Há diversas maneiras de se perceber a ambição de uma série, mas podemos dividir em duas principais observações: i. o que a série pretende nos apresentar ou ii. o que a série requer dos telespectadores durante sua jornada. Há a ambição da produção, quando cenários e locações ostentam valores altos. Há a ambição temática, quando a série pretende nos explicar a vida toda, falar por uma geração inteira ou diagnosticar nossos problemas sociais, etc. Há também a ambição de se esperar uma série de concessões de seus telespectadores para que eles se mantenham conectados à história. Servant, série da Apple TV+, faz parte desta última categoria, e sua experiência com ela estará relacionada com o quanto você pretende ceder.
De uma forma ou de outra, estamos sempre cedendo às séries de tevê: seja nosso tempo, seja em nossa luta interna por descrer na realidade inventada pelo roteiro. É da arte sempre nos vencer nessa batalha, deixando-nos cientes de que um filme é um filme ao começá-lo exibindo seus créditos, mas logo nos inundando de algo tão real que o corpo reage e vai do choro ao tremor. Em histórias de horror, então, a exigência é total — e a ambição dos realizadores é total também. É atrevido contar uma história envolvendo fantasia e sobrenatural num mundo cético e que está muito mais obcecado pelo próprio passado e futuro do que inventar brincadeiras que nos resgate a infância e a inocência de se acreditar.

O atrevimento tem sempre seu preço: o horror se torna o gênero fictício e estrutural menos valorizado em sua indústria e verdadeiras obras de arte (no cinema, na televisão e na literatura) não ganham a ovação que merecem. Outro preço é o de que o público cobra com mais afinco a promessa da experiência de histórias de horror. O drama pode não fazer chorar e a comédia pode apenas ter uma vibe divertida, sem converter-se em gargalhadas, mas o horror precisa dar medo, precisa assustar, pensamento que infelizmente isola o gênero numa polaridade injusta e que reduz seu potencial reflexivo e inovador.
O cinema de M. Night Shyamalan tem muito de barganha em si: conta-nos uma história com a condição de que cedamos aqui e ali a seu ridículo ou falta de verossimilhança. Quem cede cegamente, apaixonado pelo universo em que as histórias do artista são contadas, podem tê-lo como um dos diretores favoritos. Os mais incrédulos, pouco dispostos, adentram as salas de cinema preparados para decifrar seus filmes em minutos e condená-lo por estar perdido em sua carreira. Assim, não é surpresa que Servant, série que co-produz para o novo serviço de streaming da Apple chegue com tal herança.

O que possivelmente seria um bom filme é transformado em dez curtos episódios em que muito se pede ao telespectador. Este engole as perguntas, questionamentos sobre por que tal personagem não faz isso ou segue tal pista, em nome de se crer na fábula. Como no teatro, vamos aceitando a verossimilhança dentro do que não há verossimilhança, os atores que realmente não morrem em cena e os palcos que se tornam mundos diversos. Em Servant, temos o mesmo jogo. Em determinado momento da maratona, no entanto, talvez você se canse de ceder e ache a história apenas absurda demais, estúpida demais e vazia demais.
Enquanto Shyamalan apenas dirige o primeiro episódio, todos são escritos pelo criador da série, Tony Basgallop, talvez o grande problema deste projeto. Enquanto o conjunto de diretores se saem bem na tarefa de criar uma atmosfera estranha, que risca nossa realidade com as personagens conturbadas e os atores sustentam tal proposta, o roteiro é dado aos lugares comuns do gênero. O texto se sustenta consideravelmente bem pelos primeiros episódios, sabendo o que esconder e o que mostrar, preparando o clímax de sua intriga. Depois deste começo, percebemos personagens odiáveis ou arquetípicas do gênero, que nos criam uma apatia nociva ao enredo. Há uma indecisão a respeito da (possível) antagonista que nunca chegamos à conclusão se é o roteiro não se comprometendo ou dando-lhe uma jornada equivocada.

Tentando olhar por trás da cortina para falar sobre os truques que produzem (ou não) a mágica na série, minha intenção ainda é que o leitor ouse ver o espetáculo por si. Assim, vou resumir a história de maneira propositadamente vaga. Temos um casal formado por Sean (Toby Kebbell), um chefe de cozinha consultor, e Dorothy Turner (Lauren Ambrose), uma repórter. Os dois contratam uma babá, Leanne Greyson (Nell Tiger Free) para cuidar de seu filho, um bebê diferente. Logo ficamos sabendo que há algo de estranho na criança, e é a posição da babá em relação a isso e o que ela pode fazer para resolver tal conflito que passamos a acompanhar.
Além do trio principal, temos Julian Pearce (Rupert Grint), tio da criança, ali para mexer na dinâmica de poder da casa, uma vez que a irmã é muito frágil e não se dá conta do que acontece em seu lar. Tão detestável quanto o cunhado, temos aqui uma dupla de investigadores desajeitados, que não trazem nenhum charme para uma trama carente disso. Visualmente, temos muito o que ver, mas na substância da coisa, quando refletimos sobre a não-complexidade de tais pessoas, vemos um distanciamento entre a névoa que a série está produzindo e o que (não) há lá quando tudo se dissipa.

A melhor personagem é também a melhor performance do elenco. Lauren Ambrose, nossa conhecida de Six Feet Under, tem momentos tenebrosos e melancólicos, quando sua personagem mergulha em terrores possíveis e devaneios tristes. Sem nunca temer a sufocante aproximação da câmera, Lauren sabe dar vida a esta mãe que vai de ameaçadora a delirante. Se chegarmos a pensar o que a série pretende debater sobre maternidade, quais os significados por trás da decisão de ter esta como uma temática para a história, é por conta da atriz.
Servant é um divertido suspense na primeira metade de sua temporada inicial e uma história com vícios demais na segunda. Nunca entendemos de verdade as motivações tanto das personagens que representam o sobrenatural na história quanto as outras que deveriam reagir com nosso costumeiro espanto e hostilidade. Temos um bom balanço entre cenas hipnotizantes e cafonas em seu desfecho, momento final em que aqueles que não desistiram da jornada podem se perguntar se valeu a pena ceder tanto. Talvez não. Talvez a resposta seja friamente inconclusiva.
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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.




















