No ano passado, inauguramos o Mês do Horror falando sobre metáforas. Estas se tornam o veículo perfeito para que este gênero se diferencie dos demais e entregue algo que somente seus fãs poderão ter acesso. São experiências tanto visuais quanto intelectuais que apenas os que não temem os desafios do horror podem aproveitar. Isso porque mesmo sendo um gênero que demanda, que exige um público ativo e que aceite o risco, o horror também recompensa. Recebemos o tal prêmio ao final de uma boa maratona ou assim que os créditos de um bom filme nos alcançam. Parte de tal recompensa está em como as histórias aqui podem provocar e perturbar de uma maneira especial. Comédia, drama e outros gêneros e subgêneros também podem nos cutucar, mas através de outros mecanismos — e, algumas vezes, pegando emprestado da mecânica do horror, como ele também faz tantas vezes.

Aceitando o gênero como único em sua tratativa de temas, aceitamos que podemos falar sobre o mesmo assunto e ganharmos diferentes significados por se tratar de uma história de horror. Falar sobre isolamento, por exemplo, teria um contexto diferente se comparássemos uma comédia romântica e um filme de horror. O primeiro pode sublinhar o quão inconveniente é a situação, enquanto o segundo pode realçar o lado perigoso e sensível de tal cenário. Podemos fazer essas comparações de temas em temas, fazendo nosso exercício diário de roteiristas até chegarmos ao tema deste texto: maternidade.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que maternidade é um tema com grande escopo: podemos falar sobre alguém que deseja ser mãe até alguém que perdeu o filho — ideias frequentemente exploradas no drama. A comédia (não dramédia) pode vir tirar a seriedade do tema para apontar como é drástica a mudança na vida dos indivíduos envolvidos no nascimento de uma criança. A ficção-científica, entre outras possibilidades, pode questionar a forma como a concepção é realizada ou mesmo a quebra de relação entre a ideia de mãe, algo visto nas distopias. Mas e o horror? Como o gênero redesenha o significado e nossa interação com tal tema?

Assim, começamos o Mês do Horror 2020 — o que é até irônico darmos a outubro este título quando ele está presente num ano que por si só foi horroroso — com esse debate, estudando como ele se encaixa e se desdobra nas narrativas voltadas à televisão, nosso foco aqui. Utilizaremos A Maldição da Residência Hill como nosso guia em tal projeto, aproveitando a estreia da segunda temporada da antologia e o quão rica foi a primeira neste tópico.

POR QUE A MATERNIDADE COMO TEMA?

Bates Motel.

Em primeiro lugar, vale nos perguntarmos por que alguém usaria este tema em uma história de horror. O que ganhamos com esta estrutura? Se escolhemos como personagens mãe e filho e os colocamos em perigo ou representando perigo para si, deve haver um motivo para tal escolha. Contar histórias, seja no audiovisual ou em outras plataformas, requer que escolhas sejam feitas e suas justificativas se deem no desenrolar do enredo narrado. Assim, não pode ser arbitrário que estejamos lidando com uma personagem feminina grávida ou uma mãe e seus filhos pequenos no núcleo principal.

No caso de A Maldição da Residência Hill, essa escolha tem relação direta com os acontecimentos da série. É através dos medos da mãe, do olhar sobre a fragilidade de seus filhos e da tragédia envolvendo este ente familiar que a história se desenvolve e tem consequências terríveis para as pessoas envolvidas. Se não fosse a ausência materna, as crianças não se tornariam (dentro da lógica do roteiro) os adultos confusos que se tornam. Se não fosse o medo de o mundo tocar seus filhos mais novos, a mãe da família Crain não teria recorrido aos métodos drásticos que utilizou para tentar salvá-los de tal destino.

Enquanto o caso de Hill nós exploraremos com mais atenção nos próximos tópicos, vale tentar responder essa pergunta pensando no geral, no que move as histórias de horror. A partir dessa proposta, podemos chegar a diversas respostas. Na mais básica delas, precisamos reconhecer o horror como um instrumento de provocação. O gênero se aproveita dos mitos e dos receios ao redor de si para cutucar sua audiência e a cultura da sociedade para a qual a história será apresentada.

