Em um filme para a tevê exibido em novembro de 2014 na BBC, a história da criação de duas das mais importantes obras do horror na literatura foi explorada. Tendo escritores famosos na lista de convidados para comentar a grande influência desses romances (Neil Gaiman e Margaret Atwood), Frankenstein and the Vampyre recria através de cartas e diários o que é por muitos creditada como uma das noites mais importantes para a formação de nossa cultura ocidental. Para quem desconhece a história, os escritores responsáveis por encaminhar essas duas criaturas em nossa direção se encontraram em um entardecer tempestuoso para, junto com amigos, contarem histórias de fantasmas. Daí surgiu O Prometeu Moderno, de inesgotável influência nas mais diversas mídias atuais e The Vampyre, que mais tarde influenciaria diretamente os escritores que seguiriam essa temática, pois trouxe um olhar romântico ao monstro protagonista.
O filme não tem a pretensão de abordar o sobrenatural, mas trazer aos telespectadores um contexto da época em que as histórias foram criadas. Assim, ficamos sabendo mais sobre Mary Shelley, a grande criadora por trás dessa história sobre criação. Ela se torna personagem, portanto, contando para a câmera como se estivesse lendo as próprias cartas. Podemos tomar essa tentativa de alcançar a época da autora para falarmos sobre The Frankenstein Chronicles, que parte daí. A jornada na série começa poucos anos depois da famosa versão para os teatros da mencionada história — o que, segundo o documentário, teria sido a grande responsável pelo sucesso posterior do romance.

O inspetor John Marlott não tem ideia da existência de tal livro, mas as pessoas ao seu redor sim. É por isso que ele não liga os pontos imediatamente ao encontrar o corpo de uma criança jogado perto de um rio. Não um corpo, na verdade, mas partes de diferentes corpos, costuradas por alguém que tem a mesma ambição do Doutor Frankenstein. Ao entrar em contato com tal realidade, nosso detetive, encarregado de descobrir quem estaria por trás de tal aberração, conhece mundos ocultos às classes mais privilegiadas. Para começar, ele encara a fragilidade das crianças de rua, abandonadas à própria sorte e assustadas, no momento, com um monstro que aparece de vez em quando para coletá-las e torná-las parte de seus experimentos.
The Frankenstein Chronicles é uma série britânica que fez sua estreia em novembro de 2015 e retornou ano passado, no mesmo mês. Criada por Benjamin Ross e Barry Longford, a produção conta com doze episódios e é distribuída internacionalmente pela Netflix, motivo pelo qual a segunda temporada entrou recentemente no catálogo. Os criadores se dividem entre roteiro e direção no primeiro ano, mas abdicam de tais posições no retorno, o que só favorece a condução da história. De começo morno e esquecível lá atrás, as crônicas voltaram em um bom ritmo, explorando com mais intensidade sua violência e trazendo personagens que valem a pena acompanhar.

A menção na introdução a Mary Shelley foi feita porque a escritora é uma das personagens na primeira temporada. Aqui, ela é interpretada pela atriz Anna Maxwell Martin, que com isso já carimba sua terceira participação em nosso #MêsDoHorror — muito familiar com o gênero ao participar de And Then There Were None e Mindwinter of the Spirit, minisséries de 2015. A autora aqui é usada para explorar as consequências diretas de sua história à sociedade da qual fazia parte. Na obra, como sabemos, há uma possibilidade de recriar um humano a partir de outros. Visualizamos também um flerte com seu passado, o que teria influenciado a escrever tal narrativa e como sua vida foi tocada pela repercussão que se seguiu.
Mas não se enganem, Mary aparece como suspeita dos crimes investigados, mas tem uma pequena participação. O foco vai para o detetive Marlott e as transformações pelas quais passa ao longo dos episódios. Ele vai da descrença total por tudo relacionado às motivações dos antagonistas ou do mundo sobrenatural cada vez mais próximo deles ao confronto direto com essas verdades. É uma boa saga, mesmo que previsível em diversos pontos e muito semelhante à de Ned Stark — talvez (talvez) porque temos Sean Bean novamente comandando uma investigação de maneira inteligente, mas muitas vezes equivocada. Ele toma diversas decisões que tornam possível um paralelo entre as duas personagens.

