A edição 18 do BBB seria a melhor de toda sua história?
Durante muito tempo, o BBB foi um jogo de maniqueísmos, adornado com narrativas tendenciosas que priorizavam tudo que não tinha a ver com o jogo, ou mesmo que transformava o jogo em algo feio, desumano, promovendo uma ideia errônea de que movimentar as peças usando de moral flexível era proibido dentro daquela realidade completamente alternativa. Entrava ano e saía ano e a equipe do programa não entendia que estava catequisando o espectador a ser um juiz de moral e bons costumes.
Durante muito tempo – também – o BBB foi a chacota da turma. Mentes intelectuais e eruditas (acostumadas a defenestrar tudo que não está na caixinha cult que os faz especiais) se anteciparam e logo depois, mentes nada intelectuais absorveram a ideia de que gostar de reality show é coisa de burro e seguiram – burramente – nesse caminho de ignorância a respeito de uma grande transformação cultural do nosso tempo. Assim que o cidadão comum foi arrastado para as ambivalências da TV, uma nova linha filosófica nasceu para análise: jamais tivemos uma visão panorâmica tão intensa do organismo interpessoal. Era de se esperar que essa visão fosse incomodar os olhos mais desatentos.
O tempo foi passando, a internet chegando, as redes sociais dando voz a muitos desses “burros iludidos”, mas também dando voz ao discernimento puro e simples. O Big Brother é um jogo de estratégias humanas e quem se inscreve para vive-lo, sabe que por alguns meses vai lidar com a realidade de forma diferente, permissiva, protegida pelo viés da oportunidade única. O objetivo do show é agregar para excluir e esse jogo precisa ser jogado livremente ou o formato vira uma espécie de tédio assistido.
Não estamos, contudo, falando apenas das peças de um tabuleiro e nessa linha tênue que separa sujeito de personagem, somos levados a sentir aqueles cidadãos como itens de uma dramaturgia involuntária e inevitavelmente, passamos a gostar deles, detestar eles, por essa ou aquela razão, que muitas vezes ameaça nossa capacidade de priorizar o jogo, o tabuleiro e não as características pessoais pré-BBB que pouco interferem no que a estadia na casa propõe.
Protagonistas
O Big Brother Brasil 18 amadureceu a nova proposta do programa, de selecionar um cast menos preocupado com beleza e mais com personalidade. Amadureceu a edição e tornou-a capaz de dispensar excesso de foco em casais transitórios ou em esquemas de mocinhos e bandidos. Preferiu brincar com códigos midiáticos, inseriu a linguagem da internet e acertou em cheio nos quadros do grupo do WhatsApp e da observação das famílias. Passou a entender que foi a internet, em especial o Twitter, que ajudou a executar mudanças na interpretação dos fatos. Mudanças que tornaram possível quase fazer Ana Paula vencer na edição 16, que tornaram possível Emily ganhar a 17 (mesmo sendo tão odiosa) e que tornaram possível não aceitar a demagogia barata do Lucas, por exemplo.
Pela primeira vez, tivemos um grupo de “plantas” que em algum momento, aconteceu. Jéssica é completamente delusional, mas apareceu na edição, em alguns momentos, mexendo no tabuleiro. Kaysar parou de se preocupar com o cabelo a menos de um mês do fim, e contribuiu mais para os acontecimentos. Até Breno, que fez de tudo para fugir do jogo, sentiu o peso dessa responsabilidade e perdeu brilho justamente por estar demasiadamente atingido pelas questões estratégicas dele. Não foi uma temporada de fotossíntese e foi a primeira a ser totalmente assim.
Tivemos um grupo dos “bonzinhos” sim, não vamos negar. Diego e Patrícia comandaram o grupo do jogo combinado que acabou morrendo na praia não por combinar votos, mas por julgar com negatividade o oponente. Não é coincidência que as duas pessoas mais perseguidas da edição tenham sido a nortista negra e pobre; e o homossexual sem nem 1% de heteronormatividade. Em contra partida, mesmo existindo, o grupo dos bonzinhos não disfarçou seus defeitos, não se preocupou com errar, não se privou de atacar e fez bonito na revanche das jogadas. Eles até faziam um cansado discurso de lealdade, mas não se vitimizavam. Eles respondiam.
Gleici Campeã
A final dessa tão surpreende edição acabou sendo também a mais bem conduzida de todas. Os vídeos, a incrível trilha sonora, as boas escolhas de recorte e as inteligentes conexões com as letras das músicas foram um deleite. A equipe de edição do programa sempre foi boa, mas encontrou excelência. O VT com as paródias a programas de outras emissoras foi histórico e Tiago Leifert só confirmou o que já sabemos e precisamos admitir: ele foi a melhor coisa que aconteceu ao programa nos últimos anos. Vê-lo chorar no ao vivo da véspera da final fechou a interpretação definitiva: o programa precisava de quem se importasse com ele.
E em meio aos conflitos provocados entre não querermos ser enganados pela direção – precisando ser cínicos como meio de proteção – e presenciarmos um emocional diálogo com aquelas pessoas que passamos tanto tempo acompanhando, estão os finalistas. Kaysar e sua história familiar respeitável (e que se Deus permitir será resolvida). Ana Clara e o carisma que protagonizou toda essa edição. Gleici e todos os melhores motivos para que fosse vencedora: sua vida fora do BBB e a história de força e comprometimento dentro dele. Se ela tivesse sido uma participante que se valeu só de sua origem humilde para vencer, ela não mereceria esse prêmio. Gleici entrou para jogar e jogou, entrou para se posicionar e se posicionou. Foi a vitória de quem precisava. Mas, o melhor de tudo – e que é quase inédito no show – foi a vitória de quem merecia.
Acompanhar a final deixou a sensação de que estivemos diante da edição mais poderosa que o programa já teve. A internet voltada para isso, as TV’s ligadas nisso, uma sensação de último capítulo de novela (como disse Anita no twitter, parecia o final de Avenida Brasil). Comovente foi ver que muita gente que torcia o nariz pro programa se pegou envolvida com todos os debates e enfrentamentos propostos pelo formato, percebendo que a despeito de todo o oportunismo mercadológico e eventuais erros de percurso, o Big Brother pode ser “falso” nas intenções, mas é real no fator humano. Seu ganho está em revelar nuances, grandezas e limitações do indivíduo. Rasteiras são as recusas em experimentar a observação do mundo, seja ela qual for, venha de onde vier.
Ano que vem estamos juntos de novo. Ainda bem.
