Ordeal By Innocence.

O horror ajudou a fundar as bases do cinema e da televisão e, em ambos os campos, é ignorado nas celebrações de tais mídias. Assumindo este posto de gênero marginalizado diante dos demais, temos menos preocupações sobre as regras que outras produções seguem tão à risca. Assim, o horror pode brincar, pode desobedecer a própria indústria e se mostrar o filho rebelde (se me permitem) que sequer está interessado em transcrever nossas regras sociais em seus enredos. A consequência é que tantas coisas que consideramos sagradas e intocáveis, o horror toca justamente para questionar tal sacralidade ou para tirar sarro de nossas etiquetas. Por esta razão, crianças se tornam seres demoníacos e animais de estimação viram criaturas pavorosas.

Outra razão para tocar na maternidade dentro do gênero é como forma de estabelecer a seriedade e as regras do mundo que visitaremos durante a série ou o filme. Mesmo que não saibamos o que ocorrerá em seguida, precisamos entender tal mal (ou representante deste) e do que ele é capaz. Em certas situações, o mal (criatura, ser fantástico, assassino, etc) pode ou não oferecer um passe livre às crianças ou às mulheres grávidas de seu cenário. Em outras situações, não. Isto serve para condensar a atmosfera de perigo, uma vez que percebemos que se as primeiras pessoas que pensamos em proteger nessas situações não estão seguras, ninguém está. Se a mãe representa perigo aos filhos ou estes a ela, temos regras sociais, morais, bíblicas e de estrutura quebradas  — e o horror é o gênero perfeito para quebrar tais regras. É o gênero perfeito para nos vender a desesperança de nossos tempos.

The Promised Neverland.

Por último, volto ao que eu falei lá em cima sobre o horror demandar de seus telespectadores. Quando vamos assistir a tais séries ou filmes e percebemos qual sua estrutura, temos um desafio pessoal sobre continuar ou não. É como se o próprio gênero colocasse nossa confiança à prova e exigisse que abríssemos mão de algo em troca deste outro algo que esperamos alcançar quando vamos ao horror. Na comédia, temos o gênero nos avisando de antemão o quão constrangedor e real pode ser a história, e por aí vai. Arte é sempre uma barganha. No horror, no entanto, o exigido parece sempre maior.

Posto que estes motivos explicariam por que um roteirista decidiu falar sobre maternidade em sua história de horror, vamos agora analisar três diferentes cenários e como eles são explorados no gênero.

MÃE E FILHO x HORROR

The Others.

Se aceitarmos o horror como metáfora, a provável pergunta que façamos depois é: metáfora de quê? Para responder esta pergunta, é preciso analisar cada projeto por si só. No caso de A Maldição da Residência Hill, por exemplo, arrisco-me a dizer que, fantasmas e sobrenatural à parte, a série fala sobre as marcas da infância na vida adulta. Para realizar tal tarefa, é escolhido um lugar como um grande símbolo de tal momento para as crianças envolvidas, uma vez que elas chegaram e saíram de tal casa ainda crianças — o lugar, no entanto, não deixou suas vidas, não foi totalmente esquecido, assim como diversos acontecimentos de nossa infância não são simplesmente apagados quando crescemos.

Acredito que a série da Netflix seja o exemplo perfeito para se pensar não só no horror como metáfora, mas como o tema da maternidade pode ser trabalhado dentro do gênero. Isso porque a antologia não se fecha em apenas um aspecto de tal temática, comprometendo-se inteiramente a um lado da história. A trama é complexa e, como um cubo mágico (ou sobrenatural), vai mudando seus lados na tentativa de arrumar uma solução ou explicação para os acontecimentos de seu enredo. Nesse sentido, temos tanto (i) uma mãe em luta contra o mundo para proteger suas crianças quanto (ii) uma mãe ocupando este lugar de perigo. Por fim, a série ainda brinca que (iii) o problema pode estar nas crianças — inclusive trazendo uma que pode ou não ser um fantasma.

Hereditary.

