“Oz. That’s the name on the street for the Oswald Maximum Security Penitentiary”.

Spoilers Abaixo:

Com esta frase começou, há pouco mais de 15 anos, a primeira temporada de Oz. Primeiro drama de uma hora exibido pela HBO e criada por Tom Fontana, a série mostrava a vida na penitenciária Oswald. A penitenciária se divide em diferentes blocos. O foco cai sobre uma unidade experimental chamada Esmerald City, criada e dirigida por Tim Mcmanus (Terry Kinney) em sua constante tentativa de reabilitar os presos, não apenas encarcerá-los. Nela, os presos, cuidadosamente selecionados entre os diversos grupos étnicos/sociais presentes na prisão, são colocados em celas de vidros, controlados e vigiados 24h por dia, de acordo com uma rotina rígida. Em troca, eles possuem muito mais liberdade do que em outras partes da prisão.

Diariamente, fomos apresentados à constante luta pelo poder (e sobrevivência) entre os presos, divididos em arianos, negros, italianos, muçulmanos e latinos (entre outros). E essa apresentação se deu da forma mais real possível. Aproveitando a liberdade dada pela HBO, Oz mergulhou em seu universo e não poupou seus expectadores de nenhuma forma de violência, motivo pelo qual a série se tornou conhecida internacionalmente. Estupros, mortes, sangue, humilhações, corrupção, tráfico de drogas, homoerotismo: tudo isto foi mostrado sem cortes durante os seus 6 anos de exibição. Definitivamente é necessário ter estômago para assistir à série. Para os que deram uma chance a ela, não é preciso ver muitos episódios para notar que esta violência é necessária para o realismo da série e que a mesma foi muito mais que um show de violência gratuita.

Para conhecer o universo de Oz contamos com a ajuda de um narrador: Augustus Hill (Harold Perrineau Jr), um preso deficiente físico ex-viciado em cocaína, embora haja uma distinção entre o augustus-narrador e o augustus-personagem. A estrutura dos episódios é quase sempre a mesma: eles começam e terminam com um monólogo de Augustus, introduzindo / concluindo o tema principal do episódio. Outros monólogos são apresentados durante o episódio, visando introduzir as histórias dos diversos personagens. Estes monólogos levantam diferentes questionamentos: Augustus conversa diretamente conosco e toca em diversas “verdades incômodas”, principalmente relativas ao sistema penal, religião, política, à vida em uma prisão e à sociedade.

Desta maneira, fomos apresentados aos principais personagens da série: Tobias Beecher (Lee Tergesen), advogado alcóolatra formado em Harvard que, totalmente despreparado para a vida em prisão, tem que aprender a sobreviver à força; Ryan O’Reily (Dean Winters), irlandês extremamente inteligente e manipulador que não poupa esforços para sobreviver; Kareem Saïd (Eamonn Walker), pastor islâmico, conhecido internacionalmente, e militante dos direitos dos negros, disposto a provocar uma revolução contra o “sistema”; Miguel Alvarez (Kirk Acevedo), jovem latino que busca a redenção, mas possui problemas para controlar sua raiva; Vernon Schillinger (JK Simmons), líder dos arianos e principal inimigo de Beecher e Chris Keller (Christopher Meloni), sociopata sedutor sem escrúpulos. Além destes personagens principais, a cada episódio somos apresentados a diversos personagens menores (que, geralmente, acabam saindo do elenco através da morte) e, através de suas histórias, vemos as mais diferentes realidades possíveis dentro de uma prisão e como o ser humano reage ao ser privado de sua liberdade e ao ter que enfrentar uma profunda luta pela sobrevivência.

Além dos presos, também conhecemos os funcionários da prisão: Leo Glynn (Ernie Hudson), diretor da prisão; Tim Mcmanus, diretor de Esmerald City que, junto com a psicóloga e freira Peter Marie (Rita Moreno), o padre Ray Mukada (BD Wong) e a Dra. Gloria Nathan (Lauren Vélez), busca sempre reabilitar e lutar pelo direito dos presos.

Ao longo de suas 6 temporadas, Oz mergulha a fundo no psicológico destes personagens, mostrando suas convicções, motivações, sentimentos e questionamentos. Não é muito difícil notar o maior trunfo da série: seus personagens. Com uma sensibilidade profunda, excelente texto e direção, além de atuações muito boas, vemos que Oz é muito mais que um drama policial ou um banho de sangue. Oz é um drama, e de primeira qualidade. Diria até que se trata de um drama psicológico. A profundidade dos seus personagens é explorada ao máximo durante o curso da série (principalmente a partir da segunda temporada) e, durante o curso desta obra-prima, somos levados a pensar: o que faríamos se estivéssemos no lugar deles? Como iríamos reagir?  Até que ponto o ser humano avança na luta pela sua sobrevivência? Existe justiça neste mundo?

