A Feira das Vaidades.
Em 2019, com o pais politicamente polarizado, o diretor do Big Brother Brasil (esse programeco sempre lançado ao calabouço pelos eruditas) teve uma ideia: ele colocaria para conviver na casa, um grupo de pessoas esclarecidas, com vivências entre as minorias mais desprivilegiadas e que eram, enfim, a maior parte da população do Brasil; junto com um grupo de pessoas “alienadas”, menos ligadas ao intelecto sociopolítico, brancas e confortáveis. Era o Big Brother Brasil 19. Mesmo com o terreno pronto para promover um embate vitorioso para o grupo das pessoas esclarecidas, quem venceu foi uma menina branca, movida por todo tipo de preconceito estrutural. O que diabos aconteceu?
No ano seguinte, 2020, o diretor do programa desistiu da narrativa politicamente polarizada e apostou no apelo pop de colocar influencers junto com os anônimos. Nesse processo, ficou claro que poderia ser interessante escolher mulheres fortes e inteligentes para conviverem com homens conservadores, machistas. O sucesso explodiu como nunca tinha acontecido antes. A maledicência masculina encontrou mulheres que aliavam sagacidade ao carisma, o que tornou a torcida por elas inevitável e reconfortante. Nesse “espetáculo” produzido pelo BBB não basta ter as coisas certas para dizer, se quem está dizendo tiver mais carisma, é essa pessoa que o público ouvirá.
A edição passada, contudo, estabeleceu uma verdade absoluta: as pessoas dentro do programa precisariam corresponder às expectativas politicamente corretas que acabaram sendo as norteadoras dos participantes que tinham acabado de ser tão amados. O BBB passou a ser assistido por uma parcela do público que nunca nem tinha visto um episódio inteiro. A vigésima edição havia promovido diversão, brigas, debates, guerras, que não partiam mais dos mesmos códigos. Nem mesmo um casal funcional foi criado pela narrativa. Agora ser um “brother” era uma questão de aproveitar a visibilidade para mostrar o quão progressista cada um era.

Os benefícios foram imensos. Ver Babu chegar onde chegou, ver Thelma, uma anônima, vencer duas mulheres com muito mais projeção que ela… Ver que a internet, o twitter, não são uma bolha passiva, mas uma espécie de energia propulsora indireta, que pode não decidir eliminações, mas influencia em quem serão e como serão movidas as peças desse jogo. Natural, então, que o diretor do programa tentasse repetir o feito. A ideia do BBB19 voltou para a pauta e para dividir espaço com homens-sarados-do-mesmo-rosto, inclinados politicamente para uma direita duvidosa, a produção escolheu um número histórico de participantes pretos, que trabalharam suas carreiras em cima da luta pela diversidade e contra o racismo, a homofobia, a transfobia e o machismo. Karol Conká e Projota, por exemplo, eram nomes que antes do BBB20 jamais seriam pensados para o programa. Gente com formação, arte, voz, luta. Tinha como dar errado? Pois é, deu.
Os Bufos
O anúncio dos participantes do BBB21 veio cercado de festejos. A presença de apoiadores do presidente entre os eleitos era garantia de massacre. Do outro lado, tínhamos nada mais nada menos que Karol Conká, Projota, Lucas Penteado, Nego Di, Lumena, João, Gilberto, gente que tinha dedicado a própria vida a superar obstáculos sociais graves e que construiu uma reputação como baluartes da defesa de minorias e oprimidos. Carreiras foram apoiadas na ideia da empatia, personalidades foram anunciadas como incapazes de não ver a verdade que está incutida nas ideias progressistas que ilustram a evolução da humanidade.
Parecia tudo tranquilo até que veio o primeiro nó dramático. Numa ação para divulgar maquiagem, Caio deu a ideia dos meninos se maquiarem como mulheres. No “camarim” do confinamento, os rapazes pintaram suas caras com a “máscara do feminino” e começaram sua pantomima, desfilando pela casa com gestos e expressões afetadas. Lumena, então, se destacou do côro e veio para o proscênio como uma espécie de “arauto da consciência”, acordando dentro de cada um dos participantes não a preocupação com a correta representação do travestismo, mas sim com os danos de imagem provocados pela ignorância ao tema.