Sobre o primeiro ponto, temos discussões abertas em Residência Hill. Os pais protagonistas discutem com frequência sobre o trabalho que eles têm em mãos e como ele simplesmente não acaba — não é um sonho do qual se pode acordar. Nossa principal figura materna, inclusive, só consegue escapar da preocupação e do pesadelo de ser mãe em um destino trágico. Para o pai, temos uma (bela) cena em que a câmera gira em 360 graus e mostra como os pais enxergam seus filhos ainda como crianças. Residência Hill, que discute as problemáticas da maternidade através de diversos ângulos, mostra-nos o isolamento e a exaustão dela, verdadeiros aspectos do horror para tantas mães que não têm o apoio e a estrutura necessários.

Residência Hill também encontra suas personagens discutindo o que é ser mãe: esconder seus filhos do perigo do mundo ou ajudá-los a enfrentar tais perigos? Esta é uma discussão que talvez possamos nos relacionar, mesmo que não tenhamos sido criados em mansões mal-assombradas. O perigo das ruas, da cidade grande ou o externo é uma discussão singular à maternidade, uma vez que é responsabilidade (legal) dos pais o bem-estar de suas crianças — e, na maioria dos casos, pensando na desigualdade em como esta responsabilidade é dividida, acaba sendo tarefa da mãe.

No desenrolar do enredo, vemos que a mãe Crain não é capaz de proteger suas crianças do mundo. Em um delírio, a personagem tenta colocar em prática algo que acredita ser a resposta para tal questão, mas que, sabemos, não é. Em enredos parecidos, nos quais temos uma figura materna lutando com as armas que possui para assegurar que o “mal” não toque seus filhos, vemos que o lado materno vai sempre perdendo essa batalha. Mesmo quando vence, a vitória nunca é sinônimo de que suas crianças saíram intocadas.

Tabula Rasa.

Em Residência Hill, temos presente x passado contando a história de como esta mãe foi sendo afetada pela casa para a qual se mudou com a família. No presente, vemos que seus filhos gêmeos se tornaram justamente aquilo que temia: o menino é viciado em drogas e a menina ainda é perturbada pelos fantasmas do passado. Não só a história nos mostra isso, como a própria personagem consegue ver essa transformação de crianças inocentes para adultos traumatizados em uma intersecção entre os tempos da história.

Colocar justamente a mãe para testemunhar tal evolução é proporcionar às personagens de sua história a maior experiência com o horror possível. Isso porque a experiência materna, que envolve nutrir, gerar e zelar desde antes do nascimento, isola a mãe em um ponto de testemunha que nenhuma outra personagem ou pessoa pode compartilhar. Tê-la nessa posição pode ser o horror sendo cruel apenas por ser cruel, um de seus passatempos, ou os roteiristas falando abertamente sobre como o tempo destrói tudo, sobre como toda inocência já nasce para ser perdida e como o mundo é o grande horror inevitável.

(HORROR = MÃE) x FILHO

Sharp Objects.

Na categoria anterior, temos a mãe como uma testemunha da passagem de tempo ou do toque do exterior na vida de seus filhos. Por outro lado, diversos filmes e séries utilizam outra estrutura para criar conflito em suas tramas. O horror não se encontra no que está lá fora somente, mas em como o que está lá fora muda o comportamento de um dos lados dessa interação. Nessa modificação, é a mãe que passa a representar perigo aos próprios filhos, algo também presente em A Maldição da Residência Hill.

O gênero do horror é, muitas vezes, sobre desesperança e decadência. É sobre o que há de não natural ou como o que é natural definha diante de nossos olhos. Entre as formas de demonstrar isto, está a inversão de papéis que nos são dados pela sociedade — ou mesmo pela natureza. Em histórias de horror, podemos ter corpos não-humanos criados através da estética do grotesco para criar um senso de metamorfose ou mesmo de profano. Temos histórias sobre canibalismo como o limite final entre o que o homem civilizado não deve fazer, entre tantos exemplos.

