Uma “lição” sobre não perseguir quem te despreza.
As novelas de Gilberto Braga sempre se apoiaram na mediocridade humana. E essa mediocridade estava sempre sendo exposta através do glamour e da luxúria. Dinheiro, poder e inveja movimentaram todas as tramas do autor, que também sempre foi agarrado a extremos. Maus demais e bons demais, sem meio-termo. A coisa também sempre me soou proposital, como se através desses arquétipos chapados ele tentasse colocar uma lupa sobre os costumes de caráter do brasileiro.
Assim, quando Babilônia começou eu já esperava pelo pobre ambicioso, a rica presidente de uma empresa, a pobre honesta e indignada, o alpinista social, a prostituta cínica… Enfim, esse é o cardápio de Gilberto e todo mundo sabe disso. No primeiro capítulo a trama se desenhou muito bem e a inveja e a ganância eram de novo a engrenagem principal.
Todos sabemos que vivemos uma televisão que agora aceita melhor a ousadia e agressividade. Avenida Brasil era uma novela cheia de populismos, mas também pegava pesado na linguagem de ódio e no caminho da vingança. O público aceitou muito bem e isso abriu uma porta para outros autores arriscarem. Provavelmente foi isso que Gilberto e sua equipe pensaram na hora de preparar o primeiro capítulo. Tal qual nas séries americanas, não houve preocupação com a ala conservadora da audiência e eles foram firmes nesse propósito. A questão é que às vezes funciona… E às vezes não.
Há quem aposte que o beijo lésbico entre duas idosas tenha deflagrado a decadência, mas embora o boicote tenha sido relevante por parte dos religiosos (sobretudo com Os Dez Mandamentos sendo oferecido pela Record), o que tornou Babilônia inviável acabou sendo um ruído de interpretação entre o que poderia ser permitido nos dias de hoje e o que o público permite que seja visto nos dias de hoje. Mas, daquele jeito prepotente de sempre, que nunca justifica claramente porque detalhes são festejados num exemplo e sacrificados no outro.
https://youtu.be/9mZfYGdL31I
Em maio, Gilberto Braga deu uma entrevista muito boa sobre tudo que estava acontecendo com a novela e admitiu o exagero do primeiro capítulo. Também admitiu que as mudanças não agradavam a todos no elenco, que era humilhante perder pra novela das sete e que a trama policial precisava acabar (o que ele acabou não cumprindo). Foi claríssimo ao dizer que perseguia o sucesso e que muitas mudanças foram feitas em nome disso. O problema é avaliar se realmente vale a pena perseguir aqueles que te desprezam em detrimento daqueles que te reverenciam. Eu queria ver a Babilônia que desceu pelo ralo nos 40 capítulos jogados fora pelo autor, mas ele queria escrever para todos que estavam assistindo Os Dez Mandamentos na Record.
Sem perceber ele deu-se uma “lição” sozinho. O esqueleto moral de Babilônia era a luta de Inês para ser Beatriz. No meio do caminho as duas esmagavam Regina. Inês queria uma aproximação maior com a mulher que invejava e admirava em doses venenosas. O que a motivava era isso e apenas isso: perseguir a aprovação da mulher que a desprezava. No meio do caminho os autores resolveram que Inês precisava de motivos mais reconhecíveis e inventaram uma vingança pelo pai destruído por Beatriz. Aí o resultado foi catastrófico, porque o público que não via novela não voltou para ela só por causa disso e o público que admirava aquela perseguição baseada em inveja e recalque, foi frustrado com obviedades. Personagens com perfis bem marcados foram sofrendo alterações grotescas e isso deformou toda a novela.
Alice passou de oportunista, preguiçosa e prostituta, a heroína romântica. Evandro passou de machista incorrigível a homem de caráter ilibado. E até a orientação sexual de Carlos Alberto foi de homo para hetero, mesmo depois de flertes com Ivan, apenas porque o grupo de discussão da novela tinha tesão no Pasquim. O quão terrível isso não é para um ator? Todos os personagens mais promissores tiveram que reconduzir suas criações para campos enfadonhos de onde a sinopse original tinha prometido tirá-los.
