Eu estava conversando com uma amiga nos corredores da escola esta semana. Nosso tópico era um amigo em comum, cuja atitude varia muito quando o contato é feito online ou pessoalmente. Ela apontou algo que ambos já percebemos: ele se mostra muito empolgado e alegre com os assuntos quando tratados olhando nos olhos, mas mal responde e está ausente quando o contatamos pela internet. Para consolá-la, eu tentei mostrar um lado positivo nisso tudo: não ter essa pessoa online reafirma a necessidade de encontrá-la e criar laços mais firmes no físico, não no mundo virtual.

Isso porque, segundo uma teoria que eu comecei a elaborar de uns tempos para cá, nós às vezes passamos tanto tempo conversando com uma pessoa pelas redes sociais que é como se criássemos um segundo perfil, uma segunda identidade para a pessoa. Depois de um tempo, as duas identidades se separam e nossas respostas ao relacionamento com elas vai se alterando dependendo de com quem estamos falando. Não é algo totalmente consciente, mas existe. Isto é, podemos ficar mais ou menos empolgados quando a conversa é pessoalmente ou quando é em texto que precisa ser lido, interpretado e floreado com imagens.

The Sims: uma das sementes para começar a compreender este episódio.

É por isso que há uma conclusão cruel, mas honesta a respeito disso, voltada a alguns amigos ou possíveis interesses amorosos: o contato feito conosco, quase como se fôssemos uma Siri humana, é preferível quando a uma janela de distância. Os contatos são usados como confessionários, como terapeutas — lugares para tirar do peito algumas aflições do dia a dia. E a pessoa por trás das palavras que consolam, que refletem junto e aconselham? Quem tem tempo, não é mesmo? Falamos muito pelo Facebook sobre uma preguiça generalizada para encontros e muitas vezes nem sequer temos tempo. A pessoa em questão também vem com o toque, vem com a exigência que um humano exerce sobre o outro mesmo que pareça não exigir nada. É muito para lidar.

Isso me lembra de um período no meu ensino fundamental, lá na saudosa sexta-série, quando o Orkut ainda vivia entre nós. Alguns amigos discutiam uma cultura do fake, que vinha de antes, foi celebrada então e existe até hoje. A brincadeira era a seguinte: criava-se um perfil nesta rede social com fotos, descrições de personalidades e comportamentos e utilizava-se disso para se relacionar com outros perfis fakes. Mas a graça da coisa não era enganar ninguém, caçar fotos íntimas por ali ou nada tão grave em nossas mentes de adolescentes. O legal era investir nessa vida online mesmo sabendo quem estava por trás do outro perfil; era criar uma segunda vida, com novas e interessantes experiências para si.

Quase como um jogo The Sims mas cuja necessidade central era a palavra, não essencialmente o visual da coisa. Dessa forma, meninos amigos meus tinham perfis de mulheres e se envolviam, sem segredo ou vergonha disso nas discussões em grupo na escola, com perfis de homens controlados por amigas meninas. Nesse modo quase ingênuo de passar o tempo, plantamos sementes que foram colhidas mais tarde conforme o destino de cada um. Uma dessas sementes está na relação com a tecnologia que já nos tocava naquele período e que serve para entender, questionar e justificar as decisões daquilo que nos rodeia — e aqui, para conversarmos sobre o primeiro episódio da nova temporada de Black Mirror.

Um terceiro caminho para Black Mirror

Em nosso atual mundo polarizado, estamos viciados em somente duas alternativas, afinal, crescemos com o sim e com o não — e dependendo do som do talvez na voz de nossa mãe, sabíamos o que estava por trás dele. Assim, algo é bom ou é ruim. Assim, ou as personagens são vilãs ou são mocinhas. Neste vício, tiramos toda a graça de viver e refletir séries como Game of Thrones (2011-2019, HBO), porque trocamos a reflexão sobre a crueldade individual de cada personagem por uma torcida cega em busca de, através de suas ações, vermos a justiça sendo feita. Mesmo em nosso relacionamento com séries costumamos dizer “esta temporada é boa, essa também, aquela é ruim, esta é boa”, quase como se estivéssemos confinados a essas duas opções. E nos debates? Por aí piora. É concordar ou discordar e enfrentar-se na arena de debates com essa tendência.

