Ano passado Gleici (negra, politizada e de origem humilde) vence o BBB18. Um ano depois, Paula (branca, preconceituosa e privilegiada) vence o BBB19. O que aconteceu?

 

Uma das coisas mais interessantes a respeito de um Reality Show é que por mais “real” que seja ele precisa de uma narrativa. As pessoas se sentam em frente a TV para verem uma história sendo contada. É fato que as pessoas que estão ali são de verdade, mas sendo um jogo ou não, o espectador está esperando narrativa, feita daquele jeito inevitável: você torce por alguém, detesta alguém, vibra com reviravoltas. São elementos humanos. Eles jogam, mas acabam, com isso, contando uma história. Natural que o efeito colateral disso seja justamente o impacto emocional que essa narrativa provoca.

Um programa como o BBB não lida com habilidades. Ele é diferente de um MasterChef, de Project Runway ou mesmo de um Survivor, em que a necessidade de estratégias é tão opressiva que o coloca numa categoria particular. Em realities de habilidades o foco não é a convivência e a narrativa que se forma é prática, ligada ao quanto simpatizamos com alguém e torcemos para que essa pessoa execute bem suas tarefas. O Big Brother não, ele é mais convivência que habilidade prática. As habilidades que lhe competem consistem em jogar socialmente lá dentro e jogar calculadamente para o lado de fora. Ou acontece de modo deliberado ou simplesmente acontece com quem nem sabe o que está fazendo. Porém, em ambos os casos, o reflexo é mordaz com a audiência: somos seres viciados em ouvir e contar histórias.

Considerando o histórico, é possível dizer que o Big Brother só premia machismo? Afinal, tivemos Dhomini, Max, Diego, homens machistas claramente ou veladamente e que foram vencedores. Mas, também tivemos Fernanda, Maria, mulheres fortes que se impuseram, viveram tudo intensamente; e venceram. É possível dizer que o BBB é homofóbico somente? Afinal, tivemos Marcelo Dourado vencendo a décima edição. Mas, também tivemos Jean e Vanessa lidando abertamente com suas sexualidades e sendo vencedores. Podemos dizer que o BBB só premia heróis? Emily, uma vilã vencedora… Ana Paula Renault, uma vilã quase vencedora… E também não podemos esquecer de Gleici vencendo no ano passado. Então, o que faz o Big Brother oscilar tanto nas suas escolhas? Acho que é simples responder: Narrativas.

Big ERROr Brasil

O público do BBB se bifurca desde quando a internet começou a ter relevância na votação. O público do twitter tem uma visão menos atrelada ao que a edição mostra. O público que só vê em casa está mais vulnerável aos recortes que a produção faz. Não há pecado nisso, claro. Reality é recorte. Ninguém está ali está sendo 100% autêntico e tampouco a edição se preocupa em captar 100% de verdades. É um acordo entre camaradas. Os participantes fingem que são honestos e a gente finge que acredita. Nos deixamos levar, literalmente, pela narrativa que o programa propõe. Isso é natural e eficaz, mas tem seus efeitos colaterais. Às vezes o participante que emite a mensagem certa vai pra linha de frente; e às vezes não.

No BBB19 a seleção de elenco foi calculada para refletir o nosso cenário político. Metade da casa era constituída por uma maioria branca privilegiada. A outra metade consistia em diversidade racial, sexual e religiosa. O objetivo era embate e considerando a articulação natural que alguém que pertence a um desses grupos precisa lapidar desde cedo, era de se esperar que a Gaiola se saísse muito bem. Eles tinham a faca e o queijo na mão para dominarem a tal da narrativa. Paula, Hariany, Carol, Isabella, Maicon, Gustavo e todos os outros acabariam morrendo pela boca, como começou a acontecer muito brevemente.

Durante a primeira metade de programa, a Gaiola conseguiu superar a parcela alienada da casa. Mas, Rodrigo, Gabi, Rízia, Danrlei, Elana… eles tinham um pânico: a ideia de que jogar era ruim, era ser malvado, era ser errado. Para eles, o outro lado estava sendo eliminado não por dizerem o que não deviam, mas por tentarem jogar. Hana, que deslizava nos dois grupos, tentou muito articular e foi eliminada. Para a Gaiola, então, o problema era jogar, era tentar organizar. Se eles fizessem isso seriam os odiados e, por isso, passaram a lutar para se omitir.

Essa omissão não demorou a entediar o público. Paula e Hariany, sempre na berlinda, começaram a ler as peças. Carol se juntou a elas e fez o mesmo. A narrativa, então, foi mudando de protagonismo. Paula era quem mais dizia absurdos, reflexos absolutos do tipo de reacionarismo que elegeu o presidente. Mas, fazia isso com inteligência emocional, sem gritar, sem brigar, preferindo uma dissimulação esperta, apoiada em sua porção infantil. Quanto mais se criticava, quanto mais reagia a tudo com humor, quanto mais zombava de si mesma, mais se tornava relacionável, ou, como o próprio Tiago disse em seu discurso controverso: ela se tornava “real”.

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O público não foi homofóbico ou racista em algum momento, e nem foi consciente ou inteligente em outro. O que o público fez foi comprar narrativas. Para o bem e para o mal. A “culpa”, no caso dessa inesperada décima nona edição, foi de quem se omitiu de dominar essas histórias. Foi essa omissão que abriu as portas para a pessoa ERRADA tomar esse lugar. Paula vai enfrentar um mundo de rejeição aqui fora, vai perceber que foi muito mais longe do que devia. Até sua própria aliada não conseguiu digerir a ambiguidade daquelas declarações e foi expulsa num momento histórico, na véspera da final. Paula provocou ódio, ojeriza, incômodo, mas ela só fez isso porque deixaram que ela se tornasse a protagonista. Nós deixamos? Não. Eles deixaram. Como deixaram Emily, Dourado, Dhomini e tantos outros que não mereciam ter ganhado.

Um reality show não é lugar para omissão. Se for para se omitir, fique em casa. Não adianta agora ir para as redes sociais desejar a morte da menina, amaldiçoar até quem encostou nela. Ignorância não é uma questão só de educação formal. Paula é uma ignorante com relação a pessoas (a quaisquer pessoas, brancas ou negras), mas isso tem conserto. Ela pode ter a ficha caindo agora, quando não tem mais programa pra apaziguar. Ela pode mudar, melhorar, entender… Agora, apenas agora, quando voltar do paredão não servirá mais para  fazer qualquer julgamento sobre si mesma. Mas, essa vitória é dela porque o protagonismo foi dela. E foi dela porque quem estava lá dentro permitiu. Enfim, foi feio ter uma vencedora racista? Foi. Mas, somos nós mesmos que precisamos dominar nossas narrativas, em tudo, por toda a vida. Somos viciados em contar histórias… Deveríamos nos responsabilizar mais pelas que deixamos os outros contarem. Ninguém solta a mão de ninguém, mas a Gaiola se desnorteou, foi passiva e soltou mão por mão, uma a uma, daqueles que ela deveria proteger.

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