O elenco todo é bom, mas é impossível fazer um texto sobre Oz que tente descrever a grandiosidade da série sem soltar leves spoilers e citar dois atores em particular: Lee Tergesen e Chris Meloni. Beecher e Keller tiveram uma relação amorosa extremamente intensa e complicada, sendo um dos primeiros casais gays mostrados com realismo e profundidade na história da televisão. Podemos afirmar sem muita dúvida que Beecher foi o grande protagonista de Oz, e muito disso se deve à atuação impecável de Lee, que conseguiu captar todas as transformações do seu personagem no curso da história. Meloni, por sua vez, não fica atrás e conseguiu dar veridicidade ao seu Keller, um personagem extremamente complexo. Quando Keller é introduzido à história, notamos logo a química absurda entre os dois personagens desde o primeiro olhar trocado entre eles (“boy meets boy”). Devo dizer que, até hoje, poucas vezes vi um casal gay na televisão que transbordasse tanto amor quanto os dois. E isto vai muito além dos beijos trocados durante todo o seriado. Está nos olhares, nos pequenos gestos e trejeitos. Tanto que o personagem de Meloni estava programado para ficar apenas uma temporada no seriado, entretanto, como Tom Fontana falou em entrevista, ao ver os atores em cena ele notou que “havia muito mais o que explorar”.

O resultado disso foi que Lee e Meloni roubaram os holofotes e conseguiram os grandes papéis das suas carreiras. Beecher e Keller tornaram-se a grande atração do seriado, tanto que, geralmente, suas cenas ficavam para o final do episódio. Público que, aliás, foi fisgado pelo conto de fadas às avessas dos dois. Tanto que, em dado momento, Meloni abandonou a série para protagonizar Law & Order: SVU, mas a reação do público foi tão negativa que ele acabou voltando e ficou atuando nas duas séries até que Oz acabou. Os atores, heterossexuais e casados, foram extremamente corajosos quando aceitaram estes papéis, sempre encarando as milhares de perguntas em entrevistas com naturalidade e humor além de se envolverem na causa GLBT, consquistando ainda mais a admiração do público. Prova disso foi que chegou a surgir uma corrente shipper para os dois e, em 2010, sete anos após o fim de OZ,quando Tergesen foi chamado para fazer uma participação em Law & Order: SVU, o alvoroço foi imenso: todos queriam ver a primeira atuação dos dois juntos desde Oz e isto foi noticiado em diversos meios. Law & Order, claro, aproveitou-se disto: quem não se lembrou de keller e beecher juntos quando o pastor Billy abraça o detetive Elliot e começa a rezar?

Quando falamos de Oz, é inevitável que o destaque caia sobre Meloni e Tergesen, mas os outros atores não ficam atrás. Dean Winters, juntamente com seu irmão Scott William Winters, protagonizaram algumas das cenas mais emocionantes do seriado. JK Simmons defendeu seu Vern Schillinger com unhas e dentes e soube dar todas as nuances necessárias para tornar crível a humanidade do seu personagem. Falta espaço para falar de Rita Moreno, Terry Kinney, Eamonn Walker, BD Wong, mas todo o elenco estava afiadíssimo.

Entretanto, como toda produção, Oz não é perfeita. Às vezes, a violência soa desnecessária e é usada como recurso de espetáculo, com mortes um pouco absurdas. Além disso, há um excesso de personagens e histórias, o que é mais sentido no fim do seriado. Fica uma sensação de “mais do mesmo”, e dá vontade de pular as histórias de personagens secundários para acompanhar logo o desenvolvimento dos personagens principais. O episódio final da serie também ficou aquém da qualidade mostrada durante as seis temporadas.

Contudo, estes defeitos não são capazes de tirar o brilho da produção. Oz foi uma série corajosa, que quebrou diversos paradigmas e abriu espaço para que outras séries posteriores, como The Sopranos e Six Feet Under, pudessem ter seu lugar. Se você se considera um serie maníaco e ainda não viu OZ, corra atrás do tempo perdido agora. Poucas séries conseguiram unir tamanha sensibilidade, inteligência, brutalidade e personagens fantásticos no mesmo pacote. Os temas da série continuam atuais e, certamente, te farão refletir em algum momento.

Artigo anteriorAudiência USA – 23/05/13: Quinta
Próximo artigo[Flashback] Friends – 7×12: The One Where They’re Up All Night