Com uma dinâmica totalmente nova e superando todas as expectativas, Legacies começa sua história num saldo extremamente positivo, honrando e expandindo o universo de The Originals e The Vampire Diaries. Ao contrário do que pensávamos, em poucos minutos do episódio piloto o spin-off surpreende a todos, mantendo-se fiel à essência de suas séries “maternas”, mas sem apelar integralmente para seus elementos identificadores. A sombra de TO e TVD está presente em Legacies, mas o que o roteiro busca deixar claro nas entrelinhas é que isso não a definirá, que o spin-off irá explorar caminhos nunca antes vistos em suas histórias, com a missão de ir além do que já estamos acostumados. Ou seja, Legacies tem a faca e o queijo na mão: essa é a oportunidade dos produtores enriquecerem ainda mais sua mitologia, legitimando-a, onde não haverá limite para a criatividade narrativa.

Bem, sem mais delongas, iniciarei a análise da mesma forma que fiz com a review do episódio piloto de Shadowhunters: de mente aberta, sem preconceito, comparações com séries de realidades totalmente diferentes (não podemos comparar, por exemplo, GoT com Legacies) ou julgamentos. Precisamos, sobretudo, ver o spin-off sob a ótica de um novo produto televisivo, que, como qualquer outro, tem suas limitações, seus prazos e regras a seguir de acordo com a direção, os roteiristas, produtores, autores, etc. Por mais que a ideia de baseá-la em histórias como Harry Potter pareça estranha à primeira instância, o importante nesse momento não é como ela será produzida, de que maneira ela será contada ou o que ela abordará, mas o motivo da sua criação, ou seja, a razão que provocou o nascimento de Legacies ou, mais precisamente, seu propósito de “existência” (na onda da teoria do “Golden Circle”, ou Círculo Dourado, de Simon Sinek, um famoso autor britânico).
Pegando carona na teoria acima, qual é o propósito de Legacies? O que levou Julie Plec a criar o mundo de Legacies não é apenas uma jogada em busca de lucros (qualquer um pensa dessa forma, como podemos ver em Animais Fantásticos e Hobbit), mas sim manter viva a chama de TVD e TO, séries que infelizmente alcançaram o ápice de suas histórias, através de um novo olhar, com uma protagonista feminina (algo que TVD sempre exaltou com Elena e que TO pecava vez ou outra, dando maior atenção aos irmãos Mikaelsons) que vive no dilema do bem e do mal, que se encontra numa jornada de autoconhecimento. Legacies tem, então, uma justificativa plausível para existir, correto? Com a definição desse ponto primordial, o resto vem com o tempo e pode até mesmo se atualizar ao longo das próximas temporadas. Enfim, o que quero dizer é: palma, palma, não priemos cânico… Legacies merece uma chance!

Com essa premissa em mente (e toda a filosofia que formulei com ela, claro), já precisamos “fechar os olhos” aos efeitos especiais da série, algo que me irritou profundamente (confesso) e que, a meu ver, é o único defeito do spin-off até agora. Sendo o hater chato: os defeitos efeitos especiais estão péssimos (oi, abertura, turo bom?)! Até mesmo os de Once Upon a Time eram melhores, e olha, OUAT era triste, realmente costumava ser vergonhoso… No entanto, como Shadowhunters, até esse detalhe pode mudar, se transformando em algo que pode nos surpreender e até, quem sabe, superar o que era feito em TVD e TO. Eu particularmente não acredito que isso significa que Legacies será ruim até o fim, o que importa nesse momento, depois de estabelecido seu propósito, é o conteúdo que será apresentado e como ele será contado de forma a convencer o telespectador a continuar vendo a série.
E por falar em conteúdo, ele não poderia ser mais rico e empolgante: a jornada do herói está bem definida e os alicerces que irão sustentá-la estão sendo inseridos e alimentados, com cautela às personalidades de cada personagem, a caracterização dos cenários e as relações interpessoais que existe em cada integrante da série. MG, Penelope e Rafael cumprem o papel de coadjuvantes, mas, apesar do pouco tempo, já tiveram suas motivações, experiências e medos parcialmente expostos. Serão eles que vão auxiliar os protagonistas (primários e secundários) em suas jornadas, com as gêmeas e Hope com o papel de liderança da narrativa; Landon, a dúvida que paira em torno da sua ética e identidade, o que, até então, coloca-o no campo do antagonismo; e Alaric, o mentor que irá guiá-los com sua sabedoria e vivências. Como podem ver, tudo bem costurado e devidamente apresentado.

