Síndrome da ceifação precoce de jogo hipotético.

Na história do Big Brother Brasil tivemos alguns exemplos de participantes que entraram na casa depois que o programa já havia iniciado seus processos. Já aconteceu por problemas de saúde, por desistências dentro da rotina da casa e também por desistências antes mesmo de sair do confinamento no hotel. Marco entrou esse ano num caso como esse… Um outro homem desistiu e ele foi chamado às pressas para ocupar a vaga. Mas, teve tempo de ter acesso a alguns detalhes antes de ser confinado. A questão é que eu acho que ninguém contava que o sujeito fosse mesmo dar importância pro programa depois de não entrar nele. Marco pode não ter prestado atenção em tudo, mas prestou atenção naquele detalhe que seria determinante nessa primeira semana de show.

O BBB voltou para sua décima quinta edição cercado de promessas de reajustes. Depois de uma décima quarta temporada confusa, Boninho deixou o comando e o editor da atração, Rodrigo Dourado (com um sobrenome que sempre levantou suspeitas), assumiu o posto, garantindo que o programa voltaria aos trilhos de outrora. Isso apareceu logo na premiere… Com um número reduzido de participantes, nada de grande eloquência, gritaria e provas apocalípticas. A decoração da casa estava sóbria e a própria seleção de elenco demonstrava certo desapego aos modelos na faixa dos trinta anos.

Ainda é cedo para dizer que essa seleção foi responsável pelo bom ritmo do jogo até aqui, mas, de fato, o BBB tentou equilibrar-se entre o investimento racional e romântico, como se quisesse agradar seu público virtual sedento por jogos e suas fãs de novela loucas para torcer por algum novo casal. Inesperadamente, a edição teve material para as duas coisas nessa primeira semana. Pudemos ver a formação de casais movimentando peças e a necessidade de sobrevivência começar a aniquilar alianças e estabelecer outras. Infelizmente, quase como sempre, o público se deixou levar por julgamentos morais e chutou a primeira bola fora dessa edição.

A Edição Açucarada (eventualmente amarga) 

As primeiras coisas que apareceram foram os interesses românticos. O casal formado por Rafael e Talita não tem a menor relevância ainda. Ele chegou a aparecer nos jornais por causa de uma suposta declaração homofóbica, assim como Luan por conta de um suposto assassinato numa operação militar no Alemão… Mas, ainda bem, todas essas informações pseudo-importantes foram condenadas ao limbo conforme os dias foram passando… Relevante mesmo era o triângulo amoroso entre Fernando, Aline e Amanda.

Mulheres carentes e sem autoestima são um tipo de Santo Graal na hora de escolher quem entra no show. Esse ano o papel de idiota mal amada caiu por cima de Amanda, que fez questão de declarar nunca ter ouvido um “eu te amo” enquanto aproveitava para projetar suas expectativas no primeiro que lhe deu algumas gramas de atenção. É complicado julgar, porque expor suas inseguranças dessa forma não vai tornar seu caminho mais fácil… E Amanda se jogou inteira no barril da vergonha alheia, sobretudo após ver que Fernando desejava mesmo era ter um relacionamento com a recém-chegada Aline.

Aline entrou junto com Julia pra ver quem conseguia a última vaga e é claro que tratou de formar um casal que lhe garantisse alguns votos. A edição ajudava… Colocava um Ed Sheeran pra tocar e o nome do casal já subia nos TT’s como se não houvesse amanhã. Já Amanda, naquela sua mistura de devastação interior com consciência vitimizada, não se poupou de mobilizar a pena alheia e tentar jogar com a compaixão de tantas mulheres rejeitadas desse Brasil de meu Deus. Era complicado pra ela, porque o título de chata de galochas fica muito próximo de ser transferido pra quem passa o tempo todo chorando, mas, quando Aline ganhou o direito de permanecer, uma possível narrativa novelesca típica do programa se tornou parte de seu horizonte. 