Quando olhamos para os núcleos que foram mantidos intactos desde o começo, fica visível como eles mantinham a qualidade da novela em vigência. O núcleo religioso/político de Aderbal Pimenta foi uma das melhores coisas que eu já vi na televisão. Curiosamente, foi esse núcleo e mais a trajetória homossexual de Ivan, os dois aspectos mais seguros da dramaturgia, com início, meio e fim coerentes e bem planejados. E também foram desses núcleos – ironicamente tomados dos detalhes considerados hediondos pelos conservadores – as melhores cenas da novela.
https://youtu.be/GYYVQoGWzug
O casal Laís e Rafael veio de uma crescente de tensões absolutamente irretocável. Mesmo o texto por vezes muito didático pode ser perdoado se colocamos em perspectiva que esse é um Romeu e Julieta extremamente contemporâneo. O filho do casal gay com a filha do político evangélico. É muito interessante. Sobretudo porque as crenças religiosas de Laís e sua mãe foram respeitadas, enquanto seu pai político e corrupto, usando a bíblia como escudo para suas loucuras, foi um retrato contundente do que vemos acontecer todos os dias no cenário político nacional. Aderbal era a tradução perfeita do oportunismo religioso e sua mãe vivida por Arlete Salles era um presente para qualquer espectador mais atento. Eram eles o canal direto dos autores para analisar e até responder a muitas das críticas conservadoras feitas a novela e que acabavam tocando inevitavelmente no aspecto social dela.
Embora o beijo tenha sido abolido das cenas, a tensão romântica entre Ivan e Sérgio foi defendida pelos autores com unhas e dentes e mereceu um destaque que achei até bastante inusitado. Pouca gente também percebeu, mas Rogéria surgiu na trama para ser a mãe trans do traficante mais temido do morro da Babilônia, o que acabou ficando esquecido pela pressa em encerrar as tramas principais. Havia na novela uma série de detalhes interessantes, cenas emblemáticas, ousadias perdidas em meio a tantas mudanças cheias de equívoco. No início do texto, inclusive, eu colei o vídeo do primeiro capítulo, aquele que dava o tom da trama. Mas, no penúltimo capítulo, ao decidirem que não iriam regenerar o mau caráter Guto, um pouco daquela novela inicialmente planejada, também apareceu inesperadamente. Vejam o vídeo aqui.
Infelizmente, em suas últimas semanas Babilônia afundou num mar de bobagens policiais e mistérios cansativos. O último capítulo foi terrível num nível assustador, com o assassino de Murilo sendo um personagem com o qual ninguém se importava, com Inês e Beatriz sendo presas juntas numa sequência de um minuto, com uma fuga patética e uma morte inspirada em Thelma & Louise que com aquela imagem congelada vai me assombrar por dias. Um encerramento espalhafatoso e inverossímil que escolheu o pior caminho de todos para honrar a ligação entre elas.
Agora a missão de João Emanuel Carneiro é duplamente complexa: corresponder às expectativas do público de Avenida Brasil e recuperar a audiência tombada de Babilônia. O mais curioso pra mim, entretanto, é que ao contrário de Salve Jorge, Amor à Vida e Em Família, que foram duramente criticadas por suas liberdades criativas risíveis, Babilônia foi criticada por ser direta e crua demais, pecando pelo excesso de maniqueísmo, que em perspectiva realmente não condiz mais com a natureza humana. Ao mesmo tempo, perseguir espectadores que não aceitam a teoria foi o mesmo que dar uma de Inês e viver em função do que te repele. Naquela última cena bizarra no carro, era Beatriz quem guiava, como é o público que guia. Inês poderia ter seguido o seu caminho como queria, tal qual a novela poderia ter feito, mas preferiu entrar e atrapalhar a direção. O abismo era, vejam só, o único resultado possível.
Quem diria que no extrato purulento dos enganos de Babilônia estaria uma debochada metáfora involuntária?
Notas do Ateuzinho Lésbico: E que abertura horrível, né não? Entendo que o conceito era misturar morro e asfalto, mas que resultado mais confuso.
Notas do Ateuzinho Lésbico 2: Qual versão da Regina vocês gostam mais? A Regina Cachorro-Louco ou a Regina Maracujina? O que eu sei é Camila Pitanga mandou uma foto pra mim no twitter e eu a amo pra sempre.
Notas do Ateuzinho Lésbico 3: Será que passarei uma novela sem um núcleo cômico-zorra-total baseado em triângulo ou quadrilátero amoroso?
Ranking do Ateuzinho Lésbico: Sentirei saudades de Teresa, Consuelo, Laís, Rafael, Regina Maracujina, Rogéria (não lembro o nome do personagem), Helô, Alice, Beatriz e Inês.
E amanhã tem A Regra do Jogo, cês vão querer review?














