Brancos ou Negros, todos estamos a beira do precipício”
O espírito natalino. Época do ano que desperta em alguns um enorme potencial de solidariedade e compaixão. Renasce em outros a humanidade e generosidade. Famílias se reencontram, dispostas a se perdoarem mutuamente. Tudo gira em torno do amor. Já em OZ, na noite de Natal, tudo gira em torno da cor de sua pele.
Chegamos ao final da terceira temporada, e como de costume, aproveito a “season finale” para fazer uma avaliação do ano. A temporada é muito boa, e o torneio de boxe certamente foi um diferencial muito positivo. O único ponto que merece ser questionado é exatamente o episódio final. Pela primeira vez em 3 anos, o último episódio não fechou um ciclo, pelo contrário, deixou aberto um caminho a ser explorado na próxima temporada. A tensão racial esteve presente em todos os núcleos e em praticamente todas as conversas. Os grupos que sempre se identificaram como Arianos, Negros, Cristãos, Muçulmanos, Motoqueiros, Latinos, Gays, Irlandeses, Russos… agora são separados apenas pela cor de sua pele. Não importa sua origem, crenças ou ideais. Ou você é branco, ou negro. Com o objetivo de criar esse ambiente, o episódio final carece de grandes acontecimentos, como os que vimos nos finales das temporadas anteriores. Ainda assim, a temporada manteve uma alta qualidade, e se faltaram momentos marcantes no episódio final, eles sobraram durante a temporada.
Para não sermos totalmente injustos com “Out O’ Time”, precisamos destacar os dois principais momentos do episódio. Mas é claro, com ressalvas. Ao saírem da solitária, os Latinos demonstram toda sua ira contra Miguel. Mesmo tendo provado sua lealdade por mais de uma vez, o fato de os ter abandonado num momento crítico foi o suficiente para El Cid deixar claro que Alvarez não é um deles. O espírito natalino de Hernandez o faz transmitir uma bela mensagem de amor a Miguel “Aproveite o dia, será o seu último”. Hora de voltar para a tão temida solitária se quiser continuar vivo. Não revelar quem estuprou a filha de Leo o levará de volta para lá, mas não imediatamente, afinal, a burocracia de uma transferência pode lhe custar um tempo que ele não tem. Preparado para o pior, Miguel se antecipa a Carlo Ricardo e o atinge em legítima defesa, causando sua morte. A ressalva fica por conta da rapidez e simplicidade de como tudo aconteceu. Pela primeira vez na série, alguém mata um membro de seu próprio grupo. Essa cena poderia ter sido melhor elaborada, com um apelo maior que apenas uma facada certeira. De volta a solitária, Miguel demonstra enorme sadismo ao revelar em gargalhadas para o diretor que o agressor de sua filha esteve preso em OZ o tempo todo, bem debaixo do seu nariz. Como Glynn deve lidar com todo o ódio que carrega por Alvarez sabendo que ele acabou de matar o agressor de sua filha? A verdade é que Miguel se tornou um especialista em sobreviver. E ele só consegue fazer isso sozinho, algo que sempre foi o maior de seus temores. Definitivamente é o meu personagem favorito.
O outro momento de destaque não poderia ser outro senão a final do torneio de boxe. E com o objetivo de reforçar o momento de enorme tensão racial presente em OZ, a luta corria o risco de ser cancelada. Para acontecer, os envolvidos tiveram que aceitar um combate sem plateia. Ressalva número 2, o grande charme do torneio sempre foi todo o ambiente criado pela torcida. Não tivemos sequer as ótimas “ring girls”. A final esvaziada certamente deixou a desejar. Não podemos começar a falar do combate sem mencionar a volta do finado Nikolai Stanislofsky. Alguém achou que ele tinha sobrevivido ao ataque de Kosygin? Pois bem, não apenas sobreviveu como revelou ao guarda Sean Murphy que O’Reily estava dopando os adversários de Cyril. O guarda Irlandês até aliviou a barra de Ryan, mas é claro, não permitiu qualquer manipulação na luta final. Sem muitas opções, o genial O’Reily tirou mais um coelho da cartola. Ryan faz Cyril receber uma visita de seu pai, e este deixa claro o quanto seu filho é desprezado. Isso e uma infância marcada por diversas agressões foram os ingredientes psicológicos utilizados por Ryan no momento da luta para conduzir seu irmão ao título. Uma espécie de doping alternativo, sem a utilização de substâncias químicas. Descarregar todo ódio que tem de seu pai no seu adversário garantiu vitória para Cyril, e morte cerebral para Hamid Khan. O torneio termina em tragédia, e a penitenciária deve ser processada pela viúva do Muçulmano. Aos poucos, Cyril consegue desenvolver melhor sua personalidade, raciocinar a diferença entre o certo e o errado, o que pode abalar a relação dos irmãos O’Reily.
Alguns acontecimentos foram apresentados de maneira discreta, mas serão relevantes para a continuação da trama. Keller finalmente reconquista a confiança de Beecher, e novamente na mesma cela, terminam o ano se reconciliando. O governador primeiramente suspende a execução de Shirley e depois a comuta para prisão perpétua. Confesso que fiquei assustado com o que ela disse “eu sou a Virgem Maria e Satã é o pai da criança”. Sua primeira filha era possuída pelo demônio e ela deseja morrer para que isso não volte a acontecer. Tudo não passa de loucura? Sinceramente não sei. Também tivemos a volta de Poet e Pierce, agora despigmentados.
E é claro, para finalizar, a tão latente “tensão racial”. Não podemos começar a analisá-la sem mencionar Adebisi, o grande protagonista dessa temporada. Adebisi foi o responsável por dividir a prisão em apenas dois grupos: brancos ou negros. A cor da pele está acima de qualquer outro critério, acima até do tráfico de drogas. Seu poder de persuasão foi tamanho a ponto de se sentar numa mesa com Muçulmanos, dizer em voz alta que não dava a mínima para o Alcorão, e ainda assim receber seu apoio. Seu poder de persuasão foi tamanho a ponto de transformar a morte do pai de Clayton, acontecida há anos, numa questão racial. Com excessão de Said, todos os Negros se unem em busca de justiça racial. Clayton Hughes, totalmente imerso num sentimento de vingança e discriminação racial, volta a questionar Glynn e é demitido. Mas antes de sair, deixa sua arma de presente para Adebisi. Arma essa que ainda não foi usada, mas que certamente terá grande importância futuramente. Por outro lado, sem muita força, Schillinger tenta unir os Brancos. A questionável liderança do Nazista tenta unir Gays, Judeus e antigos desafetos sem muito sucesso. A verdade é que quando o assunto é racismo, Brancos jamais saberão como se sente um Negro. Brancos jamais se unirão nesse propósito como os Negros fazem. A questão é tão séria que além de vermos guardas envolvidos, como Lopresti jogando um rato na cela de Said, os dois principais diretores da prisão se envolvem numa disputa dessa natureza. Glynn questiona mais uma vez os problemas causados por McManus e este o acusa de defender o interesse de seus irmãos, acima da lei.
Não resta dúvida que o cenário para a próxima temporada já está definido. E todos os caminhos apontam para uma possível supremacia Negra.
















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