Como a série criada por Charlie Brooker lida com isso? Ao longo das quatro temporadas, lidou no plural. A experiência humana através da tecnologia, sempre o tema principal, vinha em muitos frascos, em muitas formas. Temos episódios de horror, temos comédias românticas, temos ação, temos thrillers… Não havia apenas duas alternativas enquanto receita para abordar a temática. Havia, no entanto, a sensação de armadilha nos episódios. A tecnologia estava ali sempre para deixar o humano acuado, pregar-lhe peças. Ficávamos com o singular da coisa — um ou outro episódio destoava. Mirror apresentava somente coletâneas de pessimismo. Ousou lá na terceira temporada dar-nos um final feliz. Isso rendeu críticas (inclusive minhas), mas elevou a aclamação da série ao patamar do Emmy.  Em Striking Vipers finalmente ganhamos nossa terceira opção. A nova temporada, vendida em entrevistas como mais próxima de nós, parece apontar isso.

Nesta premiere, a sensação de armadilha some e presenciamos outro olhar sobre a tecnologia. É como se antes a série só contasse com a mesma noção que compartilhei nos primeiros parágrafos na minha teoria fundada em experiências próprias. Ela era melancólica como minha conclusão neste assunto. Agora, no enredo deste novo episódio, rumamos para minha segunda experiência biográfica aqui descrita. Criar perfis falsos nos dava a liberdade que somente o respaldo da vida adulta poderia. Vipers tem essa visão e se diferencia nisso de muitos seguimentos da antologia: a tecnologia está aqui para libertar, para mostrar opções. Não há armadilhas. Há descobertas, há reviravoltas, mas não há armadilhas. A tecnologia é somente uma ferramenta que ajuda as personagens a descobrir coisas em si mesmas e em seus relacionamentos. Coisas que elas possivelmente descobririam de outro modo.

Pensando dessa forma, o enredo do episódio não nos traz problemáticas novas. Vipers não nos leva a um mundo transformado, no qual a tecnologia mudou tanto os ambientes que novas questões surgiram. Sobre amor, amizade, responsabilidade e casamento, o episódio é principalmente sobre fidelidade e o conceito cada vez mais amplo e discutível disso. Alterando aqui e ali, o mesmo conflito poderia se dar com as personagens trocando cartas entre si, não este encontro em ambientes virtuais. Minha observação, no entanto, não é para desqualificar o enredo que temos aqui. Reflito, pelo contrário, se as inovações eletrônicas de fato nos trarão problemas novos. Talvez fiquemos com as mesmas questões para sempre, variando o formato.

Aos devotos da Literatura, a percepção é mais forte: textos clássicos, escritos antes de começarmos a contagem que nos traz ao dois mil e dezenove, lidam com a tirania, a ganância e o fracasso que vemos em nossa sociedade. Gil Vicente, por exemplo, há quinhentos anos escrevia uma peça sobre uma moça que é enganada por um rapaz. No texto, o pretendente lhe lê diversos poemas para conquistá-la, mas, ao casarem, prende-a em casa e muda totalmente de personalidade, revelando um homem possessivo escondido em seus galanteios. Só posso dizer que alguns casamentos em minha família seguiram esse procedimento. Ou seja, Charlie Brooker, que escreveu este, assim como todos os outros episódios da série, é inteligente em não investir em possíveis conflitos impulsionados pelo futuro, como alguns escritores visionários fizeram.

Masculinidade e historicidade do corpo negro

Em Striking Vipers, temos um casal de vida estável cujo casamento passa pela turbulência de uma rotina muito pacífica — algo que somente nosso contemporâneo para explicar. Vemos uma química e uma cumplicidade em Danny (Anthony Mackie) e Theo (Nicole Beharie) desde os primeiros minutos: seu flerte passar por combinações que estimula ambos, assim como a rotina é uma troca de afetos em posições que se alteram. Às vezes ele vai até ela, às vezes ela vai até ele. Sem a tecnologia presente de modo opressor, demoramos para localizá-la ou localizar a história que está sendo contada. Há uma sensação de que temos cenas em excesso e que a trama demora para se desenvolver. Quando descobrimos as intenções do roteiro, no entanto, fica claro que mesmo os momentos que julgamos gratuitos construíam a narrativa.

Uma das grandes forças deste episódio é o trio que o protagoniza. Os atores fazem uma construção sólida das angústias em que se encontram suas personagens. Estas, por sua vez, trazem questões complexas e próximas de nossas realidade. Ninguém é vilão aqui e ninguém entra naquele estado de loucura vendido em filmes de suspense com triângulos românticos. Mesmo quando ameaça fazer isso em uma cena de jantar, o texto está apoiado na dúvida e no sofrimento nos três lados deste triângulo equilátero. Sim, equilátero, porque os rapazes têm muito tempo em tela e vão muitas vezes para o centro da narrativa, mas a esposa, porém, tem uma presença constante, aponta aquilo que vê de forma direta e cria soluções para que haja uma conclusão na narrativa. Não é apenas “a esposa” da história. Os três também parecem completos. Estão em busca de coisas, têm ambições pessoais, mas não são uma muleta narrativa para mover a história.

