Criada por Graeme Manson, a série Snowpiercer (Expresso do Amanhã) é baseada no filme de mesmo nome, lançado em 2013, do premiado diretor sul-coreano Bong Joon Ho (Parasita), que por sua vez, buscou inspiração no romance gráfico francês pós-apocalíptico chamado O Perfuraneve, criado por Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette. Após um confuso troca-troca de comando, de emissora e de prazo, a série chegou para o público através da TNT, com retransmissão mundial pela Netflix.

A série já nasceu rodeada por altas expectativas por ter o peso do nome de Bong Joon Ho atrelado ao filme que a inspirou e por conter em sua narrativa original um forte conceito de crítica social em meio a uma sociedade caótica. Esses elementos são suficientes para atrair a atenção do público que recentemente ampliou a sua lista de filmes com análises sociais mais complexas incluindo o polêmico “O Poço”, da Netflix, e “Parasita”, o ganhador do Oscar. Para assistir a uma série como essa é necessário ter em mente que a possibilidade de viajar indeterminadamente em um trem, dando voltas pelo mundo, é real e viável, afinal, trata-se de um show de ficção cientifica distópica.  Também é necessário entender que o conceito de castas sociais faz parte do discurso implícito na trama, mesmo que aqui esteja travestido por uma suposta investigação criminal ou por recortes sociais embutidos em cada um desses vagões.

Em um breve resumo, a série narra a história dos únicos sobreviventes de um experimento fracassado que tinha como objetivo refrear o aquecimento global, mas acabou gerando uma espécie de nova era glacial, onde tudo ficou congelado, tornando a terra um lugar inóspito para seus habitantes. Como única solução viável, o milionário e visionário Sr. Wilford criou o trem Snowpiercer, com 1.001 vagões, cobrando passagens de primeira classe para os investidores ricos poderem embarcar, levando uma vida luxuosa enquanto viajam; já os pobres pagam a sua permanência através do trabalho que mantém o trem funcionando e, por fim, tem a turma do fundo, constituída por pessoas que não possuem condições de pagar e, por isso, invadiram o trem nos momentos finais do embarque, purgando uma sobrevivência miserável e desumana em seus porões. Pessoas sendo obrigados a viver por tempo indeterminado em um trem, separadas em vagões de acordo a sua condição social e sendo expostas a regras desiguais é a mistura ideal para que o conflito apareça.

Não demora muito para que esse conflito apareça entre os moradores do fundo e é exatamente nesse ponto que o episódio inicia a sua trama. A questão é que em algum momento esses sobreviventes considerados inferiores começam a se rebelar e se negam a viver dessa maneira. O grupo de degradados encontra a sua voz em Pike (Steven Ogg), um revolucionário que pretende conquistar melhorias através da luta armada. Por outro lado, a multidão enfurecida e faminta encontra uma possibilidade de conciliação através da ideia de André Layton (Daveed Diggs), que propõe uma estratégia de reconhecimento do espaço inimigo antes de um confronto. O problema é que a resistência não está tão unida e sincronizada como seria necessário para que qualquer plano de rebelião tenha o mínimo de sucesso. Layton é removido do fundo e levado para a terceira classe, onde a sua habilidade como investigador de homicídios é requisitada para investigar um estranho assassinato ocorrido no trem. Após ser devidamente limpo e alimentado, Layton é apresentado ao caso e a possibilidade de uma transferência para a terceira classe lhe é ofertada, ele não aceita de imediato, pois percebe nessa situação uma boa oportunidade para negociar algumas concessões para o povo do fundo em troca dos seus serviços.

No entanto, a turma do fundo liderada por Pike toma a decisão de iniciar imediatamente a revolução, mesmo que para isso muitas vidas sejam perdidas. Alheios a toda essa efervescência estão os ricos, vivendo suntuosamente nos vagões luxuosos, sendo conduzidos por Melanie (Jennifer Connelly), a voz do trem. Enquanto o pessoal do fundo briga por um pouco mais de comida e de direitos iguais, os ricos se preocupam com coisas mais supérfluas, tipo um desentendimento na sauna. Essa dicotomia provavelmente é a parte mais interessante desse episódio de estreia, principalmente porque mostra que mesmo em um mundo distópico, a beira do caos, o ser humano ainda conserva uma grande parcela de egoísmo, de divisão de classe e de mau-caratismo.

Apesar de muito bom, o piloto apresenta lentidão na narrativa em alguns momentos, perdendo a tensão e o caráter de urgência na construção do momento de embate entre os fundistas e os guardas, além de não se aprofundar muito nos moradores da primeira classe, muito menos nos moradores do fundo. Talvez o ritmo menos intenso tenha sido uma proposta intencional para dissociar a série do frenético filme que a inspirou, criando assim a sua marca pessoal. Apesar de as comparações serem inevitáveis até certa proporção, a série Expresso do Amanhã precisa ser vista como um material novo, um projeto diferente, já que claramente não é uma continuação e nem uma releitura do filme. Jennifer Connelly está muito segura em sua personagem, fazendo o que ela sabe fazer de melhor, entregar atuações memoráveis. O grafismo da animação na abertura do episódio lembra muito as imagens em preto e branco da revista francesa e foi um acréscimo muito interessante para, de forma resumida, situar o público sobre os acontecimentos que levaram ao ponto em que a série tem o seu início.

O plot twist nos minutos finais do episódio foi bem interessante e deixou claro que o projeto do trem arca tem mais mistérios que o imaginado inicialmente. Sabendo equilibrar adequadamente o plot da disputa entre classes sociais e o plot da investigação policial, Expresso do Amanhã, já renovada para a segunda temporada, tem um vasto material em suas mãos para proporcionar ao público uma rica experiência de entretenimento com bons momentos de reflexão, vale a pena conferir.

REVISÃO GERAL
Nota:
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