O problema de Bates Motel se encontra nos personagens e plots secundários. “The Vault” não foi nem de longe um episódio ruim, mas expôs claramente a discrepância de qualidade da trama principal e das histórias que correm pelos lados.

Desde a 1ª temporada tivemos diversos acontecimentos que não impactavam a vida de Norman ou sua psicopatia, servindo muitas vezes apenas para preencher a cota teen ou dar um pouco de espaço na tela para algum personagem (quem não lembra do ‘saudoso’ plot da maconha?). E por muito tempo isso foi aceitável e relevado por alguns telespectadores, mas essa hora já passou.

A 4ª temporada começou com o pé direito e mostrou todo o potencial que a série possui. Com 5 episódios vimos uma guinada na loucura de Norman e sua relação com a mãe se tornar cada vez mais confusa, aproximando-se nas alucinações e distanciando-se na vida real. Além disso, finalmente ele descobriu sua doença e as reações a isso começaram a aparecer, nos proporcionando cenas maravilhosas, como a do último episódio em que o doutor conversa com Norma(n). Essa excelência, esse show de atuação e direção que nos foi apresentado nos últimos cinco episódios, impossibilitaram que em “The Vault”, não torcêssemos o nariz para alguns momentos.

Dylan e Emma desde o final da 3ª temporada encontram-se cada vez mais afastados de tudo o que ocorre em White Pine Bay, vivendo em um mundo de paixão e felicidade. Pode ser fofo, bonito e com certeza faz os shippers irem à loucura, mas os dois personagens possuem histórias muito boas para serem desperdiçados de tal maneira. Dylan é fruto de um incesto e a pessoa para quem Norman passou a recorrer depois de perder a confiança em sua mãe. Emma é a melhor amiga da família como um todo, sabe dos podres e já ajudou os Bates em diversos momentos. Com essa ligação forte aos personagens principais e toda a bagagem das outras temporadas, os dois não poderiam ser utilizados para algo maior do que serem queridinhos do público? Não seria interessante colocar em uma série que fala sobre psicose, uma morte de um dos personagens mais amáveis? Já passou mais da metade da temporada e o único momento em que os dois fizeram mais do que flertarem um com o outro, foi nesse episódio o Dylan visitar Norman e achar as cartas da mãe da Emma. Espero que isso seja desenvolvido já na próxima semana ou que os dois mudem logo e sumam, porque por mais fofinho que seja, a premissa de Bates Motel nunca foi essa.

Ainda nesse sentido, Rebecca aparece e desaparece de tela sem ter qualquer relevância, limitando-se a implorar por uma chave por vários episódios que possivelmente trará de volta um plot que grande maioria não deseja assistir novamente. Bob Paris morreu e acredito que boa parte dos telespectadores comemorou acreditando que assim, a trama em torno dele acabaria. Entretanto, parece que com o acontecimento desse episódio, ainda veremos bastante o nome Rebecca e Bob, junto com uma investigação que poderá levar Romero para trás das grades. Porém, a questão maior é a importância dessa história. Colocar uma personagem que tem ciúmes de Norma e que poderá acabar destruindo a vida de Romero não acrescenta absolutamente nada. Aparenta até mesmo que os roteiristas possuem uma regra de que a Norma deve sofrer sempre e não pode ter um relacionamento amoroso tranquilo e em paz. Não há muito que falar, não há muito que esperar e se tudo der certo, não teremos nem mesmo muito tempo de tela sobre isso.

Em contrapartida, quando a série vira para Pineview e o passado de Norma, pode saber, vem tiro certo em cada cena. Chick disse uma frase nesse episódio que resume bastante o que nossos queridos Bates fazem há anos:

Aconteceu. Não falar sobre, não irá desfazer o que aconteceu

Do lado de Norman, o trauma vivido durante toda sua infância o causou possivelmente um Transtorno Dissociativo de Identidade, criando uma outra entidade, estado de personalidade, que assume o controle do comportamento sempre que em alguma situação fica iminente a necessidade de lembrar do ocorrido. Com essa perturbação, cria-se uma incapacidade de recordar informações pessoais importantes e assim, ocorre um fracasso na integração entre identidade, memória e consciência. Não falar realmente não resolverá nada, mas conversar sobre poderá quebrar Norman emocionalmente de uma forma tão grande que a sua própria cabeça criou essa proteção. Mais do que uma psicose e toda a violência, a base mais uma vez se encontra na figura materna protegendo o filho.

Porém, essa mesma mãe que representa uma imagem de segurança, quase nunca teve alguém para fazer o mesmo por ela. A única pessoa que foi seu porto seguro um dia, no outro se tornou o seu maior medo. Caleb foi, é e sempre será importante para Norma. Como dito no episódio, ela nutre um ódio por ele, mas ao mesmo tempo não suportaria vê-lo se machucar. Ele foi responsável pelos seus momentos de maior paz e de maior tormento. O pai de Norman a estuprou, mas ela não o amava. Caleb sim. Por mais errado que fosse, ela realmente o amava e falar sobre isso, em sua consciência é um ato que ninguém poderia aceitar.

Entretanto, é nesse momento que percebemos como mãe e filho se diferenciam cada vez mais. Norman se protegeu por meio da violência e o esquecimento, enquanto Norma, após constatar sua incapacidade de seguir por esse caminho, decidiu encarar e arriscar. Não existe certo e errado. Não é possível dizer que Norman é culpado por ser doente. A única afirmação possível de ser feita é a de que os dois estão lutando contra os fantasmas de seus passados. Chegou um momento em que não há mais como procrastinar e não falar sobre o que aconteceu. Os dois encontram-se de frente a uma bifurcação, assim como estavam há anos atrás, porém, dessa vez, não existem mãos dadas. Cada um com sua escolha. Cada um com seu caminho.

Outros comentários:

– Não sabia onde colocar isso na review, então deixei para falar aqui. Acredito que em nenhum episódio já transmitido pela série, houve uma cena tão triste quanto essa em que Norman pega na mão de Norma. A atuação de Vera Farmiga de desespero para salvar o filho junto com a tristeza de mais uma vez ser abusada por alguém que supostamente deveria amá-la foi simplesmente impecável. E o simples ato de Norman estar embaixo da cama e dar a mão para ela, como um gesto de “estou com você”, mostrou uma excelência admirável. Essa cena ficará para a história da série e tenho certeza que foi responsável por várias lágrimas. Deixo aqui minhas palmas e a gratidão de ter tido a oportunidade de ver essa fantástica cena.

– Norma falando onde Chick podia enfiar a janela. Rainha!!

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