A Edição Racionalizada (eventualmente provocativa) 

E eis que na quinta-feira, a prova do líder deu o start para o que seria uma baita de uma formação de paredão. No momento em que Fran sugeriu que Mariza ganhasse o carro e a liderança, também determinou que seria, ela mesma, o foco de todas as atenções. De modo discreto, ela já vinha usando sua profissão de conciliadora para atingir as fragilidades emocionais daqueles que as tinham de modo identificável. Fernando percebeu isso, mas quando Fran surgiu como um arauto da generosidade para com Mariza, a luz vermelha dele acendeu e o movimento de embate se fez necessário.

Talvez, sem a declaração de Marco no quarto líder, Fran tivesse a chance de lutar por igual contra Fernando, já que ainda teria Mariza e Adrilles como aliados. O problema é que Marco, antes de ir pro confinamento no hotel, viu esse vídeo aqui: 


Por causa desse pequeno detalhe, uma participante que ainda nem começara direito o seu jogo, começou a ser desarmada por algo que disse antes mesmo de entrar. O mais curioso é que no vídeo ela fala de formar alianças para queimá-las depois, mas, dentro da casa, alardeou constantemente sua natureza racional, confirmando seu compromisso com o jogo, o que acabou chamando a atenção daqueles que agem apenas como soldados e buscam, desesperados, pela primeira oportunidade de aderir a campanhas de execução. 

Marco, ao ver o nome de Fran despontar, fez o que podia para impedir o progresso e aniquilou, de uma vez só, as chances de fortalecimento dessas mesmas alianças. 


Do outro lado, Fernando já tinha começado também seu jogo de hipocrisias, que só foi percebido, vejam só, por Douglas e Luan, que pareciam muito mais dispostos ao oba-oba. Usando o argumento de que Fran “jogava demais”, Fernando foi “compartilhando” essa impressão com os colegas e montando uma reação que era, em essência, parte do jogo que ele mesmo criticava. O problema é que os soldados de plantão precisam de alguém que surja com a “verdade” e quando ele chegou aparentemente “desmontando” o jogo dela, conseguiu evitar que a maioria percebesse que era ele quem estava promovendo manipulações. 

A segunda-feira, pós formação de paredão, foi um caos… Alguns se sentiam manipulados por Fran, outros se sentiam manipulados por Fernando e no meio estava Mariza, fazendo o inusitado e gritando pra quem quisesse ouvir que fora manipulada a votar em Douglas pelos próprios companheiros de grupo. Eles discutiam e discutiam e discutiam… Mas, pareciam ignorar o fato de que manipulação e intriga são a essência do show e que esse não deve ser um critério moral para determinar permanências. 


Infelizmente, os participantes ainda entram na casa para jogar com maniqueísmos. A eliminação de Fran foi uma espécie de “prevenção” de danos que ainda lhes deu a chance de demonstrar como eram “pessoas de caráter”. O que torço mesmo é que tudo isso caia por terra, já que a única coisa que Fran fez foi honrar sua chance de ser uma BBB, entrando para um universo que não só permite como exige a flexibilização de morais. Ela é que estava certa… Mas, a beleza, virilidade e agora “bom-mocismo” de Fernando é que podem acabar ditando o ritmo da temporada, para nosso completo e absoluto desagrado. 

Fernando: Era pra Fran estar aqui, mas preciso admitir que Fernando não ficou parado e eliminou uma forte concorrente. Nosso ranking retorna com ele em primeiro, mas com desejos sinceros de que seja só essa vez. 

Marco: Esperou a hora certinha de dar a cartada contra Fran. 

Mariza: Apenas porque se atrapalha inteira e consegue, com isso, desestruturar até mesmo as próprias forças. 

Rafael: Quem é Rafael? 

Talita: Quem é Talita? 

Luan: Plagiando aqueles que votaram em sua pessoa: não aguento aquelas brincadeiras. 

Algumas outras considerações: 

– Esse pessoal ainda não aprendeu que tomar banho pelado na primeira semana é motivo suficiente pra ir para paredões?

– Eu não consigo mais ouvir a palavra “Boráculo” sem ter crises de riso nervoso.

– Bial apareceu na segunda-feira fazendo algo que talvez essa edição esteja experimentando: um enfoque direto nos assuntos estratégicos com direito a uma costura textual bastante incisiva.

– “É compartilha que chama?” Fran, divando.

– Rodrigo Santanna é ótimo no teatro, mas crônicas sobre o programa a Iozi fazia BEM melhor.

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