Em 1960, Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, modificou o que o mundo conhecia como terror e levou milhares de pessoas a ficarem em filas enormes para assistir um filme chocante, inovador e que permaneceria nas memórias por gerações e gerações como um filme épico e uma aula cinematográfica. Hitchcock, ou Cocky (arrogante), como era chamado por amigos e colegas em sua adolescência, cresceu em um ambiente extremamente autoritário, seja na escola jesuíta ou em casa aos olhos de um pai severo e seguindo todas as regras católicas existentes.
Desde pequeno sua tendência pela transgressão e seu conflito familiar escapavam por meio de seus projetos criativos ao trabalhar com publicidade ou outros empregos na área do cinema. Acontecimentos banais e comuns hoje em dia, como mostrar nas telonas um vaso sanitário não são nem mesmo lembrados pelos telespectadores, porém em Psicose, Hitchcock mostrou pela primeira vez, como uma afronta a tal proibição ilógica, uma latrina. Essa personalidade do diretor sempre esteve presente nos filmes, assim como o questionamento do que é certo e errado, o que é bondade e maldade e se é realmente possível classificar uma pessoa em boa ou má.
Realizando uma cena clássica e icônica, a imagem de Marion Crane sendo esfaqueada no chuveiro é conhecida até por aqueles que nunca assistiram o filme. O simples soar da música “O assassinato” composto por Bernard Herrman já arrepia os cabelos do braço de qualquer um e os faz pensar na cena. Além disso, recriada por Gus Van Sant em 1998 e extremamente criticada, ficou claro que copiar a obra criada por Hitchcock, Janet Leigh e Anthony Perkins era um tiro no pé e sofreria as mesmas críticas que o remake ou simplesmente seria esquecida. Dessa forma, depois de 5 anos esperando, assisti Marion aflito a cada segundo, relembrando a obra original por meio de milhares de referências criadas pelo roteiro e ansiando por ver qual teria sido a direção tomada por Carlton Cuse. E afirmo, não poderia estar mais feliz e orgulhoso do que vislumbrei e admirei.

Como toda adaptação, Bates Motel não possuía e nem deveria ter a necessidade de repetir todos os feitos de Psicose. Optando por não assassinar todos os personagens que possuem alguma relação com Norman e adicionando Sam e Madeleine ao centro da história, algumas motivações para o que estava por vir foram alteradas e abriram portas para Carlton ter uma liberdade e modificar o acontecimento, sem desrespeitar a inspiração. Retratado desde o piloto e aprofundado nas vésperas e na morte de Norma, Norman sempre teve como propulsor de seus momentos de violência o medo e o desespero de não poder fazer nada para ajudar sua mãe. Camuflado ao longo de sua vida como um ciúme entre os dois, por um momento aparentava que seus surtos se davam devido uma necessidade doentia de mãe e filho de ficarem sozinhos por serem suficientes um ao outro e os únicos em quem podiam ter confiança.
Entretanto, nesse episódio é possível entender que as vítimas de Norman são em sua maioria mulheres, pois como nada pervertido que o jovem seja, elas eram a única ameaça em fazê-lo contar seus segredos e possivelmente o fazer relembrar do que já cometeu. Norman, ainda que tenha tido seu momento como rainha do bar no episódio passado, devido seu complexo de Édipo, sempre se interessou por mulheres fortes, independentes ou que possuíam algum problema com um homem em sua vida, sendo elas o perigo de acabar com a imagem criada por sua mente. Todo esse tempo, a Mother aparecia para proteger sua outra parte a sentir dor, não a ter relações sexuais, porém como essas duas situações se esbarravam constantemente, se tornou um pouco complicado entender o que gerava os blackouts.
Dito isso, assistir um Norman ciente de sua loucura, conversando com a outra parte de sua mente e entendendo o que o faz tão insano foi extremamente interessante e surpreendente. Ainda que ele possua um pouco de sanidade, a responsável por lhe confirmar que ele está vendo coisas que não existem, é a sua própria alucinação. Se o seu atestado de insanidade se dá pela confirmação da sua não-mãe morta, fica claro que a influência da não-Mother em Norman ainda é muito grande e que ela pode incentivá-lo a fazer coisas que ele quer, mas tenta reprimir.

