Todo ator frustrado é um mentiroso compulsivo.
A frase de abertura dessa review tem dois alvos bem específicos, mas apesar de ter certeza de que vocês já sabem de quem se trata, vale primeiro explicar de onde vem essa afirmação. É muito simples: ainda que Stanislavsky fosse absolutamente contra a ligação entre mentira e atuação, pretendendo que seus atores sentissem os impulsos das emoções de seus personagens, em essência, os atores e atrizes são mentirosos potenciais. Mas calma, não tenho a menor intenção de ser pejorativo. A mentira a que me refiro é uma “mentira branca”, daquela que tem um objetivo nobre: sensibilizar através da identificação.
Mas, sejamos menos eruditos e vamos admitir que no final das contas, a habilidade da atuação exige a fé no que não é verdadeiro. Por esse aspecto fica mais fácil chegar onde quero chegar, quando percebo – ao avaliar os acontecimentos da sexta semana do BBB – que duas grandes “atrizes” convergiram, e que essa união determina tudo que ronda a narrativa do Big Brother. Aline e Angela são as donas do jogo, e são elas, com suas sorrateiras manipulações de impressões, que conseguem afetar toda a dinâmica da casa, obrigando a edição a empacar no mesmo ponto: as mesquinharias do que um pensa do outro dentro do confinamento.
Então, seja antes ou depois de Letícia, quem tem determinado pra onde o jogo vai, quem serão os alvos possíveis e como o público deve pensar, são elas. E inacreditavelmente, tudo tem funcionado a favor das duas (mais pra uma que pra outra), que sabem, como Letícia nunca soube, quais são os caminhos mais seguros para permanecer na casa, ainda que aos poucos, a mediocridade de alguns métodos esteja começando a aparecer pra atormentar as “tias do sofá”.

Atriz assumida, por profissão, Aline é o típico caso do “busco nos palcos a atenção que não conquisto na vida”. Para pessoas como ela, existe uma linha muito tênue, transparente, entre o que está latente por experiência e o que está latente por necessidade. Acredito piamente que muitas das histórias que ela conta sobre nunca ser desejada ou amada sejam verdadeiras, porque a base de seus defeitos é toda apoiada nessas percepções. Aline encontrou o ofício de atriz enquanto notava que sua visão do mundo lhe permitia a escolha dos ângulos mais favoráveis. Pessoas como ela vivem o tempo todo dentro da própria trama, repetindo frases de impacto, distribuindo olhares e expressões que se encaixam no quadro, chorando mentiras com sensações de verdade.
Eu conheço uma pessoa que tem uma profissão de forma alguma ligada à arte, que nunca subiu num palco, que nunca decorou um texto, mas que tem a oratória dos folhetins. Essa pessoa, tenho certeza, seria valiosa para o proscênio, mas como isso nunca aconteceu, ela projeta na vida cotidiana o drama que todos nós eventualmente usamos, mas que em artistas interrompidos, ganha dimensões muito maiores. Então, esse tipo de pessoa costuma sublinhar as próprias batalhas com títulos de “guerreira”, costuma chorar mágoas com queixo trêmulo e sente uma incrível e angustiante necessidade de aceitação (vulgo aplauso).
A trajetória de Aline até aqui gritou tudo isso… Ela já começou se elegendo a coitada, buscando nessa linha de frente a proteção contra as qualidades físicas das outras. Foi esmagada pela convivência com Letícia e se deixou levar pelo peso das próprias frustrações. Mas não perdeu a pose… Quando está no ao vivo, com Bial, dá textos claramente ensaiados e busca a simpatia pelo trajeto mais incompetente: o da superficialidade. Quando está no cotidiano, corre pelas beiradas, tenta ser querida valorizando os próprios defeitos e acha que manter o olhar aguçado sobre os outros vai fazer parecê-la mais inteligente. Sendo muito justo, articulada ela é, e muito.
Nessa última semana ela encontrou um certo tipo de apogeu. Ganhou uma prova de resistência e fez valer sua escolha para o casting. Gente comprometida merece pontos, o que me faz ter ainda mais reservas quanto a Diego, que sai das provas porque “não tem paciência”. Aline resistiu ao choro de Fran (bastante chantagista) e foi atrás de sua semana como protagonista. Conseguiu, mas como sempre foi eclipsada por quem sempre consegue, sem esforço, o primeiro lugar. Nesse caso, foi a atriz involuntária dessa edição: Angela.