Bem, antes de começar a falar do episódio de forma geral… Pra quem não lembra, recapitulando: no último episódio de The Originals, Klaus (ao lado de Elijah, numa das cenas mais belas de TO até então), sem outra saída, decide sacrificar-se pela filha, que estava entre a vida e a morte após absorver a magia negra de Inadu/Hollow na esperança de salvar sua família. Na ocasião, Hope promete ao pai que irá retornar à Mansão Salvatore a fim de terminar seus estudos e recomeçar sua vida, buscando honrar a memória dos Mikaelsons. Dois anos depois, Hope, ainda desolada pelos eventos que acarretaram na morte de seus pais e de Elijah, ou seja, na ruptura de sua família e do lema de milênios que os unia, é obrigada a amadurecer precocemente, lidando com a perda, a solidão e a culpa que paira em seus pensamentos.

Como esperado, ao contrário de TVD e TO, que exploravam a ideia, mas não a expunham publicamente em seus episódios, Legacies definiu como missão abordar a distinção que existe entre o vilão e o herói, buscando transmitir a mensagem de que a maldade/bondade é relativa e principalmente uma questão de perspectiva (de quem conta a história, nas palavras de Hope). Com relação a TO, por exemplo, Klaus dizimava centenas de inimigos, nós comemorávamos, mas ninguém conseguia analisar as consequências que seus atos geraram e, principalmente, os efeitos colaterais que elas causavam em outras pessoas. Para elas, Klaus era mau e o vilão, para Hope, por outro lado, ele sempre foi um herói. Por essa razão eu digo que essa é, na minha visão, a tecla que mais será batida no spin-off: até que ponto podemos julgar as ações do próximo se não conhecemos sua realidade e suas motivações?
Quem somos nós para julgar, por exemplo, a atitude do Landon, que roubou a adaga, sem nem sabermos o que o levou a tal extremo? Da mesma maneira, não temos condições de julgar Hope por praticar magia negra (sem saber até que ponto o poder de Inadu saiu de sua essência) e chantagem; Lizzie pela possibilidade de vir a desempenhar um papel de vilã, entrando num colapso mental semelhante ao Kai, provocado pela proximidade de Hope com seu pai e ao perceber o triângulo amoroso que pode surgir entre ela, Rafael e sua irmã; ou Josie, que, por vingança, deixou seus desejos mais sombrios dominarem-na, colocando fogo no braço de sua ex. Quem é o vilão dessas histórias e pontos de vista? Onde estará o herói, aquele que é sempre taxado de “perfeito” e isento de problemas e/ou cries?
Agora, pensando de maneira fria: quem é o culpado pelo extermínio das pessoas do ônibus em que Landon estava? O próprio? Pelo ponto de vista de Hope, sim, pois ele a enganou, levou a arma e estava com ela no momento do acidente. Mas e se vermos pelo lado dele, tudo indica que a magia de Josie e de Hope pode ter provocado a adaga, tendo em vista a semelhança entre as cores na hora do feitiço e quando Landon aparece retirando o artefato da mochila. Em ambos os casos, quem é o vilão e quem é o herói? Não é tudo uma questão de perspectiva e pontos de vista? E se Landon for de fato uma criatura sobrenatural (por não poder ser hipnotizado), por qual motivo isso o tornaria num vilão? Como dito por Alaric, cada um possui um lado negro que deve ser suprido, e essa é, talvez, a grande premissa da série: a busca pelo autoconhecimento e a ideia de que toda história tem dois lados.