A decisão de não matar Marion, mas Sam funcionou de variadas maneiras e foi genial em minha opinião. Em primeiro lugar, estamos em 2017 e mesmo que existam momentos em que Bates Motel aja como se estivesse em 1960, a série modernizou a história. Nem Marion, nem Madeleine, nem Sam são pintados como pessoas totalmente boas ou totalmente ruins. As traições dos dois lados do casal, o roubo do dinheiro e a constante tentativa de subestimar a inteligência das duas mulheres que haviam sido enganadas mostra que todos ali são humanos e erram, sendo difícil criar uma imagem de vítima e de vilão, ainda que isso aconteça. Não me entendam errado, meu repúdio por Sam é imenso, entretanto acho muito interessante quando a história nos entrega personagens que podemos relacionar com pessoas do nosso cotidiano e que não conseguimos nutrir um sentimento tão ruim por sabermos que apesar de todos os erros, eles também possuem lados bons. Afinal, quem não conhece uma pessoa que já traiu seu parceiro ou parceira que atire a primeira pedra. Sam era uma pessoa bem imbecil, mas querendo ou não ele foi a vítima e não merecia morrer.
Mas, seguindo em frente, realmente não esperava que o final fosse esse. Por mais que eu tenha pensado que Sam morreria, nunca imaginei em ver Marion seguindo sua vida, enquanto ele tomava seu lugar e era esfaqueado. A série, brilhantemente, não deixou de fazer a sequência icônica em que Marion troca de roupa enquanto Norman a assiste pelo buraco, entra no banheiro e a trilha sonora começa a te preparar para o momento. Enquanto o som ia aumentando, parecia que veríamos a qualquer momento uma silhueta chegando para assassiná-la e essa quebra de expectativa foi sensacional. Marion Crane foi o conceito MacGuffin e isso simplesmente fez o episódio valer por completo. MacGuffin era a marca registrada mais famosa de Hitchcock e funcionava com a definição no filme de um objeto chave, que aparenta ser o mais importante por ser o responsável da trama avançar, porém não possui uma grande importância no final. Em Psicose, o MacGuffin é o dinheiro roubado, responsável por fazer Marion ir para o Motel dos Batistas e que depois quase não é mais mencionado. Em Bates Motel, Marion é a responsável por fazer Sam ir para o Motel de novo e encontrar Norman, e agora, ela não terá mais importância no resto da história. Marion era o fim e se tornou o caminho, sem ser desrespeitada e deixada de lado. Marion pode não ter “achado o amor”, mas ela foi “a única garota” que passou ilesa pela “disturbia” de Noman e espero que ache “diamantes” onde quer que vá.
E, por fim, sempre me perguntei o que eles fariam após a cena do banheiro e fiquei imaginando Norman vestido de Norma completamente louco pra lá e pra cá matando Deus e o mundo, todavia, na cena do chuveiro, Norman não está vestido como sua mãe. Diferente do filme não apenas sua silhueta aparece, mas seu corpo completo e ainda fica claro que Norman percebe logo após o acontecimento que ele não só fez aquilo, como terá que lidar com a dor e a responsabilidade de ser um assassino. Hitchcock decidiu filmar Psicose em preto e branco para não parecer um filme muito sangrento e violento. Aqui, Carlton Cuse faz exatamente o oposto e mostra além de várias tomadas de sangue escorrendo, o rosto de Norman ensanguentado. Dessa forma, Bates Motel utilizou a cena do chuveiro como uma forma de Norman lidar com seu pai novamente, com os demônios do seu passado, sabendo o motivo da sua doença, mas sem ter capacidade de controlá-la. Com a morte de Sam, veremos Norman ter de fugir da xerife, de Madeleine, Dylan, Emma e ainda o esquecido no churrasco, Romero. Sua história não acaba aqui, mas entra em um caminho nunca seguido antes e que tem tudo para nos surpreender e ser brilhante.
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Utilizando de técnicas de Hitchcock como a arte da montagem, usando variadas posições de câmera, falsos culpados e falsos inocentes, uma trilha sonora que nos guia para o que sentir e esperar, e uma morte espetacular, fomos presenteados nesse episódio com a ousadia e inteligência da adaptação de Bates Motel.
Easter Eggs e outras coisas:

– Assistindo Sam morrer “bye bye”.

– Se esconde Emma, somos os próximos.
















