Eles são culpados. Ele é culpado. Ela é culpada também. Não é spoiler, não estou te decifrando segredos da narrativa nem ousando explicar o último episódio antes de sequer explicar a série. É informação sabida desde o começo, mostrada no trailer, elaborada no primeiro episódio. Diferente de outros thrillers, We Hunt Together não vai tentar te provocar, ou ao menos não nesse sentido, trazendo reviravoltas para te fazer duvidar das pistas deixadas na trama. Na verdade, dá para dizer que aqui não há pista nenhuma. Conhecemos os assassinos de primeira. Conhecemos os detetives responsáveis por capturá-los de primeira. A partir disso, a narrativa vai se empenhar em nos convencer de que há mais história a se contar mesmo que a pergunta do “quem” já tenha sido respondida.

We Hunt Together é uma série britânica que estreou em maio deste ano no canal Alibi. Em seis episódios de quarenta minutos, acompanhamos quatro personagens, duas duplas, atuarem em lados opostos a uma série de homicídios que vai ligando seus caminhos. Num verdadeiro cabo de guerra, a trama desafia ambas as partes a provarem sua inteligência, seu poder de atuarem dentro das personagens que criaram para si em sua vida. Desde seu título, há uma provocação sobre a “caça” anunciada e como ela é feita — ou mesmo a ideia de “juntos” e o que isso pode significar a cada um.

We Hunt Together.

Não só um desafio às personagens, a série criada por Gaby Hull desafia a si mesma, lutando para conservar nosso interesse quando já sabemos a identidade de quem está por trás das atrocidades investigadas. No lugar do suspense, de uma tensão escalando ao redor das descobertas, temos uma trama entregue ao drama, à criação e à exploração do caráter das personagens, suas motivações e seus pesadelos. A série tem momentos visualmente instigantes e protagonistas conturbados e interessantes o bastante para tornar a maratona divertida, mesmo que nunca tão séria quanto poderia — ou deveria, tornando seu humor, muito usado aqui, às vezes fora de lugar ou não intencionado.

Este balanço de poder se concentra de forma direta em duas personagens: a detetive Lola Franks (Eve Myles) e a antagonista Freddy (Hermione Corfield). Assim, as mulheres do quarteto são quem ditam o jogo de verdade, manipulando as situações e os parceiros para que tudo caminhe conforme planejaram e elas cheguem a seu objetivo. O detetive Jackson (Babou Ceesay), seu chefe, e o ex-soldado Baba (Dipo Ola) brigam consigo e um constante conflito em se tornarem a pessoa que gostariam de ser durante a trajetória da série. Observar a dinâmica de poder se concentrar nas mãos de duas personagens, ou às vezes de uma, enfraquece um pouco a narrativa. Nunca encontramos em Baba a resistência, o charme ou o comprometimento que a história necessita. Traumatizado e às vezes reduzido a um guarda-costas do novo interesse amoroso, ele tem sua importância e necessidade de existir diminuída na trama, uma vez que passamos a acreditar que Freddy conseguiria manipular qualquer outra pessoa.

We Hunt Together.

We Hunt Together parece diretamente influenciada por Killing Eve (BBC America). Não que possamos atribuir a Villanelle (Jodie Comer) a criação de personagens que misturam charme e uma beleza juvenil ao perigo que representam, esta é uma combinação que data de antes da criação da televisão. Ainda assim, com produções de região e ano de lançamento próximos, não dá para negar a influência da poderosa personagem interpretada por Jodie, cujo estrondoso sucesso ganhou um culto de seguidores na internet e uma (merecida) ovação ao trabalho da atriz.

Comparar as duas séries em sua totalidade talvez seja injusto, porque Killing Eve é claramente uma superprodução com direito a viagens e um elenco fortalecido por Sandra Oh e Fiona Shaw. Em escala menor, We Hunt Together pode ser condenada somente por não conseguir estabelecer totalmente a atmosfera pretendida, tarefa do roteiro escrito também por Gaby Hull. Experiente em comédia, o produtor não se sai tão bem na tarefa de utilizar o passado, contexto social e a formação cultural de suas personagens. Os problemas pessoais dos detetives são resolvidos com uma cena e um dos antagonistas tem um destino previsível. Ou seja, são arquétipos que podem ser resumidos em uma palavra cada. Resta-nos Freddy e estarmos encantados ou hipnotizados ou assustados com a personagem, o que nunca ocorre. Ela é uma vilã atrapalhada que nos irrita em uma cena ou outra.

We Hunt Together.

Vale sublinhar o trabalho dos atores, em especial as atrizes Eve Myles e Hermione Corfield. Mesmo tendo problema com o rumo de suas personagens, não posso atribui-las esta culpa: a primeira tem boas cenas intensas enquanto a segunda sabe encontrar o tom cínico da Freddy que o texto lhe apresentou. O detetive Jackson é a personagem que mais me incomoda, quase uma caricatura da pessoa que o roteiro acredita estar retratando, mas, novamente o ator Babou Ceesay o torna possível.

We Hunt Together optou por mudar as perguntas geralmente utilizadas em histórias de mistério. O resultado é inconstante, mas consegue sustentar a curta temporada e deixar espaço para uma eventual continuação. Esta, no entanto, deverá amadurecer sua forma de lidar com o pesadelo na mente de suas personagens ou o pesadelo que elas representam. Há uma boa dinâmica entre as duplas de detetives apresentadas, enquanto a de assassinos é desequilibrada, pendendo sempre para um lado. Quando separadas, somente um dos quatro parece se manter em pé. Quando juntos, como anuncia o título, o próprio telespectador parece estar à caça de algo que nunca é encontrado.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-we-hunt-together-se-esforca-para-ser-mais-do-que-uma-historia-de-misterioWe Hunt Together optou por mudar as perguntas geralmente utilizadas em histórias de mistério. O resultado é inconstante, mas consegue sustentar a curta temporada e deixar espaço para uma eventual continuação.