Só o que separa o BBB 1 do BBB 24 é… a tecnologia.
Na final do Big Brother Brasil 1 – que aconteceu exatamente no dia 2 de Abril de 2002 – a edição do programa fez VT’s dos participantes restantes com comentários dos que já estavam eliminados. Os “confessionals” dos confinados infelizmente se perderam na busca de Boninho por identidade própria, mas, naquele primeiro ano, um deles em especial chamava atenção por resumir perfeitamente o que estava por vir na noite da vitória. Nesse momento específico, Leka, uma das participantes que chegou quase até a final, falou sobre Bambam da seguinte maneira:
Uma das falas de Leka é emblemática. Ela diz com lágrimas nos olhos:“Ele estava pedindo carinho o tempo todo e nenhum de nós deu”. Do lado de dentro da casa, ela não conseguia ver Bambam pela mesma perspectiva e se concentrava em todas as suas características irritantes enquanto participante (que eram muitas). Uma vez do lado de fora, Leka assistia Bambam numa versão dimensionada e a partir dali ele passava, então, a extrair dela a compaixão que muita gente que assistia ao programa naquela época, já tinha.
Bambam foi o primeiro vencedor e também o participante que deu o tom do programa dali por diante. No Brasil, quem escolhe os eliminados da casa é o público, o que impede, inevitavelmente, que o programa tenha independência estratégica. Nos países em que a eliminação é feita pela própria casa, mentir, enganar, manipular e se agrupar são determinantes para garantir a permanência. No Brasil, quem faz isso é condenado; e geralmente quando faz, joga a preferência do público no colo do próprio alvo. O Brasil assiste ao BBB como a uma novela; e, portanto, quer heróis para defender e vilões para desgraçar.
Esse é um souvenir que vem direto do cânone moralista-religioso da nossa sociedade. Ainda que os indivíduos pequem, foram criados para condenar os pecados alheios. O “espelho” é sempre desconfortável e quando alguém combate o mal no outro, está, de certa forma, combatendo o mal em si mesmo. O voto naquele que “maltrata” o seu favorito é um voto de confiança no próprio caráter. Numa sociedade que já faz tão pouco pelo outro, proteger um participante de reality show pode acabar sendo uma grande prova de bom juízo.
O curioso acabou sendo como essa ordem protecionista foi se manifestando conforme as novas edições foram vindo.
Irmãos acima de tudo
O BBB 2 foi protagonizado por mulheres, o que resultou, é claro, na vitória de um homem que não falou 5 frases durante todo o programa. No BBB 3, o modelo “homem charmoso oprimido” voltou à pauta com Dhomini, que tinha todas as características do manipulador clássico do formato: era um jogador que entendia que o que importava era ser alvo. Assim, ele se juntou com uma participante divertida e carismática e mesmo noivo, começou um romance que durou até a eliminação dela. Seus poderes de convencimento eram tão fortes que mesmo traída, a noiva apareceu em todos os paredões em que ele foi indicado.
No BBB 5 o Brasil teve sorte de ver o “perseguido” ser um participante que ao menos fazia bem pela imagem do país. Jean era gay, nordestino e acadêmico; e usava sua inteligência e carisma para manter seus aliados por perto. Foi aí que tivemos o primeiro sinal de que o protecionismo que regia a audiência não tinha critérios específicos e dependia exclusivamente de quem emanava completamente a narrativa de perseguição. Massumi fez isso por Dhomini no BBB 3 e Rogério fez isso por Jean no BBB 5.
No BBB 7 o “perseguido” voltou a ser o “machão sensível que gruda numa moça ingênua”. Alemão se dividia entre a atração por Fani (que representava o desejo) e a paixonite calculada por Siri (que representava a pureza). Ele era um participante forte, tinha presença, o que fazia com que a saída dele fosse um bom negócio para os outros. Contudo, qualquer movimento para eliminá-lo era considerado uma vilania sem perdão; e todos foram caindo um por um.
No BBB 10 o pior aconteceu. Marcelo Dourado entrou pela segunda vez e imediatamente incomodou Dicésar, um participante assumidamente gay que tinha todos os motivos do mundo para reclamar das declarações homofóbicas de Dourado. O grandalhão dizia coisas absurdas como “homem não pega HIV” e usava expressões como “orgulho hétero”. No vídeo colado aí abaixo é possível ter alguns vislumbres do que foi sua participação nessa edição.
Dourado também foi o participante que inaugurou o que podemos considerar como a primeira grande torcida organizada, formada por homens e mulheres conservadores; e chamada de Máfia Dourada. Enquanto a casa se debatia tentando entender como alguém assim conseguia ficar no programa, o público abraçava a ideia de que ele estava sendo “perseguido”. Ele venceu, facilmente.
Até que no BBB 19 a receita chegou ao absurdo, quando, baseado nessa mesma premissa de que “protegia o oprimido”, o público fez vitoriosa uma mulher que celebrava a opressão racista.
Paula era uma metralhadora de absurdos e preconceitos, mas tinha uma característica “interiorana” que a absolvia perante os olhos da maioria. Sua “falta de conhecimento”, sua “criação limitada”; eram as justificativas constantes para mantê-la escudada das eliminações. Geralmente, ou público defende o “perseguido” porque ele é “inocente demais” ou porque ele perde muito a cabeça devido ao excesso de pressão. O que foi o caso de Prior, no BBB 20.
Na primeira edição pandêmica, Prior era o protagonista de rompantes extremamente agressivos, geralmente acompanhado de falas machistas; mas também era aquele que o público julgava “ter o direito de reagir já que toda semana ele estava no paredão”. Insuportável na convivência e um verdadeiro “alerta vermelho” ambulante, Prior até foi eliminado num paredão que parecia ter acordado o público de vez (apenas para dois anos depois tudo voltar à estaca zero). Anos depois, foi condenado por estupro e espera recurso em liberdade.
