Como o espectador da telenovela brasileira reage ao relacionamento homoafetivo que na televisão norte americana de hoje, é nada mais que um detalhe.
Ninguém pode culpar Giberto Braga por não ter tentado… Você deve se lembrar que há pouco tempo, no mesmo canal e no mesmo horário onde hoje podemos assistir às aventuras de Glória Pires e seus amiguinhos, estava no ar uma novela chamada Amor à Vida, que conseguiu quebrar um importante paradigma dramatúrgico que já era tão procurado por uma fatia mais intelectual da audiência televisiva (aquela que tem coragem de admitir que assiste TV aberta), que chegava a cansar: o beijo gay. Sim, em Amor a Vida, dois personagens homossexuais masculinos, com um deles afetado, sem mulheres envolvidas no romance e sem truques cênicos, conseguiram trocar um beijo sincero e objetivo, no último capítulo. O mais importante: sob uma inesperada e intensa torcida.
Aquele foi um momento histórico para qualquer espectador de telenovelas. Tinha acontecido… A emissora tinha liberado, o público tinha pedido, a cena não tinha sido cortada… Parecia que finalmente estávamos prontos para superar a importância exacerbada que se dava para algo que devia ser absolutamente natural para qualquer dramaturgia: um beijo, hetero ou não. E já estava na hora… Considerando que a maioria dos autores de telenovelas são abertamente gays e a frequência de núcleos homossexuais continuaria crescendo, seria de bom tom nos acostumarmos com essas liberdades românticas. Até porque, na televisão norte americana, por exemplo, esse negócio de casal gay já deixou de ser um bicho de sete cabeças faz tempo.
Nem sempre foi assim por lá também… Séries dos anos 90 como Melrose Place e Dawson’s Creek trabalharam duro para contar suas histórias de diversidade e enquanto Melrose falhou ao sofrer um corte de última hora, Dawson’s Creek conseguiu abrir portas. Will & Grace, um sitcom protagonizado por um personagem gay, conseguiu, no horário nobre, exibir um beijo que justamente criticava o corte de uma cena romântica numa telenovela. Transgressões de comportamento também já sofreram consequências por lá. The OC, por exemplo, tentou dar uma experiência bissexual para a mocinha Marissa e teve que aguentar a avalanche de ameaças de um público resistente ao aprofundamento de camadas.
Aqui no Brasil é normal ver personagens gays começarem com seus destinos traçados e diante de uma suposta rejeição, terminarem com sua trajetória deformada por algumas clássicas saídas dramatúrgicas híbridas, que geralmente são:
Saída “Amizade Colorida”: É a preferida. O personagem gay tem uma melhor amiga com quem acaba tendo um romance.
Exemplo do Fenômeno Aberrativo: “A Favorita”, quando o arranjo entre os personagens de Deborah Secco e Iran Malfitano se torna uma relação de verdade. Apêndice: Em alguns casos há um terceiro elemento masculino que os dois passam a dividir.
Exemplo do Fenômeno Aberrativo: “Avenida Brasil”, quando Rony e Suelen passaram de amigos a um casal que dividia o amor de Leandro. Os dois exemplos aqui são de novelas de João Emanuel Carneiro, o que demonstra uma séria deficiência dele nessa direção.
Saída “Não sou gay, só sou delicado”: Outra saída “eficaz”. O personagem tem todos os sinais e é construído nessa direção, mas em algum momento há uma ruptura e a assexualidade vira a justificativa. Exemplo do Fenômeno Aberrativo: João Emanuel Carneiro, infelizmente, aparece nessa aqui também. Caio Blat, em “A cor do pecado”, ganharia disparado nessa categoria.
Saída “Um gay vivo não faz verão”: Casais que começam com uma proposta direta de relação homoafetiva correm sério risco de vida. Se um deles não morre pra deixar o outro sem função na trama, morrem os dois e a coisa vai pra debaixo do tapete. Exemplo do Fenômeno Aberrativo: O casal lésbico vivido por Cristiane Torloni e Silvia Pfeiffer não agradou, por mais íntegras que fossem, e acabou explodindo junto com o shopping em que se apoiava a trama de Torre de Babel.
