Pela primeira vez na história do Big Brother Brasil, não são os “vilões” que perseguem os “mocinhos”… Quem persegue é o público.

A primeira edição do BBB onde grupos começaram a se enfrentar foi a terceira. Na primeira tudo era muito novo e o tipo de narrativa adotada pelo público foi de proteção ao “burro ingênuo”. Na segunda edição – única a acontecer no mesmo ano que uma edição anterior – a seleção de casting foi bagunçada, algo se distorceu no processo e tudo ficou apoiado num romance agressivo entre dois participantes que eram julgados o tempo todo. Manuela segurou o protagonismo sozinha, mas acabou perdendo para Rodrigo Cowboy porque o público, sobretudo nesse começo, não perdoava “messalinas”.

No BBB3 a história do “ingênuo burro” ensaiava um recomeço, mas Dhomini de burro não tinha nada e sabia manipular muito bem as impressões do espectador desavisado. Ele era um favorito isolado e só tinha Sabrina como aliada. A seleção dessa edição, contudo, também escalou um adversário muito esperto e o movimento de “perseguição” contra Dhomini fez com que Jean Massumi reunisse um séquito que queria se livrar desse favorito a todo custo. O público imediatamente entendia Dhomini como um herói e seus perseguidores como bandidos. Um a um, foram eliminados. Essa dinâmica de rivalidade de grupos (elevada à máxima potência quando a casa começou mesmo a ser dividida em grupos) permaneceu até hoje no centro do jogo.

A questão é que em todos casos anteriores o maniqueísmo era evidente. Um exemplo dos mais gritantes foi o do BBB12, quando até mesmo os nomes dos quartos remetiam a simbologias maniqueístas. O quarto praia, claro, solar, tomado por “pessoas de coração bom”. E o quarto selva, sombrio, soturno, tomado por “gente que joga a qualquer preço”. A distribuição de moradores acabou saindo inesperadamente condizente com essas energias. Embora fosse o quarto selva quem fizesse o jogo andar, os moradores da praia foram ficando e um deles, completamente apático, venceu. O público comprou o jogo externo do “bom-mocismo” e providenciou as eliminações.

A Regra do Jogo

Esse tabuleiro de xadrez já está estabelecido, sabemos. As peças claras e as peças escuras lutando para vencer, geralmente com líderes (reis ou rainhas) a serem protegidos ou eleitos. E esse jogo sempre foi sustentado de modo claro como água. Muito cedo, quem era “bom” e quem era “ruim” era identificado pelo espectador, que perdia o foco na apreciação da estratégia e entrava numa cruzada para premiar o jogo de retranca baseado em valores e morais.

Agora, entretanto, a décima sexta edição parece ter adotado uma nova política. E é uma política bastante surpreendente. A saída de Tamiel na última terça-feira configura um padrão: o grupo “zen”, o grupo do “jogue com o coração”, vai todas as semanas para o paredão com alguém do outro grupo, o grupo “louco”, o grupo do “jogo mesmo e não estou nem aí”. Se me perguntassem antes do programa começar, quem teria chances de ganhar, eu jamais apostaria em alguém da patota de Ana Paula. Agora, colocando em perspectiva as últimas eliminações, acho que pode ser muito possível que a vitória siga essa linha de raciocínio. E isso porque, pela primeira vez, não há “caça às bruxas”.

