Mais lutas e mais problemas para Royal Dragon, um bom episódio de Defensores.
Defensores está acima da média. Como série de personagens já existentes e com seus problemas ‘em pausa’, ela consegue fazer bom uso de cenas e cenários para expor muito bem a união destes. Tome por exemplo o esquema de cores e como a produção tem escolhido lidar com seu aspecto visual. Logo de cara, no Dragão Real, somos bombardeados por cores que remetem a cada um daqueles personagens. O verde de Punho de Ferro, o amarelo de Luke Cage, o vermelho de Demolidor e o azul/lilás de Jessica Jones. É uma sacada inteligente para delimitar quem está em cena, mas também mostra um cuidado muito grande em criar algo “original”.
É fato que o universo Marvel peca por ser, em várias instancias, extremamente genérico. Agents of SHIELD teve, por muito tempo, uma batalha a ser travada no reino criativo de sua concepção. Enquanto lutava contra o básico de ser apenas mais uma série de espiões, sem a presença de Homem de Ferro, Capitão América e Thor, vistos na época como o diferencial da produção, a série não conseguiu se sair vitoriosa dentro da criação de um nicho e público. Hoje MAoS já é bem mais confiante em sua identidade e dona de características próprias que a distância do restante deste mundo. Defensores segue o mesmo padrão e fez o possível para não cair no básico, mas mantendo-se fiel ao seu orçamento mais restrito. A dinâmica entre os personagens, assim como Nova York agindo como uma personagem distinta, mas complementar, enriquece a experiência ao redor da série.
Usualmente séries da Marvel Netflix não dispõe de um orçamento muito grande. O que sempre assistimos, basicamente, é ação intercalada com MUITA exposição. Não é diferente aqui e até que os socos, chutes e coreografia retornem o que vemos é um longo debate a respeito da atual situação do time. Claro que antes precisamos encarar um tipo de abordagem menos simples e o que prepondera é a boa e velha “batida de cabeças” entre super-heróis. Se lá em Vingadores vimos Thor e Homem de Ferro se desentendendo logo na primeira hora, aqui somos guiados pelo discurso de Matt Murdock, que até a chegada de Stick e depois de um pouco de convencimento por parte de Jessica Jones, decide que os problemas do coletivo também são dele. E se estamos falando do Tentáculo, porque não deveria?
O mais divertido está, pasmem, em cima de Danny Rand. É engraçado ver como seu lado mais leve é muito mais agradável de acompanhar do que aquele lado heroico que fica, inutilmente, proferindo que ele é o Imortal Punho de Ferro. Na altura do campeonato, ninguém se importa. Logo, a animação de Danny em fazer parte de um time, a relutância de Jessica em aceitar qualquer interação ali como séria e até mesmo o medo de Matt em ser descoberto funcionam. É um tipo de “casamento” muito bem feito pelo afiado roteiro de Douglas Petrie e Marco Ramirez, os showrunners da série. Jessica não poupa comentários sarcásticos, assim como sua aparente aversão aquele mundo.

Também temos, infelizmente, que lidar com a decisão de ter Elektra como ameaça. Enquanto robô sem memória e reação, ela é muito boa, pois Elodie Young consegue fazer deste papel algo seguro. Mas temo que emoções mais complexas, como o clichê da mulher que não se lembra do grande amor de sua vida, possam abalar a estrutura narrativa da série e cair no caricato. Clichês não são ruins, afinal cobrar a reinvenção da roda é muita presunção, mas é bom tomar cuidado para que óbvio não se torne ridículo.
E é para isso que Stick existe. Suas explicações a respeito do Casto, grupo que age contra o Tentáculo, além de frases carregadas de exposição sobre K’un-Lun, oferecem algo que Punho de Ferro não conseguiu em 13 episódios, dar um sentido para a mitologia operante. Não sei se esta foi uma decisão do corpo criativo da Marvel TV, mas esconder parte da fundamental história a respeito das organizações conflitantes foi um dos piores erros da série de Danny Rand, já que forçou que todos os aparentes problemas ficassem mais evidentes no decorrer dos plots apresentados.
Por fim temos o surgimento do último dedo do Tentáculo, o caricato Murakami. Neste ponto é batido o martelo em cima da precária representação de asiáticos dentro do universo dos Defensores. Colleen, que poderia ter ajudado neste quesito, está desaparecida. A única informação que temos a respeito dela veio através de Stick, uma mera justificativa para que ele, um homem cego, tenha encontrado Matt, Luke, Jessica e Danny no Royal Dragon. Só que em Muramaki temos um gigante desperdício de história. O personagem, que poderia ter sido incluído em qualquer uma das outras séries, surge mergulhado em frases prontas de sabedoria, como um verdadeiro biscoito da sorte. E isso é tão ruim, de um mal gosto tão grande, que toda sua montagem falando apenas em japonês se torna bizarra e forçada.
Royal Dragon ainda é um excelente episódio, que trabalha com várias informações necessárias e muitos diálogos interessantes, cortesia de Jessica Jones, entretanto ele também revela com igual destreza os erros e delitos cometidos pela Marvel dentro deste universo criado para a Netflix. Vilões cada vez mais forçados não estão ajudando e eu me pergunto: o que aconteceu com o time que criou Killgrave e Wilson Fisk? Porque eles abandonaram o barco logo em Defensores, é a maior pergunta levanta pela série após quatro episódios.
Easter eggs e outras informações de Royal Dragon:
– Para quem não acompanhou Jessica Jones e Luke Cage, os dois tiveram um caso bem tumultuado. Como a própria Jessica diz: “Nos conhecemos. Bebemos. Eu dei um tiro na cabeça dele”.
– Vale lembrar que nas páginas das histórias em quadrinhos Luke e Jessica tem uma filha chamada Danielle Cage. Ela, no futuro, se torna a Capitã América.
– É interessante ter a Elektra encarando o sai, já que na nona arte esta é a arma característica da personagem. Contudo, nas séries, ela os retirou de um outro assassino, durante a segunda temporada de Demolidor.
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– Entre os nomes usados por Alexandra através dos anos estão: Audrey Tompson, Abigail King, Angelica Fletcher e Alberta Davies. Nenhum destes representa algum personagem existente nos quadrinhos.
– Jessica batendo em uma velhinha (Gao), é exatamente o que eu espero da Jessica.
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