Se Maquiavel visitasse nosso tempo, ia ficar um pouco chateado com o sentido que se empregou à termologia originada de seu nome. Mais do que significar um sujeito pérfido, ser maquiavélico é ir longe no estabelecimento dos próprios objetivos, sabendo que vale a destruição de uma ideia, mais do que de um embate físico. Por isso, chamo Angela de maquiavélica sem medo, porque seu trabalho na edição 14 do Big Brother Brasil é eleger e destruir inimigos de dentro pra fora, se valendo de outra máxima estratégica: uma coisa repetida muitas vezes pode acabar virando verdade… Ainda que leve o espectador à exaustão.
Letícia saiu na semana passada, mas Angela não largou o osso facilmente. Quando viu que poderia seguir na narrativa da “amiga traída”, agarrou isso com todas as forças e não largou mais. Começou, então, um trabalho de envenenamento gradativo da sua “inimiga íntima”, traçando perfis de Letícia que foram comprados por quase todos os colegas, levando a uma rejeição cotidiana que entra na galeria das maiores do show. Apenas Roni, Polly e Marcelo não caíram. Não coincidentemente, Angela pede a eliminação do casal e tenta ajustar uma nova narrativa com Marcelo.
Não é como se os participantes precisassem se esforçar muito pra serem queimados… Nessa sexta semana Fran foi do sexo quase explícito a declarações racistas, e Diego pediu um fuzil pra se vingar de Aline depois de ser mandado pro paredão. Mas, ainda assim, Angela faz um trabalho brilhante ao forçar-se na edição de imagens com opiniões selecionadíssimas para se contrapor ao que se vê nos colegas. Se ela resolve que todos odeiam Letícia, é isso que acontece, e se ela resolve que Roni é a nova pior-pessoa-do-mundo, ela consegue levá-lo pro paredão. Tudo que Angela tem a dizer, na surdina (acompanhada de Aline), vai direto num defeito alheio que inevitavelmente atinge “as tias do sofá”. E durante essa semana ela percebeu que continuar rejeitando Marcelo não é o caminho certo, ou ele vira a vítima e ganha atenção demais. Assim, aos poucos, ela foi se contradizendo, virando a Letícia que outrora criticava e fazendo aquilo que jurou que NUNCA ia fazer. Os papeis, então, se inverteram e Aline virou a nova Angela, preterida pela amiga por causa de um homem.
Com a eliminação de Roni as coisas podem realmente mudar, porque sozinha, Polly pode virar uma peça do jogo de alianças. Diego vai atrás de Aline, mas vai do jeito errado, se enforcando sozinho. Ele ficou com uma margem pequena, comparada à Roni, e continua com a ilusão de que o público só vê o “garoto” que solta pipa no jardim (devo admitir, ideia de gênio) e não o monstrengo que maltrata a mulher que transa com ele em rede nacional logo depois de mais uma pá de grosserias e egoísmos injustificáveis (e não, cozinhar pra todos não o redime disso, porque é só mais uma forma de controle). Além disso, temos o arranhão na relação de Aline com Angela e o novo papel de Marcelo nessa dinâmica. Agora, mais do que nunca, seria um momento ótimo pra Letícia voltar.
Dito isso, vou me arriscar um pouco no ranking da semana. Até que me provem o contrário novamente, reiniciando a possibilidade de que ninguém mesmo mereça ganhar essa naba. Mas teremos um vencedor, merecido ou não. Então…

1 – Aline: Numa edição como essa, eu começo a valorizar cada vez mais quem se esforça pra dar material para os editores. Entre a atriz shakespeariana e a maquiavélica, escolho a primeira.
2 – Vanessa: Assustados? Eu também. E digo que foi vê-la defendendo Cássio que me fez me permitir isso aqui.
3 – Cássio: Mais assustados ainda? Ele continua louco, falastrão, idiota e esquisito, mas mesmo que oscile pendendo para seu alter ego (o Cússio), ainda tem menos maldade e veneno que a maioria dos que estão ali. É um imbecil com declarações infelizes, mas estou menos inclinado a creditá-las ao mal.

1 – Angela: Apesar de parceira de Aline tem uma mania de disco-arranhado que me tira do sério. Não merece ganhar, mas assim como Letícia, pela trajetória, poderia ter um terceiro lugar.
2 – Fran: Segundo ela, quando fica sem usar desodorante, vem logo um “cheiro de neguinha”. Precisa dizer mais? Aí a torcida dela veio me dizer “Mas ela é amiga do Slim”. E daí? Isso só é mais condescendente e cínico.
3 – Diego: Cansou de votar na Aline e fez um alvoroço, com promessas de violência, porque foi mandado pro paredão. Sujeitinho insuportável…
Para terminar, uma imagem que resume tudo que Aline e Angela jamais conseguirão entender: às vezes o brilho, infelizmente, tem sentidos aleatórios.