A passagem de tempo deixa os atores às vezes estranhos em suas versões mais velhas — o que é engraçado porque Anthony Mackie é mais velho que sua personagem. Isso ressoa fraco e ainda vemos suas boas performances sem precisar contar com a maquiagem da produção. Eu destacaria Nicole Beharie em questão de atuação ou mesmo como a personagem mais interessante da história. A atriz tem uma cena de discussão com o marido em um restaurante executada de forma espetacular. Ela passa pela raiva, angústia, solidão e mesmo inveja de forma crível, mostrando-nos como é difícil ser a pessoa que aborda um assunto que o casal está ignorando. Yahya Abdul-Mateen e seu Karl não ficam muito atrás com seu olhar de malícia e as transgressões pelas quais passa.

O episódio tem um elenco completamente não-branco. Se fora do jogo ele é protagonizado por um trio negro, dentro do jogo é formado um casal de descendência asiática (Pom Klementieff e Ludi Lin). Esses conflitos foram escritos por um roteirista branco europeu, então há nuanças que se perdem nesse quesito. Ainda assim, trazer o diálogo para esses três e não para um trio de pessoas brancas tem muito peso, e esse está de maneira indireta na narrativa. Exige-se coisas diferentes, atitudes diferentes, do homem branco e do homem negro, assim como a mulher negra sofre de maneira distinta neste continente americano. A negligência é ecoada em nossas vidas muito antes do discurso de Malcolm X que ressurgiu no último álbum de Beyoncé. A relação do casal negro em pauta é uma questão antiga, que hoje toma novos nomes como “gosto pessoal”.

Não é apenas coincidência que as certidões de nascimento e carteiras de identidade estejam ausentes de nomes dos pais — não ausentes no sentido de pais separados, mas realmente inexistentes. Esse tema já foi discutido na nossa tevê em séries como Cidade dos Homens (2002-2005, Globo) na qual as duas crianças protagonistas são criadas somente pelas mães. Quando Danny, aqui, depara-se com as descobertas que faz, ele não lida apenas com o mistério de si, mas com este histórico, esta responsabilidade. O peso de Theo, por sua vez, é o mesmo carregado por mulheres como Van de Atlanta (2016-presente, FX), interpretada por Zazie Beetz. Nada em sociedade é coincidência, é tudo herança histórica.

Foto dos bastidores de Cidade dos Homens, série brasileira que falou muito sobre paternidade.

Vale dizer ainda que o episódio fala sobre a visão da sociedade sobre masculinidade, algo que só aos poucos, nas metrópoles, vem sendo questionado. E em passos pequenos, dados por pessoas que têm a grande coragem de desafiar o senso comum e construir um novo vocabulário visual e comportamental. Assim, tem um peso diferente que os amigos aqui retratados sejam negros e lidem com isso a partir de sua vivência pessoal, do que historicamente e ideologicamente foi construído como repertório de seus gestos. O desfecho positivo reafirma que a “brincadeira” marcada com o amigo não torna Danny menos homem, menos pai ou sua esposa menos fiel.

É até onde vai a boa intenção de Charlie e a direção de Owen Harris, que não é a pessoa certa para aprofundar a questão. Os dois fazem um trabalho competente dentro do que é mastigado para o público geral. Real profundidade teríamos com Jordan Peele ou Donald Glover na cadeira principal.

Fidelidade: desconstruindo um conceito através da tecnologia

Para prosseguir com nossa conversa, preciso assumir pela primeira vez publicamente algo que venho fazendo nos últimos dias: tenho assistido What/If (Dilema no Brasil), aquela série brega da Netflix estrelada por Renée Zellweger. Para quem não está por dentro do argumento da produção, esta explora as consequências de uma proposta feita por uma mulher a um casal: ela dará oitenta milhões de dólares a uma jovem, dona do próprio negócio, mas à beira da falência, se ela lhe permitir uma noite com seu marido. O casal que se ama muito tem grandes debates sobre o tema, e este, inicialmente, movimenta a temporada. O engraçado, e por isso trago Dilema para a conversa, é que este grande conflito seria resolvido muito fácil por outros casais, sem sofrimento algum.

