O biscoite da sorte chinês da temporada 2014-2015 na televisão americana.

Não é puxação de sardinha quando digo que “Fresh Off the Boat” é uma série boa. Na verdade, até me surpreendi com a sua qualidade, que deve muito aos seus atores e roteiristas. A produção cumpre o seu papel, classificando-a também como boa, como qualquer outra produção destinada ao mercado televisivo norte-americano precisa ser, mas uma coisa me preocupou bastante quando li o seu enredo pela primeira vez: protagonistas asiáticos-americanos vivendo no ano de 1995. Para uma série de TV a Cabo, com um nicho delimitado sem a necessidade do grande público tudo bem, mas na televisão aberta?

Não é preconceito, nem nada disso. Na realidade, o Série Maníacos não me obrigou a escrever essa review por ser o único colaborador asiático. Já deixo isso claro. Essa entressafra entre as temporadas na televisão americana que leva naturalmente a uma escassez de séries me direcionou naturalmente a botar os olhos em “Fresh Off the Boat”. Quando a pesquisei na internet para saber mais, fiquei surpreso em saber que ela havia sido renovada já que esperava que a série fosse mais uma daquelas ótimas, porém de curta duração que ninguém se lembra porque ninguém assistiu.

Criada por Nahnatchka Khan, a mesma criadora da criativa “Apartment 23”, a produção é baseada em fatos reais, descritos em um livro escrito por Eddie Huang de mesmo nome. Contando sobre a sua experiência em ser um garoto com descendência Taiwanesa vivendo na ensolarada Orlando após anos morando em Washington D.C., “Fresh Off the Boat” narra a sua história em 1995, ano em que se mudou para a Flórida e  aborda todas as referências culturais da época, como o jogador Shaq (Shaquille O’Neal) e a série “Melrose Place” (a primeira versão). Eddie, o nosso pequeno protagonista, é um garoto asiático que é aficionado pelo hip-hop e tudo o que diz respeito à cultura negra, confundindo os seus pais e o padrão de perfeição e nerdismo comumente conhecido da cultura asiática nos estereótipos.

Sem fugir disso e tirando sarro dessa imagem, o seriado abrange os irmãos nerds de Eddie, a mãe perfeccionista e que cobra 110% dos seus filhos, a avó que só sabe falar em mandarim e o pai que tenta se integrar e socializar ao máximo em um país que o recebeu para mudar de vida. Além disso, a produção também estende o seu humor para o ocidente ironizando o estilo de vida americano, em especial a vida nos subúrbios. A trilha sonora, o carro da família, as roupas e os diálogos nos transportam direto para 1995: séries como “O Mundo é dos Jovens”, Nikes Air Jordans, época em que Kristie Alley estava no auge, a chegada do computador e da internet nas casas, época grunge do Nirvana, Beastie Boys, Dragon Ball Z e Walk-Mans são alguns dos temas abordados ao decorrer dos episódios.

Após assistir os primeiros episódios fiquei preocupado novamente ao pensar do que seria dos próximos que estavam por vir. A série tinha dois possíveis caminhos a seguir: ou ela continuava no mesmo ritmo e qualidade (ou até quem sabe se superar a cada episódio) ou ela iria decair e ficar sem graça ao final da temporada. Após assisti-la por inteira, “Fresh Off the Boat” não me decepcionou, e apesar de alguns vacilos, piadas ruins (ou será que não entendi?) e uma falta de maturidade natural em alguns diálogos e interações, a série merece uma nota alta em comédia e entretenimento. Conseguiu ser uma produção que estreou no meio da temporada 2014-2015, soube ter qualidade, uma audiência satisfatória e a ainda conseguiu ser renovada pela ABC. Na televisão aberta!

Grande parte disso, como dito anteriormente, se deve aos roteiristas e aos atores, em especial o protagonista, Eddie Huang interpretado pelo talentoso Hudson Yang, que conseguiu capturar bem o que significa ser um pré-adolescente obcecado pela música e cultura hip-hop vivendo em uma família taiwanesa em 1995. A mãe, personagem interpretada por Constance Wu mostrou destreza ao incorporar alguém que preza pela cultura asiática e que se esbalda no estereotipo: cobrança, perfeição, inteligência, frieza, econômica e metódica. Os irmãos mais novos de Eddie, os nerds que competem entre si para agradar ao máximo seus professores e a mãe, expiram também cenas agradáveis e cômicas.

O que antes me preocupava, acabou se tornando o seu diferencial. “Fresh Off the Boat” consegue tirar sarro de si mesma, de suas situações, personagens e histórias se tornando uma comédia muito bem formulada. No final, o que antes era visto como barreiras (uma família protagonista totalmente formada por asiáticos-americanos e ambientada em 1995) acabaram sendo os seus dois pilares de diferenciação.

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