Em suma, This is the Part Where You Run cumpriu seu papel principal: introduzir a estrutura da série e os conflitos que irão gerar interações daqui em diante. O episódio piloto foi impecável, comprometido com a imagem que TVD e TO sempre passavam, valorizando sua mitologia, o romance, a amizade entre os estudantes (e familiares, com a união das gêmeas Lizzia e Josie), a representatividade (através de Josie, uma das poucas personagens bissexuais até o momento, algo extremamente raro na CW), entre outros atributos. Legacies é mais do que um simples spin-off, todos seus elementos buscam transmitir a imagem de que ela estará além, com sua própria identidade visual, verbal e narrativa, caminhando uma nova jornada, sem estar vivendo na sombra e nos louros das outras.
> A Maldição da Residência Hill – QUASE MORRI DE MEDO!!
Bem, isso é tudo, pessoal. Agradeço a presença dos leitores antigos que retornaram pelo spin-off, aqueles que vieram apenas por gostarem da minha escrita (espero que retornem não apenas por mim, mas pela série em si, pois Legacies merece uma chance) e, principalmente, os que chegaram agora e desconheciam os meus textos de The Originals. Serão todos bem-vindos por aqui! Aguardo vocês na semana seguinte, em Some People Just Want To Watch The World Burn, ok?
Curiosidades:
Referências
É interessante ver que Legacies não estreou utilizando TO e TVD, as séries “mães” de toda sua mitologia, como bengala ou muleta criativa. O piloto mostra que teremos apenas referências nostálgicas e com um intuito informativo (afinal, são muitos detalhes a serem lembrados), como as vistas em diversas cenas da Mansão Salvatore: na sala dedicada ao Stefan, à história do clã Gemini, no retorno de personagens marcantes, os vampiros originais e a própria ambientação do spin-off, que coloca os telespectadores de volta nos cenários de Mystic Falls, impactando-os emocionalmente. Como dito no início do texto, Legacies parece não querer manter-se na sombra das outras produções, ela quer conquistar seu próprio espaço no fandom. Então, ainda há esperança!
Legacies (Abertura)
A série é ótima, tem personagens interessantes e curiosos, com uma mitologia cada vez mais expansível e envolvente, mas, pelo amor da titia Dahlia, eu peço (não, eu suplico): mudem a cena de abertura! A logo é bonita demais pra ser introduzida com efeitos tão ruins. Uma introdução com fogos de artifício… É sério isso? Parecia que eu estava vendo uma daquelas séries infantis da Disney! Nem preciso dizer que estava horrível, não é mesmo?
Esportes e cultura
Diferentemente de TO e TVD, Legacies agora possui um tom mais despojado e jovial, mas inserido no mundo sobrenatural, algo totalmente inédito em suas séries “maternas”. TVD tinha o mesmo tom, mas majoritariamente no mundo dos humanos, o que limitava o campo a ser explorado na narrativa. Agora, com a Mansão Salvatore e seu amplo clima sobrenatural, a situação muda, possibilitando a abordagem de culturas desconhecidas até o momento, bem como a criação de formas de lazer, como foi possível ver no quesito “esporte”, na apresentação de um jogo semelhante ao quadribol, inventado por Caroline e Alaric justamente para que os alunos tivessem acesso a algo único e que possa fortalecer seus poderes, ao mesmo tempo em que lhes dá um sentimento de pertencimento ao mundo em que vivem.
Grupo no Telegram (SM – The Originals)
Pra quem ainda não sabe, eu criei um grupo no Telegram voltado estritamente para os leitores dos meus textos de The Originals e, agora, de Legacies aqui no Série Maníacos. Tem sido muito interessante esse contato com vocês, então, quem ainda não estiver no grupo e quiser fazer parte para discutirmos sobre o spin-off, basta clicar aqui. Aguardo vocês por lá!















