O óbvio não precisa significar enfadonho.

Durante toda essa temporada de American Horror Story estivemos diante de uma metáfora sobre os renascimentos, sobre a forma como o ser humano busca a transformação e em alguns casos, até mesmo a metamorfose. Esses desejos estão atrelados a nossa constante insatisfação existencial. Há no imaginário coletivo uma ilusão fantástica de que a vida esconde em alguma esquina uma versão especial de si mesma que nos é negada por muitas razões. Renascer seria como reajustar o destino.

Todos os personagens dessa história estão no caminho de um renascimento subvertido. Eles substituem uma vida monocórdia e medíocre por outra que traz uma volúpia ou uma escuridão latentes. O melhor é que há uma beleza relutante nisso… Aqueles personagens estão mergulhados num mar de lama evidente, mas felizes com a oportunidade de caminharem no mundo respeitando a metade negra “que não pode ser ignorada”.

No episódio 8 de Hotel, conhecemos a metade negra de John, que já vinha se anunciando há muito tempo no show. Acho que não havia um só fã da série que não tenha descoberto sozinho que seria impossível que ele não fosse o assassino dos dez mandamentos. A questão nunca foi a identidade do criminoso e sim a forma como o episódio nos levaria até essa evidência. O roteiro precisaria tornar o óbvio atrativo para todos nós, justificando com ações coerentes os detalhes que nos trouxeram até esse ponto, sem perder o senso de espetáculo de forma alguma.

Dito isso, meu veredito não foi tão animado quanto o da maioria dos comentários que li desde a semana passada. Ryan Muprhy entregou um episódio escrito com mãos pesadas, demonstrando uma clara dificuldade de lidar com esse conflito entre obviedade e esse tal senso de espetáculo. Em alguns momentos a clareza da identidade do assassino se encontrou com redundâncias narrativas que não costumam ser parte do show. The Ten Commandments Killer foi um episódio necessário e coerente para a temporada, mas que esteve longe da beleza transgressora que conduziu a atmosfera desse ano.

Até agora, inclusive, os plots de Jonh sempre me soaram deslocados. Enquanto a temporada costurava a história da Condessa e seus elementos periféricos de uma forma complementar, a narrativa de John parecia apática. Tudo sempre foi perdoado porque sabíamos que, enfim, a revelação de que ele era o assassino seria o ponto de ruptura que talvez o levasse a um envolvimento maior com o centro nuclear a história. É claro que Muprhy teve uma preocupação de correlacionar o “nascimento” de John com uma perspectiva não explorada na temporada (ele renasce para si mesmo), mas ainda assim o resultado me soou truncado.

Talvez o grande trunfo desse episódio tenha sido Sally, que surgiu não como a mulher que apenas revela a ele seu verdadeiro eu, mas como uma peça determinante em sua vida. Sally foi quem o encontrou ocasionalmente no hall do hotel e acabou se envolvendo emocionalmente. É bom ver que a melancolia da personagem tem raízes também na ironia de ver-se apaixonada por um assassino depois de morta. Por causa desse envolvimento ela colocou Wren na história. Esse detalhe foi um dos charmes dessa semana, que foi uma semana dada a isso mesmo: detalhes charmosos. O roteiro acabou sendo atrativo justamente por isso, por desvendar alguns detalhes mitológicos para a temporada, dando gotas de surpresa que precisam suprir as obviedades do tema principal.

Por anos, John visitava March no hotel… Lembram-se que nessa trama sobre renascimentos há sempre um condutor, um mentor, um “parteiro”? Todas as transformações foram promovidas por um outro personagem, que deu a mão para seu pupilo e moldou o casulo. March não fugiu da regra, reconhecendo o vazio de John e enchendo esses espaços com sua manipulação ideológica a respeito do mal e da morte. John tinha o potencial, mas precisava de um catalisador. Outro detalhe charmoso  veio à tona nesse momento, quanto a Condessa é  usada por March para provocar um grande trauma no policial,  apenas para que ele desse vazão ao monstro que mantinha latente. Para se proteger dessa metade negra, ele escondia tudo a um nível tão grande, que se transformava numa projeção de outra identidade.

Entretanto, além de alguns diálogos equivocados e redundâncias desnecessárias (na cena da morte de Wren precisa aparecer alguém pra dizer “ela está morta” numa cena em que a personagem está claramente morta?), esse episódio que pretendia nos fazer nos importar com a história de John, acabou provocando – pelo menos em mim – um desejo de acelerar para seguir adiante. A menos que a aceitação leve John a um envolvimento maior com o resto da trama, sua jornada de negações finais segue sem me conquistar.

Fica disso uma frase que considero a grande linha poderosa desse roteiro turbulento de Muprhy:Estamos prontos para nos vermos por quem somos?”. Recusar a lupa que nos desvenda é, enfim, um mecanismo de proteção que todos reconhecemos e acessamos. O mais fascinante sobre esse episódio é a noção de que há um desejo imenso em todos nós de satisfazer a sanha do mundo por modelos seguros, há um desejo genuíno de ignorar a metade negra. O problema é que ao fazê-lo corremos o risco de enlouquecer, de estuprarmos nosso inconsciente com demandas que ele não pode cumprir… Abraçar a escuridão pode significar a própria sobrevivência… E de outros.

Check Out: Quero muito saber mais sobre o acordo entre March e Sally que tem a ver com o “demônio” conjurado. 

Check Out 2: Muito bacana o momento em que Iris se alivia por John ter passado a lembrar de quem era. Há uma cumplicidade entre todos os que “renascem” no hotel. 

Check Out 3: Precisei atrasar vários textos por causa da CCXP. Me perdoem, galera.

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