Há alguns fatores a serem considerados… O primeiro deles é a questão das torcidas organizadas. Elas são legítimas e permitidas, dominadas por quem acompanha pela internet e se afeta pouco pela edição. O outro fator é que o que chamo de Efeito Ana Paula, acabou por obrigar Renan e Cia a abdicarem da retaguarda, fazendo-os irem direto para a linha de ataque. É realmente impressionante… Coloquem em perspectiva quem eram Renan, Tamiel e Adelia antes de Ana Paula “sair da casinha”. Agora, analisem quem eles são hoje…

Renan virou um adversário direto, ataca claramente, provoca, é a Ana Paula do outro grupo e nem percebe isso. Tamiel essa semana se tornou o símbolo dessa transformação. Bastou uma sementinha de medo sendo plantada na cabeça e pronto, o “coração” foi pras cucuias… Tamiel passou a semana toda tentando convencer Cacau  a votar em quem ele precisava que ela votasse. E de modo claro e objetivo mesmo, sem rodeios, no melhor estilo “quando eu faço é defesa, quando eles fazem é manipulação”. Ele ficou parado na cozinha por vários minutos pensando em quem colocaria as pulseiras do Big Fone e isso porque pensava estrategicamente… Tudo que ele mais abominava ele se pegou fazendo e em nenhum momento parou para entender que essa é a beleza do BBB: todos os participantes sendo estratégicos, todos os participantes se movimentando.

É claro que por termos uma Ana Paula na casa, as peças desse tabuleiro se movimentam igualzinho na abertura da novela das 21 horas. Elas burlam as regras e se esmagam. Ana tem 20 quilos da arrogância que ela teima não ter e perde a chance de reconhecer que a “mudança de personalidade” em Tamiel é o ponto de vista dela sendo provado. Cabia muito mais um “agora eu gosto de você’ do que um “agora te odeio mais”. Ela não tem inteligência emocional nenhuma, mete os pés pelas mãos, mas trouxe à tona a verdade sobre seus inimigos. Um dos momentos mais emblemáticos dos últimos dias é a cena em que Renan, Tamiel e Adélia planejam, de modo sombrio, tirar Ana Paula do sério até que ela agrida um deles… “Tem que ser numa festa, espera ela ficar bem bêbada e provoca”. “Mocinhos” armando um bote, “vilões” sem saber o que os espera”… As peças claras e escuras do tabuleiro do BBB fundidas numa só, com as duas cores, santas e malditas, numa experiência de reality show que se prova real como até agora nenhuma outra edição tinha conseguido ser.

milhão

Ana Paula: Conseguiu um feito único ao tirar todos os “mocinhos” da zona de conforto. Já merece por isso.

Renan: Seguindo a teoria de que ele é a versão proporcionada dela no outro grupo, acho que seria justo. Não me agrada, mas entenderia.

Munik: O equilíbrio perfeito entre ser Renan e ser Ana Paula.

miséria

Cacau: O choro infantil, o papo cheio de chavões… Estou bastante cansado dela. Ela até joga quando tem que jogar (como na prova do líder), mas o teatro de menina de 5 anos é só irritante e desconexo.

Matheus: Gosto cada vez mais de como se queima com as fofocas. Ele e sua amada precisam ser eliminados antes que sejam eleitos como “os menos piores”.

Adelia: Quero só ver ela pegar a cara da Ana e esfregar no chão.

Outras Notas:

  • Ana Paula falando do programa da Xuxa na espiadinha ao vivo foi maravilhoso.
  • Se Adélia partir pra agressão, Ana já tem o texto pronto: “Já acabou Jéssica?”.
  • Rodrigo Santana está claramente sem inspiração nas edições de terça-feira, mas o bloco com o Video Show foi muito bem planejado.
  • Dois cenários futuros possíveis: Todo o grupo de Renan eliminado e Ana Paula focando em Matheus e Cacau, o que os tornaria mártires. Ou só restar o grupo de Ana Paula e Munik se beneficiar com seu equilíbrio.

Atualização:

Durante a madrugada (antes do lançamento dessa review), Ana Paula afirmou que desistiria do programa. Isso acontecendo ou não, só falaremos sobre isso no próximo texto, quando a saída ou a permanência (depois do drama todo) sem dúvida mudarão a dinâmica do jogo.

Artigo anteriorSupergirl 1×15: Solitude
Próximo artigoGhostbusters | Assista ao primeiro trailer