainda nos questiona, ao questionar suas personagens, sobre o quanto estamos dispostos a abrir mão para nos encaixarmos e não deixarmos outras pessoas para trás, assim como os pais que tentam se associar com os aparelhos usados pelos filhos e a cultura da geração atual. É, ainda, divertido e possui personagens cativantes, principalmente o protagonista.

01×03: “Chronos”

Dimension 404
Dimension 404

A versatilidade das histórias de Dimension 404 é atestada pelo terceiro episódio, uma aventura de viagem no tempo que lembra produções pequenas e pode soar nostálgica para muitas pessoas. Susan Hirsch (Ashley Rickards, a Jenna Hamilton de Awkward) é uma estudante de física, cujo curso está próximo da formatura, mas pode não se formar porque ainda não terminou o último trabalho. Seu amigo, Alex (Utkarsh Ambudkar), pelo contrário, já acabou e aparece em sua casa para lembrá-la sobre a importância disso.

A inspiração para a carreira dela vem de um desenho muito presente em sua infância, no qual um herói, viajante do tempo, lida com diversos problemas relacionados à física. No entanto, no dia da entrega do trabalho, no qual recebe o amigo em casa, Susan percebe que os objetos sobre o desenho sumiram, assim como a memória de todos a respeito. É quando ela é visitada pelo herói do desenho, mas dessa vez na vida real, e que pede sua ajuda para deter os planos do grande vilão que também não é apenas ficção.

Às vezes bobo, mas divertido, Chronos é daquelas histórias de viagem no tempo que não fazem todo o sentido que deveriam, mas que não se importam com isso, como um episódio de Family Guy, no qual se aposta no humor e no absurdo da situação. Aqui temos a prova maior de que é bobagem comparar a série com outras antologias mais sérias e reflexivas, uma vez que os quarenta minutos deste episódio são gastos criando uma história sem muita coerência.

01×04: “Polybius”

Dimension 404
Dimension 404

Na década de 80, um garoto desajustado e viciado em jogos de fliperama esbarra em Polybius, um novo e misterioso jogo de labirinto. Andrew Meyers (Ryan Lee), o tal garoto, vê o colégio como algo a se sobreviver, para o qual treina constantemente. Assim, sempre pensando no que pode o colocar em perigo ou não, ele percebe que há algo de errado quando um dos colegas da escola é assassinado após ter jogado o tal jogo.

A partir daí, a história de aspectos nostálgicos, vira uma divertida aventura com clima de horror que lembra episódios de séries como Are You Afraid of the Dark? (Clube do Terror por aqui), principalmente por investir em adolescentes para seus protagonistas. Andrew conta com a ajuda de Amy (Gabrielle Elyse) e Jess (Sterling Beaumon), por quem, aliás, é secretamente apaixonado. A união do trio e o investimento no aspecto juvenil da narrativa entregam quarenta minutos que exploram o constrangimento e a beleza de uma época distante, alcançada somente na ficção.

01×05: “Bob”

Dimension 404
Dimension 404

O conto natalino de Dimension 404 propõe o encontro entre uma psicóloga do exército e uma supermáquina que trabalha para o governo na coleta de informações. Os planos de curtir o feriado com a esposa e a filha são interrompidos e Jane Lee precisa interrogar Bob, uma poderosa máquina secreta que tem em seu conhecimento a arma essencial para encontrar pessoas e prevenir ataques terroristas, para descobrir o que há de errado com ele.

Isso tudo porque ele, que deveria ver tudo o tempo todo, não consegue encontrar uma pessoa em especial. O episódio foca na interação entre esse pedaço de carne gigante que funciona como máquina e a psicóloga, frustrada por não estar em casa, mas dedicada demais com o trabalho para recusar a possibilidade de ajudar. Assim como George Orwell usa animais para falar sobre pessoas, diversas histórias usam máquinas para falar sobre conflitos humanos. Este é o recurso do roteiro de Will Campos. Esbarrando no natal e em seu significado para as pessoas, a história tem momentos divertidos e delicados — nunca delicados demais. Vale destacar a participação de Megan Mullally, a divertida Karen Walker de Will & Grace.

01×06: “Impulse”

Dimension 404
Dimension 404

Tão absurdo quanto a trama dos outros episódios, Impulse aborda os efeitos dramáticos que certa droga, experimentada pela protagonista, causa em sua vida. Val, que usa o apelido Speedrun para competir, fica sabendo de uma bebida energética que pode ajudá-la a tomar para si o primeiro lugar nos campeonatos de jogos eletrônicos que participa. O único problema é que toda vez que toma a bebida, o tempo é cortado e ela se percebe momentos depois, sem ter noção de como as coisas se passaram. Quase como se acordasse de ressaca semanas depois, tendo dormido por semanas. Mas com Impulse, a tal bebida, a pessoa não dorme, só perde a consciência do que aconteceu, como se estivesse vivendo no automático.

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Val, interpretada pela atriz chilena Lorenza Izzo, abusa tanto da bebida que acorda em um futuro distópico, já com filhos, casada e fazendo parte de uma aldeia na qual é a responsável por muita coisa. É quando ela percebe que não valia a pena abrir mão de seu tempo em nome de glórias que em seu presente nada significam, assim como o jogo no qual era viciada. Talvez o mais fraco dos episódios, Impulse se esforça para contar uma história original e rende momentos divertidos. Não tem a força dos outros, mas não deixa de ser uma interessante tentativa de abordagem do roteiro.

Dimension 404
Dimension 404

Dimension 404 não é o tipo de série que questiona o humano em seu íntimo, tendo em seu catálogo episódios que te farão ficar deprimido por uma semana (eu ouvi citarem Shut Up and Dance?) justamente por escancararem algumas verdades. Ainda assim, nem toda produção que se propõe falar sobre tecnologia precisa seguir esse caminho, assim como nem toda antologia é dramática. O que a desfavorece é justamente as comparações que possam tentar estabelecer. O ato, adianto, é equivocado, porque aqui o foco é o deboche, a diversão e o absurdo. Quase como se a série exibisse constantemente aquela troll face para quem a busca com a intenção de se questionar.

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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
dimension-404-afasta-series-contemplativasDimension 404 não é o tipo de série que questiona o humano em seu íntimo, tendo em seu catálogo episódios que te farão ficar deprimido por uma semana (eu ouvi citarem Shut Up and Dance?) justamente por escancararem algumas verdades. Ainda assim, nem toda produção que se propõe falar sobre tecnologia precisa seguir esse caminho, assim como nem toda antologia é dramática.