Então entramos no que considero o tema principal de Striking Vipers: fidelidade. Na nossa geração que (felizmente) questiona tudo, este tópico é muito discutido. Os votos de amor, cumplicidade e zelo são quebrados quando se envolve outra pessoa? Por quê? As respostas são variadas e rendem conversas de horas, não importando qual seja a direção que o entrevistado queira levar o assunto. Se pensarmos que alguém é infiel ao se envolver (fisicamente) com um terceiro, seria infidelidade da forma como o episódio mostra? Essas perguntas só são bem posicionadas aqui porque a direção é competente e cria ciclos visuais que se repetem para desenhar o casal como real.

A tecnologia aqui, então, não é somente a mencionada ferramenta para alcançar a liberdade almejada por suas personagens, mas algo que questiona suas noções de traição. Isso porque, tecnicamente, os dois homens não se tocam — ou se tocam porque sentem, pelo menos em suas mentes, a reação corporal ao toque? A questão me lembra de um episódio de Girls (2012-2017, HBO) no qual duas personagens se despem e se colocam de frente, uma a outra, fazendo tudo o que a libido impulsiona, menos se tocar, porque o toque, tecnicamente, era a assinatura do envolvimento e denunciava o erro da dupla a si mesma. É como os homens que transam com outros homens, mas não aceitam o beijo, porque este sublinha algo que, em sua ausência, não está comprovado.

Para debater o tema, Mirror traz muito silêncio e o foco no olhar de seus atores. Quando os segredos são revelados, não se conversa sobre isso, não há uma reflexão que compartilhe com o telespectador as dúvidas das personagens. Tudo aqui é dúbio e pode ser lido de muitas formas. Não sabemos, então, se os homens estão apaixonados ou se são bissexuais. Nós acreditamos entender uma coisa ou outra e esperamos que o rumo seja tal, culminando em separações ou beijos calorosos na chuva. Mas, no momento do fato ocorrer, o roteiro nos lembra que não afirmou coisa alguma e é tudo concepção nossa, tirada de nossas vidas e de outros filmes e séries.

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Moonlight, outro exemplo de obra que lida com a noção de masculinidade do corpo negro.

Como em Dilema, mas desta vez feito corretamente, temos os dez minutos finais com um triângulo amoroso de pessoas infelizes tendo que se resolver. A ótima resolução do conflito fecha a ideia de que às vezes soluções simples são as melhores para problemas simples. Quem ganha o palco não é a tecnologia, mas o problema: novamente, mesmo se a relação dos dois homens se desse numa troca de cartas, tudo poderia ocorrer da mesma forma, inclusive a decisão final da esposa. Assim, o interessante não é essa tecnologia nova, capaz de nos colocar dentro dos jogos — um The Sims melhorado. A tecnologia é o fundo, assim como o filme Moonlight (2016, Barry Jenkins) tem os problemas sociais de fundo para falar sobre solidão.

No passado, Black Mirror foi ousada ao trazer o grotesco para a televisão; agora, ela tem a grande coragem de trazer temas ainda muito sensíveis a nós. Ou a grande coragem de não se alienar em uma época em que a televisão é nosso veículo audiovisual com mais força de comunicação. É preciso falar sobre agora. É preciso urgentemente falar sobre agora. A ficção científica sempre abraçou essa coragem, então era importante que uma série que tem se proposto a restaurar o frescor do gênero não abandone isso.

> CHERNOBYL (Minissérie HBO) – Você vai sentir a radiação no corpo!

Se George Orwell falou sobre o futuro, mas reafirmando o poder da comunicação e H. G. Wells, também fugindo do presente, falou sobre as consequências de uma sociedade cada vez mais injusta entre suas classes, Charlie vai para o futuro também levando nossos problemas. Assim como o olhar que se volta às tragédias gregas percebe que um mundo com internet, carro e avião não resolveu questões mínimas, talvez a tecnologia nunca o faça. Talvez estejamos debatendo as mesmas coisas daqui a cem anos, por hologramas. É uma conclusão pessimista, mas, se tratando de Black Mirror, há sempre um gosto de pessimismo mesmo diante dos finais mais felizes.

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ps:

(1)

O episódio tem cenas gravadas na minha amada São Paulo, mas o local não fez diferença alguma para a história. Só me fez pensar em como outros locais do mundo estariam lidando as tecnologias apresentadas neste universo de Black Mirror. Como estaríamos?

(2)

As obras literárias mencionadas no texto são: A Farsa de Inês Pereira (Gil Vicente), 1984 (George Leia Este Livro Orwell) e A Máquina do Tempo (H. G. Wells).

(3)

Para você, enquanto jogo (excluindo o momento do beijo), houve/há traição? Por quê?

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
black-mirror-5x01-striking-vipers-season-premiereNo passado, Black Mirror foi ousada ao trazer o grotesco para a televisão; agora, ela tem a grande coragem de trazer temas ainda muito sensíveis a nós.