A apresentação derradeira do crossover faz de Forbidden Fruit um dos melhores episódios de American Horror Story.
Depois de oito temporadas é seguro dizer que os melhores episódios de American Horror Story são aqueles que – segundo a resposta dos fãs – reúnem boas viradas e várias doses de horror. Em alguns casos, drama ou abordagens bizarras também entram na conta. Espectadores desavisados ainda acham que o terror é o gênero que ilustra a qualidade do show, mas apelo visual, gore e até comicidade, são as características do horror que constituem a proposta criativa da série, que no meio de todas essas abordagens diretas (o horror não é um gênero de sutilezas) sempre tem um pouco de espaço para o lirismo, ainda que ele venha das formas mais peculiares.
Estruturalmente falando, a fórmula do show se dá o direito de gastar dois ou três episódios assentando as ideias, para que uma convergência aconteça e nos arrebate. Foi exatamente o caso de Forbidden Fruit, um episódio todo construído em cima dos signos demoníacos que estão espalhados pela nossa cultura. O que é, de fato, um ponto importante da conceitualização dessa temporada. Em suas crônicas vampirescas – por exemplo – Anne Rice apresenta uma cena em que o vampiro Louis explica que muitos dos mitos sobre os vampiros foram criados pelo homem, mas que as criaturas mais afetadas pela cultura acabaram absorvendo esses comportamentos.
Talvez seja exatamente o que acontece nesse momento da temporada. Não há nenhum registro bíblico de que a “fruta proibida” seria uma maçã, mas com o passar dos séculos e das traduções das escrituras, a fruta terminou associada à noção de pecado, muito mais por conta de como a arte representou-a. O mesmo acontece com a maneira como o anticristo surge na literatura e no cinema como alguém que se disfarça de bondade ou como alguém que tem em sua voz, trejeitos e olhares, a estampa do “filho do capeta”. Se o anticristo seria ou não assim não saberemos, mas ele bem que pode ter gostado das descrições e abraçado um ou outro item da lista.
Michael Langdon segue a cartilha direitinho… A voz, as roupas, a maquiagem vermelha entre os olhos, os rituais, o sangue, as cobras… Tudo que ele faz ou diz tem aquela inflexão pretensiosa de quem jamais consegue ser trivial. Nesse incrível episódio ele acessa todos os estereótipos, brinca de ser a serpente que amaldiçoou as maçãs, usa-a para espalhar a morte e faz tudo sem se exaltar. Se esses códigos são buscados propositalmente ou se fazem parte realmente do que ele é não temos como saber, mas se é o horror que pauta a carpintaria do texto, é quase certo que ele é o que é: uma representação visual e comportamental direta do demônio. Como eu disse, o horror não é dado a sutilezas.
Surprise, bitch
Cheio de viradas e surpresas, esse episódio retorceu a primeira narrativa central da temporada. Venable e Mead queriam o santuário, mas a própria Mead não sabia que já estava programada para cumprir outras ordens. Essa relação dela com Langdon é mais um dos mistérios apresentados pelo roteiro. Quando ele fala em tê-la projetado usando alguém de sua infância como base, é impossível não pensar em Constance (que aliás também já baleou alguém). A personagem de Kathy Bates é extremamente completa e temo que não vá ter tempo de tela suficiente par a ser desenvolvida. Ainda assim, sua construção hesitante, assustada, é admirável para um personagem que deveria sentir tudo, menos emoções.
Talvez ela ainda tenha o que dizer, já que Mallory não era ninguém até uma semana atrás e de repente se tornou uma das maiores incógnitas do ano. Saiu do armário sobrenatural e trouxe Langdon junto com ela. Há várias teorias circulando na internet, da mais louca (ela é um anjo) até a mais plausível (ela é simplesmente uma bruxa que ainda não tinha se desenvolvido e por isso passou despercebida pelo suposto massacre promovido por Langdon). Foi uma virada ótima, defendida por uma atriz que não consegue sair da mesma cadência.
Como ela e Madison se conhecem? Mallory poderia ter um parentesco ou ter sido simplesmente uma das assistentes da diva. Madison foi uma atriz famosa. A outra teoria ousada que circula na net é a de que uma das bruxas mortas estaria co-habitando o corpo de Mallory. De fato, Coco (com seu penteado Abracadabra, uma possível pista de que seria uma bruxa) e Dinah também terem sido ressuscitadas embaralha um pouco as ferramentas de especulação. Mallory demonstrou poderes, as outras não. Cordelia, contudo, chamou-as todas de irmãs. A série não demorou a nos confundir, no melhor sentido da coisa.
Coven
Foi um episódio que não deu espaço para relaxar. Tivemos um pouco do mundo externo (em que finalistas do Top Chef viraram especialistas em carne humana) e embora a volta de Billy Eicher tenha sido ligeiramente forçada, ela teve sua função. O horror esteve presente no episódio na sua forma mais visualmente agressiva. Além do visual pútrido dos que estão do lado de fora do bunker, tivemos a facada em Coco, as cobras e o envenenamento coletivo, que já está registrado na lista de grandes momentos do show. Desagradável, repulsivo e maravilhoso. Um apogeu que preparava a saída de Venable e a entrada de Cordelia, em mais uma das travessuras de Paulson.
É notório que Coven é a temporada mais criticada e escorraçada da série. É, também, a temporada mais rica de mitologia, referência e analogia. Seu grande trunfo, além de todas essas coisas, é o alto nível de intimidade com a cultura pop. Essa relação próxima com esses códigos culturais provocou uma eternização do universo da temporada e exatamente por isso foi impossível não se arrepiar quando Cordelia, Madison e Myrtle adentraram o bunker com seus figurinos esplêndidos e suas tantas maravilhas. A chegada delas foi cercada de expectativas e tudo levantou perguntas. Qual a razão de Madison e Myrtle terem acompanhado Cordelia? Onde estão as outras? Myrtle queria morrer, porque ressuscitá-la? Zoe estava viva, porque ela não foi? É tudo instigante e provocativo, do jeito que a gente queria e esperava.
A partir de agora entramos numa outra unidade narrativa, sem uma grande parte dos personagens que já conhecemos e com outras motivações. As bruxas vêm para tentar impedir Langdon e talvez o que vejamos de Murder House seja um imenso flashback mostrando-as numa ida até a residência justamente para saber mais do pequeno anticristo. Seria o que faria mais sentido nesse contexto e esperamos que o momento não demore tanto para acontecer. Apocalypse avançou muito nessa terceira semana e abriu os portais para nosso deleite. O “surprise, bitch” ecoando na sala foi tanto para Mallory quanto para todos nós. Ver Coven de novo foi muito bom… E acho que tem muita gente que não esperava por isso.






















