Com os rumores de que a terceira seria a última temporada de Ash Vs Evil Dead, os fãs do horror, gênero que ganha cada vez mais espaço na televisão, onde sempre esteve presente no decorrer de sua história, sentiram-se desamparados em alguma medida. Teríamos somente mais uma temporada para celebrar as aventuras de Ash pelo sobrenatural nesta comédia que tira sarro de absolutamente tudo e leva suas personagens ao lado mais original, ousado e asqueroso do trash. A tristeza da notícia, entretanto, é compensada ao reconhecermos, após sua season finale, que sua jornada foi intacta, colocando a produção e o universo da qual faz parte como um dos mais bem explorados pelas mídias audiovisuais.
Foi divertido e à essa altura todo mundo já cansou de dizer isso. Resta-me, então, para compensar o atraso da nossa conversa por aqui, tentar estender a possibilidade de análise sobre Ash, tomando-a como exemplo para falar sobre outras coisas, exaltando, assim, a genialidade por trás de um texto e uma direção que nunca se acovardaram. Qual a importância, depois do óbvio, para que séries como esta sejam aclamadas por críticos e pelo público, mesmo quando faz uso dos mais incorretos recursos para desenvolver sua narrativa? Há, observo, uma contribuição generosa ao horror, cultivada durante sua estadia e que terá continuidade pelas produções que virão depois de seu término.

Um aspecto sobre o qual falarei bastante neste texto é a estética do grotesco, tentando entender por que ela é tão frequente aqui e quais possibilidades é capaz de levantar quando bem utilizada. Não vou me estender muito na definição, pois no ano passado, para iniciar o mês deste projeto, publiquei um artigo que se propunha a apresentar o tema aos leitores do site. Recomendo, então, que dê uma passada por lá antes (ou depois) para complementar sua leitura.
O derradeiro ano da série da Starz é dividido, como os outros, em dez episódios de quase trinta minutos. O roteiro e a direção são realizados por um time, mas é um trabalho tão linear que só um olhar detalhado para perceber as variações de episódio para episódio. Sua exibição se deu entre fevereiro e o final de abril deste ano, pouco depois do anúncio de seu cancelamento. Este, previsível pela baixa audiência da atração, provocou manifestações e petições — todas frustradas quando o próprio Bruce Campbell comentou em suas redes sociais que, assim como sua personagem, está aposentado. Mas com três filmes e trinta episódios como legado, não podemos reclamar muito sobre isso.

Voltando à trama, encontramos nosso herói em um lugar diferente das temporadas anteriores. Aqui, Ash se tornou uma figura de honra e destaque na cidade que tanto o maltratou durante sua vida após o incidente retratado no primeiro filme. Aos poucos, com a mesma desculpa qualquer utilizada por diversos filmes, o mal retorna à cidade e é encarado pelo grupo que acompanhamos há três anos. Alguns elementos são adicionados à trama, contribuindo para novos olhares sobre este universo e sua mitologia. As sequências de abertura (sempre ótimas), aqui e ali, brincam com outras estruturas narrativas presentes em outros seguimentos do horror, como as garotas perdidas no colégio ou aquelas histórias de estrada.
Independente do estilo, há a já característica estrutura da comédia na série ao mostrar personagens com algum desvio moral que nos deixam, como plateia, superiores a elas e as constrangem como forma de instaurar o humor da coisa. É sempre divertida das formas mais bizarras possíveis. Para alcançar tal objetivo, algumas ferramentas são utilizadas, sendo, entre elas, o uso da estética do grotesco. Isso porque para caracterizar suas personagens e o absurdo de sua história, Ash vs vandaliza todas as nossas concepções sociais. Todos os episódios têm em comum esse desejo de ultrapassar a barreira do aceitável tanto dentro das regras que seguimos quanto do que a televisão está disposta a aceitar. Exemplo mais forte é uma cena que não só o sêmen é representado visualmente, um grande tabu na televisão, mesmo em emissoras como a HBO, como vira a grande atração da sequência.