Saída “Quem eram eles mesmo?”: O autor pode querer um casal gay na sua trama, mas por medo de consequências trágicas, pode escolher deixar ele ali no cantinho, quase imperceptível, como garantia de sobrevivência. Exemplo de Fenômeno Aberrativo: Gilberto Braga já tentou chocar menos com o casal vivido por Carlos Casagrande e Sérgio Abreu em “Paraíso Tropical”. Mas, quem eram eles mesmo?
Há muitas outras categorias e recentemente Aguinaldo Silva nos presenteou com o personagem de Ailton Graça, que começou claramente como um homossexual e depois virou crossdresser (homem que se veste de mulher, mas não necessariamente é homossexual). Todas essas interferências partem pura e simplesmente de uma reação à rejeição popular efetiva ou ao medo dela, funcionando como uma medida cautelar. No caso de Babilônia a questão é ainda mais delicada porque as duas personagens também são idosas e a maioria do público conservador se perturba pela ideia de mulheres idosas homossexuais e sexualmente ativas. Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg são permitidas em seus papeis recorrentes de mães e avós, apenas.
A rejeição à Babilônia não deve ser culpa apenas delas. Com a mão pesada, Giberto Braga escancarou a onipotência da elite, a fragilização das relações de respeito entre pais e filhos e o jogo de intrigas e traições muito presentes em suas tramas de alpinismo social. E fez tudo isso sendo muito objetivo, muito cruel e usando a estereotipação como arma. Vilões apareceram só vilanizando e mocinhos só lutando. Camila Pitanga é só a guerreira e Adriana Esteves só a interesseira. O prefeito evangélico é real como a vida, mas funcionou quase como um murro no espelho social. Com 15 minutos de início, Babilônia tinha tanta ansiedade em estabelecer o caráter e a falta dele, que tudo pareceu um pouco caricaturado. A impressão amenizou-se em alguns dias, mas a novela já tinha perdido a chance de transmitir mais organicidade. Os beijos sumiram e o novo núcleo centrado na homossexualidade de Marcos Pasquim foi pro ralo (pobrezinho, logo na sua chance de ser mais que um homem sem camisa). Ainda assim, a novela se debate pra continuar com o mínimo de planejamento de sinopse, embora tenha se tornado um produto confuso e deformado.
Contudo, nada disso é relevante se aquilo que se chama de “boicote” se concentra no bode expiatório preferido: o casal gay. No horário nobre americano a ABC Family já se entendeu muito bem com a ousadia de The Fosters. Há beijos em How to get away with murder e no sucesso estrondoso de Empire. Séries como Glee e Greys Anatomy tem personagens gays estabelecidos e sexualmente explorados. E o mais importante: a forma como esses programas são julgados não é essencialmente focada em suas liberdades homoafetivas. Assim como Babilônia não devia ser julgada pela relação delicada do casal lésbico maduro, mas por sua exasperação narrativa quase maniqueísta, com gente só ruim demais e gente só boa demais.
Porém, no anseio conservador de defender “a família”, o alvo mais frágil é aquele que causa mais desconforto. E é aí que está o X da questão… O que vimos em Amor à Vida foi possível porque partiu de uma catequese muito lenta, com o personagem gay usando de alívio cômico para agradar e enlaçar, com o romance usando de ferramentas corriqueiras a qualquer casal hetero central, com tudo surgindo muito calmamente, permitindo que o conservadorismo militante, escondido no armário, não precisasse ferir-se por nenhuma imposição. O que Babilônia fez foi esmurrar a porta desse armário com um casal lésbico, idoso, beijando-se no primeiro capítulo e falando em casamento entre iguais. O resultado foi aquele já esperado… Infelizmente o espectador da nossa teledramaturgia é diferente do espectador das séries de TV. Ele precisa acreditar que “deixou acontecer”, ou reage com repulsa e mostra seu poder de decidir quando não vai acontecer mais.














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