Vencedora do Emmy Internacional, Malhação: Viva a Diferença foi um sucesso de audiência e de críticas também, Cao Hamburguer conseguiu criar cinco protagonistas que de fato falassem a língua dos jovens e inspirassem a geração que as assistiam. Sendo assim, nasce deste universo “As Five”, o spinoff que conta como a vida das personagens está seis anos depois do fim da novela.

Durante os dois anos de produção foram feitas muitas especulações sobre a série, as expectativas estavam altas, pois por mais que essa Malhação tenha tratado de vários temas muito importantes para os jovens, existe um limite do que se pode abordar no horário e agora na série focada num público mais adulto seria possível explorar ainda mais questões como sexualidade, drogas, luto e o cotidiano dessas jovens adultas.

É evidente desde seu primeiro episódio que a produção da série está impecável, as locações em São Paulo, assim como a caracterização das personagens acerta em cheio no universo contemporâneo, entretanto com a fome de querer criar uma série com uma dinâmica mais “rápida” acabaram atrapalhando o próprio andamento da narrativa durante sua primeira temporada, o que seriam ótimos episódios de quarenta e dois minutos são espremidos em episódios de meia hora, com cortes extremamente rápidos que prejudicam não só a fluidez do roteiro, mas a atuação dos atores em determinadas cenas.

Unidas pelo nascimento de Tônico no metrô, que agora tem sete anos na série, e separadas pelo fim da adolescência, as amigas se reencontram durante o velório da mãe da Tina (Ana Hikari), a atriz se encontra no melhor estado possível, o amadurecimento na atuação reflete na personagem um aprofundamento e melhoras perceptíveis em todos os episódios, de todos os arcos narrativos, esse foi um dos meus favoritos, lidar com o luto é algo muito complicado e a série consegue mostrar como isso acaba influenciando todas as áreas da sua vida, a personagem perde seu relacionamento, sua estabilidade profissional e, no final da temporada, acaba se perdendo, tudo poderia ser bem mais trabalhado se não fosse pelo problema da rapidez dos episódios como já citado. Além de ser uma representação muito próxima da realidade com as redes sociais e a imagem construída a partir delas e o quão fácil é perdê-la. Um ponto alto da personagem é a festa de despedida da Ellen na cena da garrafa, toda a direção que constrói o episódio prepara para este ápice narrativo.

Outra protagonista que me agradou muito foi a Benê (Daphne Bozaski), desde a novela, ela é a minha favorita, a atuação da atriz conseguiu evoluir ainda mais e isso é incrível de assistir, a descoberta da sua sexualidade é algo muito divertido e interessante de se acompanhar, o que me incomodou neste núcleo foi a falta de aprofundamento na questão com o ex-namorado dela Guto, que sai do armário de uma maneira completamente insensível e o que não entendo é que a personagem passou tanto tempo tendo esse apoio emocional dele e simplesmente se separa assim sem que a gente consiga ver essa dificuldade em mudar sua vida por completo, o mal aproveitamento do Guto (Bruno Gadiol) é inclusive uma questão para depois. A protagonista consegue então passar por vários estados nessa temporada e seu relacionamento com Nem (Thalles) é muito interessante, o final dela foi algo que me surpreendeu, mas ela fez isso durante toda a temporada, uma observação para o episódio três em que a atriz está sensacional.

Partindo para a companheira de casa da Benê, temos a favorita dos fãs, Lica (Manoela Aliperti), que consegue estar três vezes pior do que na novela, ao mesmo tempo em que é crucial apontar como a personagem sempre foi privilegiada e isso reflete em quem ela é hoje em dia, um desenvolvimento de personagem seria ótimo, terminamos a temporada com um paralelo com o primeiro episódio, a pia que era apenas um vazamento inunda o prédio todo, estava até gostando da forma como a personagem estava se relacionando com a Samantha (Giovanna Grigio) e como aquilo foi desenvolvido, mas algo no final me parece como voltar à estaca zero, apenas uma jovem inconsequente e impulsiva que não possui muita noção das consequência, entretanto adoro o trabalho da atriz e o episódio com a participação da Dira Paes foi sensacional, desde a época da Malhação, a Manoela consegue criar a Lica muito bem.