As outras personagens, pelo menos na primeira temporada, não possuem encanto algum. Vanessa Kirby, no exemplo mais grave que consigo dar, aparece para cenas melodramáticas, pouco aprofundadas e que não aproveitam em nada o talento da atriz. Ela aqui interpreta Jemima Hervey, que faz dupla ao irmão, Daniel, como nobres que se posicionam sobre a constante briga entre ciência e religião. Este, aliás, é um dos temas mais recorrentes por aqui, pois o corpo encontrado pode ser de autoria de um dos lados da questão, empenhado em vencer a partir do choque. Joseph Nightingale (Richie Campbell) é o parceiro de Marlott que tem pouca utilidade nos primeiros seis episódios, mas forma uma dinâmica interessante com o protagonista na segunda temporada.
Como já deu para perceber, a série traz diversos assuntos para serem discutidos com suas personagens, desde a situação em que as classes desfavorecidas se encontram, à visão do aborto na época, ao trazer Flora (Eloise Smyth), uma vítima das circunstâncias. Sem casa e agenciada por um cafetão, a jovem cruza o caminho do detetive, que lhe propõe uma saída do submundo no qual tenta sobreviver. Ryan Sampson também contribui positivamente à lista de personagens ao interpretar Boz, um jornalista pouco confiável, mas habilidoso.

Muitos defeitos que eu apontaria estão no primeiro ano, quando assistimos às cenas repetitivas de delírios de Marlott, explicadas pela doença que ele possui. Elas não contribuem muito para o ritmo da série, que já não é muito animador. A conhecida figura do viúvo investigador, que no fundo se pergunta aonde foi a esposa, pesa tanto quanto. Depois de alguns episódios, as revelações ficam óbvias mesmo aos pouco atentos; os antagonistas também não são destacáveis.
Para o seu retorno, As Crônicas de Frankenstein trazem alterações positivas. Desde a mudança do elenco ao modo como a história é abordada. Encaramos com mais clareza a violência proposta pelo roteiro, que não é apenas física, mas psicológica. Diversos conflitos antes não tocados aparecem, como a maternidade e o relacionamento com o sobrenatural. Ainda falamos sobre justiça e sobre a monstruosidade daqueles que querem “higienizar” o lugar onde moram. Resgatamos também um dos tópicos mais interessantes da obra de Mary, que é a pergunta sobre o lugar social do monstro, indagação indireta no enredo.

Esther Rose (Maeve Dermody) é uma das melhores adições. A costureira que vemos caridosa e humilde na premiere vai se deixando levar pela tentação provocada pelas pessoas com quem tem contato na casa onde trabalha. Queenie (Kerrie Hayes), por sua vez, é empregada no lugar e protagoniza cenas interessantes ao viver o clássico horror de uma pessoa perdida em uma casa mal-assombrada.
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A segunda temporada muda seu mistério e apresenta assassinatos de padres. A investigação é feita de forma paralela, pois passamos a acompanhar diversos núcleos, desde a saga solitária do protagonista às bizarrices de um homem rico interessado em criações mecânicas. A ciência continua presente e ao lado dos antagonistas, mas o sobrenatural assume em boa parte do tempo. Dessa forma, se começamos com uma série criminal de época, nos seis episódios que chegaram recentemente ao catálogo brasileiro vemos uma boa série de horror manifestar seu potencial.

As Crônicas de Frankenstein é uma série que demanda paciência no primeiro contato. Aos admiradores das versões já assumidas pela criatura gótica, no entanto, não será pedir muito que insistam um pouco. Com episódios menores e com personagens mais cativantes, o regresso de Marlott deixa as ambições de se vasculhar a vida da escritora inglesa de lado para focar nos assuntos que ela trouxe consigo na obra que a tornou imortal.
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Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.















