Pesando a mão nos aspectos da humanidade e do conflito mutante, The Gifted apresenta rX, mais um bom episódio, com efeitos bem executados e história coesa.

A mais nova série dos mutantes, uma parceria entre a Marvel e a FOX, não tenta reinventar a roda. Vários foram os comentários que recebi a respeito das similaridades entre ela e Heroes (que bebeu da fonte dos X-Men descaradamente). Só que no final, apesar de um pouco genérica em alguns pontos, The Gifted está com uma personalidade bem forte em termos da causa mutante na televisão. Inumanos, outra produção que poderia fazer uso deste mesmo princípio para sua primeira temporada, tem mostrado apatia na hora de tomar decisões criativas. E eu nem estou me referindo a trama, também desanimadora, mas da própria construção estética e visual.

O refúgio dos mutantes do subterrâneo, que não fica no subterrâneo, faz a ponte entre o que é considerado belo e normal, com o que é tido como vergonhoso e amedrontador. A série também não se envergonhou na hora de questionar o tratamento que os mutantes recebem da sociedade, inclusive no âmbito da saúde pública. Este comportamento da série me deixa feliz, porque é exatamente o que eu espero de uma produção que usa o nome X-Men sem nenhuma vergonha ou receio. Falar na mitologia mutante e os compreender como pessoas que sofrem ataques diários, são enxergadas como uma vergonha e temidos, é basicamente o que espero da produção e o que as histórias em quadrinhos fizeram por tantos anos. As melhores histórias destes personagens são aquelas que mostram o que a humanidade é capaz de fazer quando se sente ameaçada pelo diferente.

The Gifted não é ousada, mas abusa dos recursos que tem para contar histórias intimas e abrangentes. É uma proposta muito boa, especialmente para quem acha que uma produção do tipo é feita apenas para “desligar a cabeça” ou que não existe discurso político e ideológico em séries e filmes. Existe algo por trás de cada poder, de cada fala e ambientação. E o escopo é de fácil assimilação, talvez de uma maneira que torne tudo bem mais palatável para uma audiência que pode não estar preparada para assumir seus preconceitos e receios.

Dentro deste mundo em que estamos, a sociedade é um pouco mais agressiva e tem mais medo dos mutantes do que já vimos nos filmes. Este é um efeito que apenas uma série ou um filme mais íntimo, seguindo o ponto de vista de apenas um personagem, conseguiria fazer. E funciona, porque é interessante. Toda produção que lida com uma distorção da realidade e exacerba problemas reais através de alegorias, desperta interesse. Neste ponto o apelo visual ajuda bastante e transforma algo corriqueiro em fantástico.

O que a série faz é deixar o telespectador mais ansioso por conhecer este mundo, com mutantes tão diferentes. Temos aqueles que não conseguem se passar por humanos comuns, por causa de sua aparência ou poder e aqueles que, enquanto conseguirem esconder seus poderes, podem viver em sociedade normalmente. Esta cena é melhor resumida quando Lorna ‘Polaris’ lava seu cabelo da tinta preta, usada para que ela não se destacasse. O verde, que é a cor natural, surge em um momento de autoafirmação e resgate da identidade. Ali dentro, presa e exposta, Polaris não precisa esconder quem ela realmente é. Também é interessante notar como o roteiro não está com medo de demonstrar a instabilidade emocional da personagem, que chega a extremos. Também não existe meio termo na hora de expor suas habilidades, com a mutante indo além de sua capacidade física para atribuir dor a quem a ameaçou.

The Gifted 1x02: rX
The Gifted 1×02: rX

Contudo a série expõe uma discussão mais aprofundada quando coloca a personagem de Kate para ponderar a respeito de seu preconceito. Quando acontece dentro da família existe um comportamento diferente, um discurso totalmente contrário ao que vivenciamos normalmente. E neste ponto o roteiro pode muito bem ser utilizado para falar de outros temas, como a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo. Também existiu um movimento inteligente de separar a mãe de seus filhos logo no segundo episódio, mostrando que a série não irá lidar com esta família de uma maneira clichê e previsível.

As cenas com a Polaris são interessantes, porque também mostram a marginalização dos mutantes aprisionados e sem poderes. De maneira similar ao diálogo de Eclipse, aqueles que não conseguem se passar por humanos, neste caso mesmo os que conseguiriam no mundo de fora e que na prisão ostentam colares de controle do poder, terminam sofrendo toda a força do preconceito e do pior lado da humanidade. São perguntas que precisam ser feitas e é base para o nosso conhecimento de mundo, que parece bem mais hostil do que qualquer filme já lançado ao redor deste universo.

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rX também serve para fundamentar um pouco do medo dos seres humanos. Como não temer vários buracos aparecendo do nada e abrindo portais para um lugar desconhecido? É realmente aterrorizador imaginar um mutante tão poderoso, mas sem nenhum treino e com potencial devastador. Mas um ser humano com uma arma, carro ou bomba também pode oferecer risco, mas a não ser que você seja negro ou muçulmano, provavelmente a sociedade não irá te tratar com medo e receio. Este paralelo que The Gifted faz ainda é muito superficial, apesar de existente. Será interessante ver a série extrapolando as entrelinhas para passar sua mensagem, mas com um elenco tão grande, temo que terminaremos nos perdendo um pouco antes de chegar lá. O importante é que a discussão está sendo facilitada e isso é tão X-Men, que até me orgulho.

Easter eggs e outras informações em rX:

– O colar inibidor de The Gifted é saído direto das páginas dos X-Men. Ele também já apareceu na série animada dos anos 90 e deu as caras em Dias de um Futuro Esquecido.

– Existem vários irmãos que operam juntos dentro da mitologia dos mutantes, entre eles a Feiticeira Escarlate e Mercúrio. Os mais interessantes, porém, são os filhos do barão Von Strucker, Andrea von Strucker e Andreas von Strucker, mesmo sobrenome dos personagens de The Gifted. A primeira aparição da dupla de vilões foi em Uncanny X-Men #194, de 1985. Na nona arte os poderes de Andrea são: projeção de energia desintregadora. Já Andreas consegue emitir raios de energia atordoante. Mas eles podem usar seus poderes apenas quando estão segurando a mão um do outro, quando formam o Fenris.

– Andrea von Strucker e Andreas von Strucker também já foram mencionados nos arquivos mutantes de William Stryker em X2.

– O incêndio no Brasil poderia ser conectado ao Roberto da Costa, Sunspot. Contudo a conexão entre irmãos deixa essa possibilidade um pouco longe do real.

– Em rX tivemos a participação de Elena Satine, que já esteve em Agents of S.H.I.E.L.D. como a vilã Lorelei.

REVISÃO GERAL
Nota:
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