Lumena estava correta ao abrir a discussão, considerando o alto nível de transfobia dentro do nosso país, que tem assassinos de mulheres e transsexuais que acham OK se apropriar da imagem feminina nos blocos de carnaval. A maioria de nós ainda tem muita dificuldade de entender porque vestir-se de mulher para provocar riso pode ser ofensivo. Esse é um aspecto do machismo estrutural que ainda tem dificuldades de reconhecimento, mas que existe, está aí. Lumena garantiu que não queria provocar uma hecatombe moral na casa, mas agora que conhecemos sua personalidade vaidosa e egocêntrica, podemos dizer que ela conseguiu o que queria: demarcar seu papel entre eles como “alguém que sabe das coisas” e para a audiência como “alguém que diz o que os outros precisam ouvir”.
Os outros participantes se desesperaram. Por 24 horas, a casa inteira se mobilizou para ganhar uma fala de destaque no enredo. Como Lumena mirou em Caio (que tinha tido a ideia), os outros fizeram o mesmo, decoraram alguns pedaços do monólogo dela e repetiram de bom grado. Pronto, ufa, que alívio, não corremos o risco do cancelamento. Porém, ainda não era o suficiente. Como perder a oportunidade de demonstrar todas as minhas qualidades intelectuais e sociológicas? Se não tem conflito a peça não anda, então, eu fico arredio e defensivo até aparecer uma.
Lucas não esperou até a primeira festa, porque antes disso Kerline entrou no caminho e ele viu a oportunidade. Ela falou uma coisa, ele entendeu errado, ela respondeu errado e pronto, ela teria brincado com os sentimentos dele porque era branca e ele preto. Não foi um plot que funcionou tão bem sozinho e Lucas estava ansioso. Mesmo ali, no campo do inconsciente, ele estava. Quando veio a festa, o álcool foi o combustível para quebrar a represa e ele, sem autocensura, desaguou argumentos e raciocínios que chocaram até aqueles que compartilhavam com ele da mesma opressão. As ideias de Lucas eram cuspidas nos que estavam dando espaço como se fossem tiros, indo desde a vontade de eliminar os brancos só porque eram brancos e passando por ataques diretos aos seus interlocutores. Na cabeça dele, ele era o líder dos oprimidos, incapaz de perceber que qualquer desequilíbrio azeda boas intenções.
O tiro saiu pela culatra e a casa podia ficar feliz, eles tinham um algo, alguém para exercitarem a própria superioridade. O elenco adotou o clássico e começou a ignorá-lo. Ele adotou o clássico e aceitou. É evidente que depois de ter estourado a paciência de todo mundo, ele merecia o gelo. Mas, quando você está num programa de TV nada pode ser em vão. O que começa como uma reação humana natural, logo passa a ser premeditado. Karol Conká – que segundo ela mesma é muito mais relevante – não poderia ficar de fora da trama e viu sua chance quando elegeu Lucas como seu antagonista. Ela é conhecida por “tombar”, então, ele seria tombado.
A Farsa
A maioria dos “canceladores do twitter” são conscientes desse papel. O que eles não percebem é que há uma diferença entre reagir e atacar. Fica fácil quando a gente coloca Karol e Projota em perspectiva. Ele reagiu, ela atacou. Ele conversou e falou de frustrações. Ela tornou o garoto um inimigo. Ela falou em enlouquecer, em humilhar, em agredir. E a maioria dos “canceladores” não quer a reabilitação, a correção do erro, eles querem sangue. Eles retiram do outro o direito de perceber o equívoco, de tentar se redimir. O que importa é jogar todos na fogueira. Aparentemente, as única desculpas sinceras do mundo são aquelas que nós mesmos pedimos. Além do mais, como eu vou continuar discursando sobre o quanto eu sou foda se já for aceitando o pesar do outro?
