Aqueles sobre os nossos pais.
A biografia de Charles Manson é bastante específica sobre como era a relação dele com a mãe: inexistente na maioria de sua vida. A criança Charlie tinha desde sempre um gênio impossível, mas sua jovem mãe não podia passar muito tempo com ele, já que engravidara cedo e gostava de enfrentar a perda do direito de se divertir. Depois que saiu de casa, Manson contou muitas mentiras sobre como tinha sido abandonado por uma mãe prostituta, quando de fato ele nunca deixou de ser apoiado pela família que o circundava.
Isso é importante de ser dito quando colocamos o episódio Your Mother Should Know em perspectiva. Nele, os roteiristas quiseram traçar um paralelo entre a relação de Charlie e Emma com suas respectivas mães. Através desse paralelo, mostrar como as decisões já estavam tomadas. Tanto de Charlie no seu intuito de dominar o mundo, como de Emma em segui-lo. Definitivamente, esses dois últimos episódios antes da finale foram os mais ousados nas liberdades que fizeram na comparação com a história real.
A chegada da mãe de Charlie foi um ponto realmente conflitante pra mim… Como sou um espectador que consumiu muita coisa sobre o assassino, tenho na minha mente, fresquíssimos, detalhes importantes e nem tão importantes sobre como seguiram-se os eventos durante a estadia da família em Los Angeles. Apesar de dizer ao mundo todo que a mãe era uma prostituta, Kathleen Maddox só era muito ousada para o contexto onde estava inserida. E ela tentou, de todas as formas (junto com a avó do menino), colocar as coisas nos eixos. A partir do momento em que Charlie tomou suas questionáveis decisões, Kathleen nunca mais voltou a vê-lo.
Quero ver as coisas pela perspectiva da série, mas confesso que foi bem difícil. Entendo o impacto dramático de toda aquela sequência em que Manson entrega a mãe de bandeja para os Straight Satans, mas não sou capaz de dar uma opinião neutra. Achei a coisa toda ligeiramente gratuita, mesmo que não possa garantir que meus conhecimentos sobre o passado real do sujeito não tenham me influenciado. Admito, independente de qualquer coisa, que essas ousadias são muito válidas e de modo algum condeno o programa pela iniciativa.
A outra parte dessa correlação bizarra de mães e filhos era Emma, que continuava invadindo casas com Sadie para recolher itens infantis. Sempre tenho falado de como as meninas de Manson são subestimadas em Aquarius e agora na reta final, começamos a ver mais da loucura de Sadie, a seguidora mais assustadora dele. Fiquei muito empolgado quando ela e Emma discutiram, porque sem dúvida Emma quer a atenção de Charlie e Sadie é uma “buceta servil”. Melhor ainda, foi a armação para prender Emma, que seria algo que a verdadeira Sadie certamente faria. Quando Sam chega na cadeia e diz a Emma que “se ela escolheu aquele homem aquele é seu lugar”, está sacramentando que a menina não existia mais, agora era só Cherry.

No episódio seguinte pudemos ver um pouco mais de Sadie Louca, aquela que tinha os mesmos olhos insanos de seu mestre. Pra quem não sabe, Sadie era, na verdade, Susan Atkins, que como vocês podem ver na foto acima, não era bonita e nem interessante. Mas, ela era a mais fervorosa seguidora e aquela que Charlie sabia ser capaz de tudo. Foi ela quem segurou Sharon Tate para ser morta, esfaqueou um dos amigos da atriz várias vezes e escreveu o PIG com sangue na porta da frente da casa do cineasta Roman Polanski. O problema era que Sadie também era muito egocêntrica e narcisista.
De todas as sequências de Aquarius que vi, a da briga entre ela e Charlie foi a que mais me envolveu. Ali estava todo o espírito do Helter Skelter… Charlie irritado porque armaram com ele, queriam aparecer mais do que ele… Sadie completamente esvaída de si mesma, cega de devoção, mas tendo filetes da própria personalidade querendo aparecer. Naquela cena havia uma camada tão incômoda de podridão humana que chegava a nausear. Aquarius precisa de mais investidas dramatúrgicas assim.
O documentário que ensaiou ser feito nesse episódio foi uma ideia que um dos integrantes do Beach Boys realmente teve. Não foi em frente, mas registrou alguns hábitos e tiradas estranhas da rotina da Família. Aquarius continua resistente em relacionar Manson com um nome forte da indústria fonográfica e me pergunto se isso não é alguma exigência legal.
Por fim, o episódio 1X12 mostrou como Sam também acabou tomando decisões ruins por conta do filho. Todo o mistério em torno do envolvimento do pai de Emma com Manson se esclareceu. Sam descobriu os motivos e a forma como tudo aconteceu, mas teve que trocar tudo pela proteção do filho desertor. É interessante, porque enquanto procurava um jeito de salvar Emma, também precisava salvar o próprio filho, amargando a “necessidade” de ir contra as regras. Isso, junto ao discurso que precisou ouvir de Charmain semanas antes, começou a antecipar um muito amargo presente para ele.
A sensível melhora da série nessa reta final não muda o fato de que ela ainda derrapa na falta de foco. Os núcleos das investigações de Brian ou dos Panteras ainda soam descontextualizados e isso não deixa a série demonstrar segurança e unidade. Todos problemas que podem ser resolvidos com mais atenção, carpintaria dramatúrgica e um pouco mais de orçamento.





















