Aquele sobre protagonizar.

Aconteceu lá no primeiro e está acontecendo agora… O elenco do BBB 1 foi formado por uma imensidão de tipos extremados que garantiram uma primeira edição cheia de picos de tensão. Eram personalidades tão fortes que logo elas se uniram para tentar colocar para fora o que destoava delas. Kleber Bambam toda semana ia para o paredão por causa de “alguma coisa errada” que ele fazia. O moço tinha mesmo uma imensa dificuldade de entender limites, mas sua eleição como alvo principal da casa refletia uma ambivalência que agora se repete na figura de Emily numa proporção diferente, mas aproximada.

Já tivemos “perseguidos” antes. Mas, essa perseguição provinha de outra natureza. Alemão e Dhomini, por exemplo, eram muito conscientes de que estavam jogando com o público e não com os colegas de casa. Eles manipulavam a emoção do espectador ao agirem como vítimas que só queriam viver um grande amor. A perseguição que Emily sofre agora é muito mais parecida com a que Bambam e até a Ana (da vovó Naná), sofreram: uma perseguição que não é baseada em jogo, mas em conduta comportamental. Tudo que Emily faz irrita, tudo que Emily faz é egoísta, tudo que Emily faz é abominável. E tudo que ELES fazem, é colocá-la cada vez mais perto desse milhão e meio de reais.

Por um lado, ter uma mesma pessoa em quem atirar toda semana é um alívio. Se a casa se concentra em eliminar a Emily, não precisa se concentrar em jogar de verdade. Mesmo Marinalva e Daniel, que se declaram parte de uma pseudo-aliança com ela, não podem ser considerados assim efetivamente (ele, inclusive, votou nela quando tinha TODOS os motivos do mundo para votar na Ieda, apenas fazendo-o por acreditar que ela seria eliminada e assim, não se queimando com o lado considerado “certo” até aquele momento). E pelo outro lado, essa “patrulha da moral” em cima da moça é outra boa ferramenta para enaltecer as próprias qualidades. Toda vez que eu digo como a Emily é má, eu reafirmo o quanto eu sou bom.

De pouquinho em pouquinho, Emily vai conseguindo se equiparar a Bambam nessa jornada de “pessoa perseguida”. O público logo se compadece de quem vive sendo chutado e aprendemos com o BBB de Maria Melilo que o público não gosta de ver seus favoritos falando mal de quem quer que seja (Daniel só não chegou na final por isso). A gaúcha é chata, pirracenta, egoísta e tem um problema SÉRIO de excesso de autoconfiança. Ela foi geneticamente programada para não aceitar críticas e sempre achar que o problema é do outro. Mas, Emily é uma pessoa, tem sentimentos, vive um romance na casa, tem qualidades e fragilidades como todo mundo. Quando uma grande parte da casa se junta para tratá-la como um boneco de Judas no sábado de aleluia, dá vários passos na direção do abismo que todo brother precisa evitar: o abismo em que o público os joga quando decide defender uma “injustiça”.

Durante essa semana que passou, a produção do programa deu um show de controle interno. Depois de perderem Elis ainda na metade, perder Emily seria uma pedra no sapato. Tudo gira em torno dela, ela é uma protagonista que não se autonomeou assim, mas que foi transformada nisso pelos colegas que insistem em lhe dar importância. Como sempre digo – e vou morrer dizendo – acreditar na manipulação de resultados de votação é uma imensa bobagem. Se fosse assim, teríamos tido 17 Big Brothers impecáveis. O que desequilibra o andamento do jogo é justamente a mania do público de expulsar grandes jogadores cedo demais. Para evitar que isso aconteça, a produção dá uma mexida na edição, inventa um recurso ou uma prova que possam facilitar esse ou aquele paredão. Foi exatamente isso que fizeram ao decidirem que o mais votado pela casa sofreria uma falsa eliminação. Depois de ver Emily passar por aquela experiência, o público muito dificilmente a eliminaria, o que confundiria as impressões da casa e obrigaria as peças a se moverem. Quando o BBB funciona assim eu acho lindo demais.

A história toda do muro é só uma forma de movimentar o programa nessa hora sempre crítica em que ele chega na metade. Estamos vivendo um momento em que todo mundo tá fazendo um azedo jogo de moral e ver Emily ficar põe em dúvida a procedência desse “tribunal”. Rômulo, Marinalva, Pedro, Vivian e até Marcos, agem como se fossem os tais “professores de Deus” (como bem diz Ilmar) e usam Emily como bode-expiatório. Marcos, inclusive, já me cansou com seu tom constantemente paternal que soa bastante machista, devo dizer. A moda agora é “consertar Emily” e a condescendência e a hipocrisia seguem reinando absolutas. Se eles só tivessem dado corda para ela se enforcar, nada disso estaria acontecendo.

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Por causa disso tudo é que considero a saída de Pedro um passo importante. Gostava dele, acho sensacional que um “menino de vestido” tenha entrado na edição (o que, em parte, pode ter contribuído para a desconexão do público), mas frases como “eu escolho com quem vou pro paredão” podem seduzir a audiência a responder exatamente como disse Tiago: “Mas você não escolhe o resultado”. Além disso, nada paga a cara de choque dos aliados do moço (e dele próprio). Aquela cara de choque dizia assim: “Como aquela menina escrota pode ter ficado? Eu sou muito melhor que ela”. Game Over para os que não consideram terceiros e quartos elementos. O grande problema e a grande qualidade desse BBB é que ele é cheio disso aí mesmo: gente que não sabe sair da sagrada e intocável própria posição.

Emily: Para o bem ou para o mal, Emily faz o programa girar em torno dela. Isso é protagonizar. Se ela ganhar, terá sido justo. 

Ilmar: Aparecendo por aqui pela primeira vez por uma única razão: enxerga a demagogia que o quarto preto anda tentando fazer. 

Marcos: Chato demais com seu plano de “reeducação de Emily”. Não vai largar o osso. Ainda mais agora que ela voltou de uma saída que todos consideravam certa. E a frase “mulher não tem que beber” está arranhando meus tímpanos até hoje. Pior espécie de machista que existe: aquele que se finge de romântico. 

Rômulo: Deus não precisa de embaixador. 

Roberta: Fez um dos jogos mais suicidas da história do programa e nem muito por culpa dela, porque ninguém sabia mesmo que Emily ia se revelar esse monstro de egocentrismo. Mas, Roberta não soube sair dessa com elegância e tá tudo virando contra ela. 

NOTA: Peço licença para de novo elogiar o trabalho de Tiago Leifert. Foi ótimo no dia da expulsão falsa, tem melhorado cada vez mais os “diálogos de eliminação” e tem um humor dosado que deixa a apresentação super fluída.

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