Assim, Karol, Lumena, Nego Di, que entraram como exemplos das lutas certas, caminham pela casa como instrutores da intolerância. E já têm seus minions. Fiuk, João, Vih, Thais, Pocah… Quase todos se intimidam, pisam em ovos, enxergam que estão sendo pressionados a aceitar o “evangelho de Lumena”, mas não se colocam, porque na frente está o pavor da vaia. E eles querem aplausos. Eles querem ser sensatos. Eles querem ser ovacionados com hashtags. Quando a produção provoca e pergunta quem são os “canceladores” da casa, eles desviam da pergunta cancelando os alvos mais fáceis: Lucas e Juliette. Quase todos, menos Sarah. Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem…
O que eles não esperavam é que o público estivesse reconhecendo tão claramente a engrenagem do engodo. A vontade de ser certo era tão grande que acordou os monstros. Bradando a própria moral duvidosa, os “lacradores” escreviam um espetáculo pseudo-bufo, fazendo crítica social por um viés que eles nem imaginam que estão destacando: eles são o exemplo do progressismo escangalhado, de ideias esquerdistas preciosas que são desperdiçadas pela incapacidade REAL de empatia e bom senso. Vencer o horror presidencial é a missão mais importante do nosso país, mas defender a esquerda não te torna imediatamente sacro, angelical. Assim, nem todo “cancelado” está em estado terminal; nem mesmo Karol Conká. Quando dizemos que vai perder a carreira, ser apedrejada e cuspida, estamos fazendo a mesma coisa que ela. E há uma preocupação real aqui. Essa é uma edição cheia de pretos e nós não queremos ver o horror do BBB19 se repetir. Não queremos ver mais gente achando que tem licença para ser racista.

Vocês já perceberam o que está acontecendo? Mesmo densa demais, a edição 21 começou repetindo o feito do ano anterior: estamos aqui discutindo as mazelas da vaidade entre os que se mostram contra ela. Estamos ponderando discursos politicamente corretos e vazios. Estamos estudando meio sem saber as declarações e expressões individuais de um elenco que não passa um dia sem tentar “dar uma lição”. Estamos questionando posicionamentos de pessoas que são nossos aliados na luta pela diversidade. Isso é extremamente saudável para o organismo social (mesmo aqui, na nossa suposta bolha), porque essa narrativa acordou a urgência do debate. A gente quer que as coisas certas, os ensinamentos corretos, os esclarecimentos necessários, sejam feitos pelo bem do conhecimento e não para aumentar o score de uma personalidade autocentrada, vaidosa e egoísta. – Lumena, quando alguém passa o conhecimento que você dá adiante, não está “roubando sua fala”, está perpetuando o seu saber.
Com uma semana no ar, o Big Brother Brasil 21 reforçou o próprio potencial. Pode ser duro para a turma do “vá ler um livro”, mas é a verdade. Todas essas impressões vão ser reviradas com o tempo e muitas delas podem provocar tanto avanços quanto retrocessos, depende da direção do vento. Só não dá mais para achar que o público em geral não é afetado analiticamente pelo que acontece lá dentro. Absorver não é só escrever no twitter, não é só fazer uma crítica. Absorver também pode ser puro instinto.
Notas do Bial:
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Só preciso comentar: que perda de tempo aquela separação de grupos no começo. Serviu para NADA.
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Fiuk não conseguiu ficar no pódio dos favoritos nem por uma semana inteira. É um dos ecos mais categóricos de tudo de ruim que seus colegas propagam.
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Juliette é daquelas participantes que a gente gosta, mas só porque não estamos lá convivendo com ela. O que fazem com ela lá dentro, contudo, também é inadmissível.
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Lucas volta à estaca zero já já, acompanhem.
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Caio e Rodolffo: temos que pegar, temos que pegar, essas criaturas. Quanto mais ficarem, mais difícil será eliminar.
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Gilberto: se fugirmos dos VT’s em que ele defende Karol, dá pra ser um favorito.
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Carla Diaz: por favor, seja constante.
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Sarah: por favor, também seja.
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Projota: o monólogo com Lucas foi histórico, mas a defesa cega para Karol e Lumena também atrapalha. Sem elas ali ele seria facilmente um favorito.
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Thiago Leifert e seus Ted Talks sobre jogar o BBB seguem invasivos.
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Karol Conká deu um giro de 360 depois do Jogo da Discórdia. Passou um carro de som lá também?
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Pocah… vai dormir em casa.






















