O aniversário de 10 anos de AHS mostrou que Ryan Murphy agora acredita em duas coisas: que o sucesso é um vício e que é o fim da raça humana.
Vamos relembrar comigo aqui:
Em Murder House, apesar da família ferrada e das traições constantes, o amor entre Tate e Violet foi o que manteve o eixo da temporada até seu final. O mesmo foi feito quando eles retomaram a casa em American Horror Stories. Em Asylum a história era de sobrevivência, de superação. Em Coven, a cruzada de Fiona em busca da juventude eterna esmagou a filha, que passou de “patinho feio” a grande Suprema. Em Freak Show a oportunidade de viver o amor e o sucesso foi dado a quem foi possível (e para quem não foi, a morte foi o fim do sofrimento). Em Hotel o senso de coletividade, mesmo que entre os fantasmas, foi o que os manteve unidos. Em Roanoke a história de sobrevivência e superação voltou a ser o destaque, com uma pitada de maternalismo. Em Cult o perigo da subversão política em nome de retrocessos sociais foi vencida. Em Apocalypse o mundo foi salvo por bruxas, literalmente. Em 1984 o amor entre pai e filho acabou sendo o foco do episódio final. Aí chegou Double Feature… e a raça humana foi condenada duas vezes.
Será que o otimismo constante das obras de Murphy está chegando ao fim? Ele, que sempre foi conhecido por levar seus personagens a extremos, sabendo que daria aos enredos o final feliz possível dentro das diretrizes da trama, chegou a dizer publicamente que essa sempre seria sua característica; e que sumiu, estranhamente, de tudo que vimos em Double Feature. Em nenhuma das duas histórias houve redenção ou otimismo. O máximo que os roteiros conseguiram fazer foi dar à personagem de Sarah Paulson em Red Tide um final ligeiramente poético. De resto, foi um bombardeio de “se conforme aí que não temos nada de reconfortante para dizer”.
A ótima (ótima mesmo) ideia em torno de Red Tide já havia acendido um alerta. Eles estavam contando a história do talento por duas óticas terríveis: ou você persegue o talento até se tornar capaz de tudo para mantê-lo ou você o persegue sem nunca alcançá-lo e torna-se um monstro por causa disso. Tudo isso dentro da obra de um homem conhecido por sua prolixidade criativa, sua pressa em contar todas as histórias ao mesmo tempo e por buscar – sempre – a ousadia e o choque. Parecia uma bizarra tentativa de autocrítica e uma desesperada maneira de imprimir alguma autoabsolvição. No final, ele saiu dali insistindo que ao sucesso ninguém resiste e que o talento ou a falta dele é que vão extinguir a humanidade.
Então, quando Death Valley começou parecia que ele só queria mesmo dar ao público o bendito tema dos ET’s que eles ficavam insistindo todo ano para ter. Arrumaram a trama direitinho, misturaram o charme dos clássicos de horror em preto e branco com as narrativas futuristas dos filmes Sci-Fi; o que não deu certo o tempo todo, mas que deu identidade ao produto final. Ao contrário do que aconteceu com Red Tide, a preocupação com aprofundamento de personagens era zero, a busca pelo público jovem era descarada e em quatro episódios todas as teorias conspiratórias possíveis foram entupidas ali dentro. Com direito até a encenação do homem pisando na lua.
Não se enganem, viu… Eu sou do tipo que acredita em tudo. Mas, como bom fã de Arquivo X que fui, aquilo tudo que Death Valley apresentou não era nenhuma novidade para mim: alienígenas de raças diferentes em conflito, aliança com o governo para criar híbridos, vacinas contra a colonização sendo testadas em segredo… E não é que AHS estivesse copiando Arquivo X. De fato, tanto uma quanto a outra se baseiam em documentos apócrifos que rodam pela internet há anos. A diferença é que uma teve 7 anos para desenvolver isso (estou excluindo as temporadas 8, 9, 10 e 11 de Arquivo X por razões óbvias) e AHS teve menos de quatro horas. Tudo acabou ficando apressado e superficial.
Além disso, algumas decisões para mim soaram tão esquisitas. Uma delas foi a de engravidar o casal gay e dar a eles um final bizarro onde a cria de um matou o outro. Não sei o que Murphy e Falchuk estavam pretendendo com esse destaque; ou mesmo com a ideia de mulheres parindo e tendo suas cabeças explodidas, perdendo suas identidades, como se fossem só receptáculos descartáveis. Sei que é assim que elas podem ser vistas pelas entidades extraterrenas, mas em AHS sempre houve o contraponto, a contra-argumentação. Dessa vez, nada. Encontraram o híbrido perfeito e que venha o novo apocalipse.
Enfim, apesar do desperdício de talentos como de Angelica Ross e da própria Sarah (quem brilhou mesmo nas duas partes foi Leslie Grossman); e de boas histórias desperdiçadas pela falta de tempo, Double Feature já é um dos maiores sucessos do FX e tem a quarta aprovação mais alta do Rotten Tomatoes (a menor é de Hotel e a maior é de 1984). Se ela marca o fim do otimismo de seu criador, só a temporada 11 vai dizer. E preparem-se para quando ela vier… Tenho quase absoluta certeza que Sarah e Evan não voltam mais. O fim do otimismo pode ser, também, o fim derradeiro do que a série já foi um dia.
PS: As coberturas de AHS e ACS foram conturbadas demais não só por falta de tempo, mas também pelo que posso dizer agora que foi a perda do grande amor da minha vida, que se foi no início de Outubro depois de muita luta para viver. Sigo tentando entender o luto, a perda repentina, sobre a qual tanto falei em The Leftovers e agora vivo, sem acreditar, na minha própria pele. Espero que ano que vem tudo esteja restabelecido. Esse texto foi apenas por respeito a vocês e a mim mesmo, que sempre cobri a série desde a temporada 1. Brigado, gente.
















