Mais novela, menos estande.
Como eu gostaria de dizer que este texto é sobre uma incrível ida ao estande temático da nova novela das nove da Globo, A Regra do Jogo, instalado com alguns poucos requintes de luxo, riqueza de divulgação e pobreza criativa no piso Nova Lima do não menos burguês e afastado BH Shopping. Na verdade, essa decepcionante visita, em um primeiro momento, não daria margem a qualquer texto sobre o estande da novela, incessantemente divulgado na programação da Globo Minas e nos jornais locais. “Somente até 04/09, não perca!”. Não perca… seu tempo, eu diria. Mas eu já estava lá e o preço do estacionamento, por si só, já me obrigou a pensar em algo que fizesse valer aquela visita. Minha mente estava tão vazia quanto aquele estande. Resolvi tirar umas fotos e conversar rapidamente com o recepcionista que aguardava, sentado, com os dedos frenéticos no touchscreen do seu smartphone, algum visitante ocioso. No caso, eu.
Como quem já não tivesse assistido todos os teasers possíveis sobre a novela, comecei o papo perguntando sobre os principais personagens da novela, colocando-me do lugar de alguém que estivesse rotineiramente passeando pelo shopping e, por não ser tão ligado ao mundo televisivo, quisesse saber mais sobre a novela. É a função de um estande, afinal. Fui surpreendido. O rapaz se levantou e disse que buscaria um tablet com imagens interativas dos personagens. “Algo bacana pode surgir disso!”, pensei. Ledo engano. Fotos e mais fotos. Giovanna Antonelli, Alexandre Nero, Vanessa Giácomo, Cássia Kis Magro. Todas aquelas fotos de divulgação que ilustram qualquer nota que sai sobre a novela por aí.
Agradeci, tentei simular mais algum interesse no lugar com os olhos e sai. Não havia mais o que perguntar. Nem eu mesmo sabia explicar o que eu esperava deste estande. Encontrar o autor João Emanuel Carneiro por lá, solícito, respondendo as curiosidades do público? Mais fácil deparar com um pocket show surpresa da Maria Bethânia cantarolando “sonho meu, sonho meu (…)”. Eu queria conteúdo, algo atrativo, dinâmico, que me despertasse interesse independentemente de qualquer outro motivo prévio que já me atraia para essa novela. O que adianta aquele lustre imponente sobre uma mesa negra se, no final das contas, aquilo mais me confundiu do que trouxe explicações?
Comecei, assim que saí do estande, a questionar não só a sua necessidade, mas também a sua idealização. A Regra do Jogo não se trata, em seu ponto nevrálgico, de poder sinônimo de dinheiro. Não é isso, pelo menos, que a inserções sobre a novela na TV mostram. Com exceção de Atena (Giovanna Antonelli) e da trama que envolve a família da personagem de Renata Sorrah e José de Abreu, o núcleo principal do folhetim está muito distante da realidade daquele estande. Cauã Reymond, Vanessa, Cássia, Tony Ramos, Alexandre Nero, Susana Vieira, Juliano Cazarré, Marcos Caruso são todos moradores da fictícia comunidade/favela nomeada como Morro da Macaca, erguida com seus corredores estreitos e azulejos desencontrados no Projac. Outra menção à riqueza na novela? Ah, sim, quando seu título provisório ainda era “Favela Chic”. Mas, também nesse caso, continuaram se esquecendo da favela.
Nos pouco mais de 10 minutos que permaneci nos arredores do local, um único casal passou por dentro do estande e, assim que foram abordados pelo moço de gravata borboleta que eu aludi acima, apertavam o passo e logo saiam. Já outras famílias que passavam, corriam o olho pelo lugar e já falavam: “É a nova novela das oito!”, e seguiam. Soou impossível angariar um novo telespectador daquela maneira. Marketing por marketing, bastava um banner bacana da novela, expondo os protagonistas e a data e o horário de exibição.
Apesar de as tramas do JEC serem bem mais profundas do que o ambiente geralmente descontraídos em que são retratadas, sempre trazendo questionamentos-base sobre os rumos da novela – dessa vez, “Qual o limite entre o certo e o errado?” – isso não se confunde com dinheiro, muito menos o tem como fim. É muito mais o meio hediondo que os personagens se valem para fazerem reais suas armações. É difícil uma vilania mirabolante sem riqueza, bem como é difícil um protagonismo sofrido sem percalços que o dinheiro releva. As novelas do João Emanuel não se prendem às questões sociais ou destaca o status monetário do personagem sem antes desenvolver uma história que funciona livre de qualquer desses quesitos. A história é maior que a pobreza do personagem, que a sexualidade dele, ou que sua crença. E aí está o diferencial.
Enfim, de qualquer modo, essa experiência negativa não tem qualquer reflexo sobre a minha opinião sobre o impecável trabalho do João Emanuel e no quão ansioso eu estou por essa novela. Pra quem já fez Flora espalhar sangue de boi por toda a mansão do patriarca Gonçalo e, ato contínuo, matá-lo do coração fingindo ser um espírito; e fez Carminha massagear as costas de Nina, para logo depois afundá-la em sua banheira de sais argentinos, não espero nada menos do que outros e mais outros ganchos arrebatadores. Tudo bem distante do que foi esse estande.
P.S.1: Imagina os Trendig Topics.
P.S.2: E o congelamento no final do capítulo, vai ter?
















![A Regra do Jogo 1×167: Juízo Final [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2016/03/A-Regra-do-Jogo-218x150.jpg)