Continuando com arcos de qualidade duvidosa temos Ellen (Heslaine Vieira), a personagem que sempre foi a mais pé no chão das meninas, até pela realidade que pedia isso dela, voltando dos EUA noiva e terminando seu mestrado, a personagem consegue crescer bastante durante a temporada no sentido de focar em sua carreira, mas chega no final da temporada e parece que toda a história do triângulo amoroso foi pra encher narrativa para que ela pudesse chegar no ponto de seguir seu mestrado, além de apresentar uma moralidade muito duvidosa com suas amigas e com as próprias ações. A conversa com a sua orientadora foi uma narrativa mil vezes melhor que toda a história do casamento.

A quinta e última protagonista é Keyla Maria (Gabi), a mãe de Tônico luta para se redescobrir após abrir mão de sua identidade para cuidar de seu filho, como muitas mães acabam fazendo, principalmente se é uma mãe jovem, a atriz também consegue elevar seu trabalho agora na série e conseguimos ver uma faceta bem mais adulta dela, a falta de explicação sobre o que aconteceu com Tato, Deco e até mesmo a ausência de seu pai é algo que incomoda um pouco, mas a personagem consegue que seu arco seja desenvolvido de forma bem gratificante, até seu romance com Samuel é algo positivo para o roteiro, foi muito interessante ver o nascimento dessa relação, que evoluiu tão rápido que parece não ter tido o espaço suficiente. No quesito de sua carreira como atriz é algo que andou e não andou muito, entendo que forçar uma melhoria do nada não seja o ideal e que pavimentar esse caminho seja melhor, espero que a segunda temporada consiga desenvolver bem mais essa parte.

De modo geral, a série consegue cumprir tudo que prometeu, o que acaba sendo um dos meus problemas com ela, pois você consegue ver o potencial que possui e quando falha em coisas que poderiam ser facilmente resolvidas com a própria edição do episódio e evitar furos que acabam prejudicando a continuidade da série.

Outro ponto negativo é que a série, na tentativa de agir com rapidez, deixa os outros personagens à deriva das protagonistas, nenhum deles tem profundidade, nem mesmo Anderson (Juan Paiva), que era uma figura grande durante a temporada de Malhação, o personagem acaba ficando na sombra de Tina e das cenas com a família da Ellen, que foram muito boas por sinal. Ter cinco protagonistas é algo difícil de lidar ainda mais quando os episódios são picotados, mas esquecer dos outros personagens é um descuido ainda maior.

Entretanto a série acerta em um aspecto essencial para a geração Z em sua vida de jovem adulta, todos são egoístas, os problemas se resumem a como eles vão se sentir em relação a algo, as únicas protagonistas que fogem um pouco disso são a Benê e a Keyla, pois as coisas que Benê faz só afetam a ela e a Keyla possui os pés bem mais grudados ao chão por conta da sua vivência como mãe solteira, mas todas as outras três vivem numa bolha mental e só se importam com o que acontece com elas mesmas. Lica vive no seu privilégio onde as consequências não duram mais que um dia, Ellen julga todas as amigas e não liga pros sentimentos dos outros, pois acredita que de alguma forma é melhor que todos eles e Tina acredita que lidar com o luto dá passe livre para ela esquecer os sentimentos dos outros, principalmente do Anderson.

“As Five” é uma produção muito cuidadosa, que consegue ser um spinoff muito bem-feito e produzido, as tramas tratadas aqui são realmente um reflexo dessa juventude que vive em sua própria identidade e inserida no mundo das redes sociais, das rápidas interações e da vida boêmia. Essa é uma série protagonizada e feita por mulheres que possui uma óptica muito única dessas jovens que representam diferentes modelos de vivências. Com uma segunda temporada já encomendada, é esperar que os acertos seja amplificados e os erros corrigidos.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-as-five-e-a-geracao-presa-no-eu“As Five” é uma produção muito cuidadosa, que consegue ser um spinoff muito bem-feito e produzido, as tramas tratadas aqui são realmente um reflexo dessa juventude que vive em sua própria identidade e inserida no mundo das redes sociais, das rápidas interações e da vida boêmia.