No BBB 22, o público regrediu e voltou a proteger homens com históricos duvidosos. Arthur Aguiar entrou depois de ter mais de 16 traições extraconjugais descobertas pela esposa, mas convenceu o público de que era um “homem melhor”. Sua estratégia era só deixar que os outros agissem para eliminá-lo; e – de vez em quando – fazer uma carinha de solitário incompreendido para imprimir sofrimento (curiosamente, a mesma estratégia de Dado Dolabella quando venceu A Fazenda). Talvez não tivesse vencido se não fosse a torcida organizada, mas ainda é assustador que essas torcidas existam. Foram essas mesmas torcidas que no BBB 23, premiaram Bridget Jones em detrimento de um elenco robusto de exemplos de força e diversidade.
É como se essa fosse a memória perdida de uma torcida que defende “perseguidos”, não importa quem eles sejam.
Davi é o Golias
Aqueles que chegaram até esse ponto do texto podem estar se perguntando onde Davi se encaixa na construção desse argumento. O que acontece com ele é um contraste entre o passado protecionista da audiência e a necessidade REAL de interferência na forma como ele vem sendo tratado. É bastante complexo, porque Davi é um participante que é “perseguido” por questões de convivência e estratégia similares as que passaram outros participantes calculistas como Dhomini, Alemão e Arthur; mas, ele também sofre perseguição racista de Wanessa Camargo. Na hora de julgar a situação, tudo isso fica embolado no meio do caminho.
Davi é o protagonista da edição (e agora graças às interferências de Tadeu e Boninho, ele sabe disso), em parte porque ele cavou tempo de edição em brigas com rivais que já eram vilanizados aqui fora; e em parte porque ele soube catalisar as reações dos outros em próprio favor. Não adianta dizer que Davi é “só um menino inocente da periferia”. Ele é um jovem preto da periferia, mas ele também é um homem de 21 anos que alterna com calculismo a faceta jovem da faceta estratégica. Ele sabe fazer VT’s, sabe onde atingir rivais, tenta fazer aliados, busca vantagens do jogo… Ele tem plena consciência de como funciona o sistema e sabe que mesmo que todos lá o odeiem, o jogo é para fora e importa ser gostado aqui. Quando ele joga, tudo é permitido. Quando os outros jogam, ele “desmoraliza” o participante.
Dizer isso não é minimizar sua história, não é julgá-lo como vilão, não é invalidar sentimentos; o que Davi faz é jogar o BBB como se joga para vencer. Ele entendeu que é o “perseguido” e ele age para capitalizar essa condição. É claro que muitas vezes isso tudo deve pesar e deve ser muito difícil (sua emoção e choro são reais). Mas, ele tem um foco muito claro e ele sabe que enquanto tiver “colegas” tão empenhados em culpá-lo de tudo, o público não o culpará de nada.
Não importam as falas homofóbicas, não importam os comportamentos machistas, não importa o quão hipócrita ele seja (exigindo dos outros que não façam o que ele mesmo faz)… Davi se vitimiza tanto quanto qualquer outro desses “perseguidos” da lista, mas ele está nas graças do público, portanto, imediatamente, frestas se iluminam na hora desse julgamento e tudo que ele faz tem sentido para seus seguidores.
Apontar esse jogo externo do participante também acaba virando um problema, porque – segundo seus fãs – não estar do lado dele é estar imediatamente ao lado de Wanessa Camargo; e isso é não é a verdade em todos os casos. O que ela faz é julgá-lo não como jogador, mas como pessoa. Ela desfila pela casa cuspindo superioridade entre baforadas de cigarro, fazendo com que a vontade de todos nós – até dos que não gostam do jogo dele – seja entregar-lhe a vitória como resposta ao que ela parece incapaz de aceitar: um jovem preto e periférico buscando mais que simplesmente uma faculdade.
Se a casa quer eliminar Davi porque ele é chato ou porque “joga bem”, isso é permitido pelas leis invisíveis de um reality show de convivência. Se isso ultrapassar os limites da saúde mental, a produção vai intervir. Se não intervir, nós vamos intervir. A pressão é parte do jogo; o isolamento é parte do jogo quando você se desentende com o coletivo; ir muitas vezes ao paredão é sinal de sucesso; fazer drama por causa disso é permitido. Davi é sim vítima de uma atrocidade social; mas ele também é um jogador incisivo. As reações são inevitáveis (como precisam ser).
Transformar “não ser fã do Davi” em uma questão moral é só mais um ato de banalização inconsequente (numa edição já tão cheia de banalizações inconsequentes). Além disso, a defesa dele é tão apaixonada que esquece que ele não é o único ali dentro com uma história difícil e merecedora. Leidy, Isabelle, Raquelle, Pitel… todas em níveis diferentes de relevância, mas que são, também, exemplos de diversidade e força do povo brasileiro.
O moço é o protagonista da edição. Ele sabe fazer tudo ser sobre ele; e ele merece vencer. Essa vitória, sobretudo, vai ser importante para calar todas as Wanessas Camargos do mundo. Mas, entreguemos a ele a vitória por um jogo calculado e não porque queremos todos compor a tardia “sociedade salvadora que resolve tudo com 3 milhões na conta”; até porque, se formos considerar o histórico do programa, a audiência só quer defender, não importa quem esteja defendendo. Às vezes a defesa está em concordância com o que é melhor (Jean, Gleici, Juliette, Davi… ) e às vezes está longe disso (Prior, Dourado, Paula…). Mas, nunca foi sobre justiça; sempre foi sobre preferência.
Que venha a vitória de um jogador consciente. Davi é seu próprio Golias e não precisa do nosso assistencialismo.






















