Liar, a série de hoje, possui um título intraduzível. Não que não haja correspondente dentro da nossa língua para a palavra, mas qualquer escolha sairia da intenção inicial, que é anunciar uma pessoa mentirosa em seu título sem vinculá-la a qualquer sexo. Isso porque temos um homem e uma mulher em jogo e, por boa parte do tempo, não sabemos quem diz a verdade e quais os motivos para que o outro lado não faça o mesmo. Sabemos apenas que há uma mentira. O assunto em questão é muito delicado e chega à televisão para, assim como em tantas outras produções, refletir o que estamos debatendo aqui fora. Liar é desajeitada com a condução de sua narrativa, mas não posso deixar de celebrar a coragem de abordar um tópico que precisa ser discutido.

Na história, seguimos ele e ela. O enredo demora certo tempo para tomar um posicionamento, então a impressão inicial é de que é sobre os dois. Ela é uma professora do ensino médio que acaba de sair de um namoro. Mora perto da irmã, com quem mantem um bom relacionamento, parece bem resolvida com as próprias decisões e sem medo de se arriscar. Ele é um cirurgião respeitado em seu meio. Viúvo, tem um relacionamento saudável com o filho adolescente e exibe toda a confiança que sua condição financeira lhe permite. Estamos diante de Laura e Andrew.

Liar
Liar

Eles não são completos desconhecidos: ela é professora do filho dele; ele trabalha com a irmã dela. Aproveitando-se da oportunidade em vê-la solteira, o médico decide convidá-la para um encontro. Relutante no começo, ela aceita. Ambos têm uma noite desajeitada, mas agradável, que acaba na casa dela. Depois de mais bebida e aquela conversa estranha que parece levar a algo, temos um pulo para a manhã seguinte, quando Laura acorda cansada, sentindo-se mal e com a impressão de que algo aconteceu sem o seu consentimento. A sensação não passa disso no primeiro momento porque ela não se lembra de nada. Lembra-se de ter dito não — o que já é o bastante. Com essa certeza, ela vai até a polícia e faz uma acusação formal, que leva o agressor à prisão. Há um problema, no entanto: ele nega que tudo tenha acontecido como ela descreve.

Liar fez sua primeira temporada entre setembro e outubro do ano passado pela ITV. A série britânica tem seis episódios de quarenta e cinco minutos e foi criada pelos irmãos Harry e Jack Williams, que atuam como roteiristas. Se você acompanhou o projeto de perto, vai se lembrar que eles são os responsáveis pela série Rellik, sobre a qual falamos há alguns dias — aqui. A maratona da série deste post pode provar que eles possuem ideias interessantes, mas cujo desenvolvimento, pelo menos tomando as duas produções como exemplo, não caminha tão bem. As duas séries não possuem apenas o mesmo número de episódios como semelhança, mas um cansaço que se abate sobre o telespectador por conta dos rumos estranhos que as personagens tomam.

Liar
Liar

Para saber quem está dizendo a verdade, você precisará acompanhar, pelo menos, os três primeiros episódios. Aqui vou me limitar a analisar o restante — até porque descobrir a verdade é a grande graça da coisa. Liar se apoia, de primeira, nesse jogo de atribuir a possibilidade da culpa a ambos. É interessante usar esse método porque coloca a visão preconceituosa ou apressada do telespectador em jogo. As vidas de ambos são prejudicadas pelo caso, principalmente quando, inconsequentemente, Laura decide usar as redes sociais para fazer uma acusação pública. Como este é um assunto muito complicado de se trabalhar, a produção decide nos contar a verdade na metade do caminho. Assim, os primeiros três episódios são sobre quem mentiu e os três últimos sobre por que mentiu. Liar é covarde em muitos pontos, mas não posso dizer que esta atitude seja uma das provas disso. Seria perigoso que a série não se comprometesse com uma resposta.

Assumindo o protagonismo, temos a (excelente) atriz Joanne Froggatt, celebrada por sua Anna em Downton Abbey, e Ioan Gruffudd, que recentemente protagonizou a série australiana Harrow. Se a primeira tem um trabalho intocável e consegue criar personagens que visualizamos nessas situações terríveis, não consigo dar os mesmos parabéns a ele. Ambos são prejudicados pelo roteiro, no entanto, então não sei até que ponto posso culpá-lo: são arquétipos desde o começo, descritos como a independente e o atrapalhado.

Liar
Liar

Além dos dois, vale destacar Katy (Claire Foy Zoë Tapper), a irmã de Laura. Casada com Liam (Richie Campbell, As Crônicas de Frankenstein, lembra?, ela é mãe de dois filhos e tem um complicado segredo que pode abalar a relação de ambos. Enquanto a irmã é um ponto forte em diversos momentos e a atriz tem boas cenas, não tenho muito o que falar sobre seu marido. Destaco, então, a detetive Vanessa (Shelley Conn), que desempenha um papel essencial durante a investigação sobre o alegado abuso.

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A ex-minisserie (foi renovada para uma segunda temporada) não faz nada de muito errado, mas segue todos os passos que nós, maníacos por séries, imaginávamos. Dá para prever os passos de ambos os lados. Temos a cena de um invadindo a casa do outro, revirando o passado, conversando com pessoas que aparecem para falar sobre como ela é paranoica ou o quão suspeito é ele. Meio que aquele filme de suspense que nós assistimos para passar o tempo, mas podemos largar a qualquer momento porque sabemos o final. Para ajudar o lado que escolhe apoiar, o roteiro se vale de artifícios como a recorrência, provas físicas e deslizes. Sem contar que há um grande esforço na busca por provas que, quando se tornam uma possibilidade, são descartadas em nome de um final que desvaloriza o tempo investido.

Liar
Liar

Liar faz estranhas conclusões sobre o comportamento do agressor e do agredido e onde está a justiça da situação. Mesmo assim, principalmente pela inevitável empatia (espero) que temos com os conflitos retratados, não há como não se afetar por alguns diálogos e algumas descobertas. Há uma cena no último episódio que se passa dentro de um carro que eu destacaria como o auge da aflição que sentimos. Assim, não sustentando a maratona de um sábado chato, a série talvez consiga agradar melhor se misturada a outras, assistindo naquele bom intervalo para respirar. Ou não respirar. Cada um que use a tevê de acordo com seus planos.

——

ps:

(1)

Se o assunto da série é delicado para você, NÃO assista. Nem que seja de longe. Nem que seja só um pouco. Não é uma boa ideia.

(2)

Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-liar-serie-misterio-problematicoLiar é desajeitada com a condução de sua narrativa, mas não posso deixar de celebrar a coragem de abordar um tópico que precisa ser discutido.