No caso de maternidade, temos a corrupção de um dos instintos humanos, que é o de zelo pelos filhos. É uma forma de alertar os telespectadores sobre o ponto em que estamos, a gravidade dos fatos assistidos. Quando vemos uma mãe colocar veneno no chá e oferecer a seus filhos, percebemos que passamos do ponto de retorno, e a história só piorará a partir disso. Se a intriga da história é dividida em etapas, ter uma mãe que ameaça o filho é a última etapa, o clímax do perigo e do assombro que o telespectador testemunhará — está tudo perdido.

Vale destacar que em alguns casos, como Sharp Objects, pode ser um modo do gênero abordar o mal sem que se comprometa com nossa ingenuidade. Se tecnicamente os pais não matam os filhos como parte de nossa estrutura biológica/cultural, notícias de jornal nos comunicam o tempo todo que isso nem sempre é seguido. Assim, o horror pode usar a maternidade para falar que o mal muitas vezes vem de lugares que não desconfiamos e seja em relacionamentos abusivos ou nocivos ou outros formatos, não é porque alguém tem parentesco conosco que isso o livra de representar perigo à nossa vida.

(HORROR = FILHO) x MÃE

Rosemary’s Baby.

Há um aspecto de magia na infância que se perde na transição para a vida adulta. Esta mágica auxilia a criança a acreditar naquilo que o adulto depois pode descartar por motivos diversos. Faz sentido, então, que diversos roteiristas e diretores do audiovisual não queiram se focar no adulto e sua imersão pelo sobrenatural. Isso porque boa parte dos próprios diretores sequer acreditam que haja este sobrenatural na vida real. Para a criança, talvez exista, e é em sua fé que vale a pena estruturar um enredo — buscar a fé da personagem é sempre um interessante ponto de partida. Ainda sobre descrença, o criador de tal história pode ter acesso àquilo que talvez não tenha em sua vida: o sagrado. Não acreditando no divino em sua vida pessoal, é dessa forma que entra em contato com tal aspecto da crença humana.

Ou seja, é primeiro acreditando que crianças são sagradas — e, dessa forma, estabelecendo a presença do sagrado em algo — que é possível depois quebrar essa mesma suposição. Cria-se o intocável para depois tocá-lo. Assim, vemos as crianças não livres do mal ou do pecado, mas tocadas por ele. As crianças evocam o mal, falam através dele e representam um perigo para o adulto — novamente o horror manipulando nosso entendimento do natural, uma vez que as crianças são responsabilidade dos adultos e estes devem protegê-las do perigo.

Born to Kill.

Em A Maldição da Residência Hill, temos cenas em que falas assustadoras são postas na boca das crianças. Desse jeito, acrescentando à lista de motivos acima, também temos o horror criando uma equidade entre todos os participantes de seu jogo. O horror eleva a criança ao posto tecnicamente destinado ao adulto para que, como adulto, possa ameaçar seu bem-estar. É também uma metáfora para o quão assustadora é a jornada pela maternidade, quando mesmo a posição em que seu filho bebê dorme pode ser fatal. Metáfora também para como pode ser solitário e assustador o processo de criar uma criança. Metáfora para como muitas coisas que sofremos têm ligação hereditária com nossos pais.

A Maldição da Residência Hill.

A escolha da maternidade como tema deve ser analisada em cada série ou filme por si só. Ainda assim, quis pensar no tema de maneira geral para que possamos celebrar a riqueza do horror enquanto possibilidade. De A Maldição da Residência Hill a Bates Motel, há muitas questões que podemos levantar tentando entender qual a metáfora por trás de seus enredos. Por enquanto, espero que tenhamos ficado suficientemente instigados para levantar perguntas.

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Assim começa o Ano V do Mês do Horror aqui no Série Maníacos — já tivemos cinco edições, acreditam??? Começamos bem atrasados porque vosso colunista de horror esteve doente. Mas não se preocupem, temos ainda muito sobre o que falar até o fim de outubro.

Sejam bem-vindos ao mês do medo aqui no site. Como nos anos anteriores, falaremos sobre séries que circularam no último ano, mas que não tiveram textos por aqui como forma de não só homenagear este gênero tão importante, mas preencher os espaços e nos dar uma chance de conversar sobre séries ignoradas.

Beware the cannibals.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.