A série brinca com as incoerências deste nosso mundo tão honesto e sério de hoje, deixando seu protagonista o mais desagradável possível. Uma consequência direta é que os laços familiares, os mais sagrados que conhecemos, são tratados com descaso ou reavaliados, com um Ash oferecendo drogas à filha que descobre por acaso. Outros elementos que saem de sua tradição para serem redesenhados por aqui são: a gravidez sai de sua aura também sagrada, representante da vida para se tornar algo horroroso de se assistir; com a criança ocorre o mesmo ao retratá-la como a criatura que vemos; vale mencionar que mesmo as figuras inocentes, como mascotes, passam por uma redefinição para ganharem aspectos animalescos.
Talvez seja interessante que façamos um estudo do corpo dentro da série, como ele é tratado, sua pouca importância em alguns momentos ou como se deforma para conversar com o horror explícito. O corpo em Ash não é algo natural, mas mutilado ou acrescentado de uma parte que lhe dá aparência de aberração: em determinado episódio, os demônios passam a habitar alguma parte do corpo na qual aparecem seus rostos.

A presença desse sujo que deturpa imagens tradicionais, mostradas de outra forma em outras mídias, também pode ser vista nas cenas de enterro, quando a cerimônia de zelar pela memória de alguém se torna uma batalha selvagem de desmembramentos, na qual o morto, que deveria descansar em paz dentro da nossa cultura, torna-se um monstro temível. O uso do banho de sangue, tão repetido, pode ser difícil de entendermos como algo perturbador. Ele o é não só pelo contato com o outro em si (ou com a parte do outro tão temível dentro do nosso contemporâneo), mas porque banhos são rituais de limpeza, de purificação do corpo. Mostrados dessa forma, então, corrompem-se em sua razão de existir, apontando para um temível uso de outro líquido.
Saindo dessas leituras interpretativas, devo parabenizar a série não só pela criação de seu trio, mas por ter os atores corretos em seus respectivos papéis. A empatia com o público é tão bem elaborada que tememos pelo futuro deles na trama, torcemos para que se reúnam e combatam o mal como um time, mas conseguimos nos divertir quando estão isolados, cada um em sua saga pessoal.

Ray Santiago (Pablo) e Dana DeLorenzo (Kelly) injetam a energia necessária para sustentar as cenas de ação ou trabalham bem o físico para que este reflita as cenas mais cômicas. O mesmo fôlego, é claro, é visto no ator Bruce Campbell, melhor explicação para que não odiemos sua personagem. Não dá para não destacar a ótima Lucy Lawless que aqui retorna com sua Ruby para mais uma saga de antagonista que funciona pela entrega total da atriz. Das personagens adicionadas, vale a pena mencionar Brandy (Arielle Carver-O’Neill), filha de Ash, que tem uma interessante saga pela temporada até conseguir se adaptar ao universo do pai e virar a guerreira que precisa ser.
Há adição de um grupo secreto na trama que me pareceu desnecessária, assim como uma nova personagem que entra como fanática pelo herói. Esses “erros” fazem barulho quando somados às decisões incoerentes de algumas personagens, mas o ritmo é tão acertado que dá para ignorarmos isso. Para compensar, temos novas interações de Pablo com os seus poderes, importantes no seguimento da narrativa, e um passeio por um universo alternativo, algo bastante visto em outras séries.

O final da série, que dá um destino a seu herói do mesmo modo debochado como nas produções anteriores, ganha proporções épicas, tornando como universais as consequências para as ações dos monstros que os protagonistas enfrentam — não mais apenas uma batalha na cabana. Com essa grandiosidade da guerra a ser travada com o tal monstro neste mundo apocalíptico, no entanto, Ash se torna o exército de um homem só, voltando à origem, à mesma jornada solitária que fizera nos primeiros filmes.
Ao fim, a herança da produção da Starz está em provocar as outras produções de horror, lembrando a coragem que só a saudosa Penny Dreadful tinha, uma vez que ambas nunca usaram dos elementos grotescos e visuais gratuitamente, mas interligados com suas narrativas. Acima de tudo isso, a série ainda pôde zombar do peso que o sobrenatural tem ganhado nas obras atuais, quando cultuados somente em séries ou filmes muito, muito sérios e com as mais corajosas e morais figuras. Em Ash, no entanto, as personagens são amorais e lutam pelo bem de acordo com as próprias regras. É, em resumo, uma forma de criar um ambiente no qual tudo é possível: um mundo de criaturas horríveis que não deixam os seres humanos menos horríveis em suas particularidades.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.
















