Death Valley começou e será que foi Harry Gardner quem escreveu?

Para os fãs de cinema que acompanharam a estreia da parte Death Valley da décima temporada de American Horror Story, as referências alienígenas passeiam entre o ET de Spielberg ou o Alien de Riddley Scott. Para os fãs de séries de TV, quando se fala em vida extraterrestre, é impossível não pensar em Arquivo X. A criação de Chris Carter reinou nos anos 90 e reforçou a mitologia. Foi o mesmo que Anne Rice fez com os vampiros… Eles dominaram tão completamente aqueles universos que parecem donos do que sabemos deles.

Porém, existe muita coisa antes de Arquivo X que parece ter influenciado Ryan Murphy e sua equipe na hora de criar a trama de Death Valley. E essas coisas também passearam pela história de Mulder e Scully, que lidavam com uma “verdade” dificultada pela desculpa da fantasia. O fato é que em 1947 os EUA precisaram lidar com uma notícia vazada pela imprensa – e sustentada por testemunhas – de que um OVNI havia caído em Roswell. A paranoia alienígena foi reforçada pelas tentativas toscas (ou muito espertas) de abafar a história, que se perpetuou no tempo e apaixonou pessoas ao redor do mundo.

Então, num quadro em preto e branco, Take me to Your Leader começa promissor. A bela sequência da chegada dos alienígenas em 1954 (alguns anos depois de Roswell) já faz aquilo que esperamos da série: revela suas referências. Está lá o American Way of Life dos anos 50, com seus figurinos exuberantes e sua família nuclear; está lá a paisagem bucólica e os tornados que poderiam facilmente nos levar para Oz; e estava lá a entrada da luz intensa, como nas clássicas abduções vistas em Arquivo X, com uma pitada de Vampiros de Almas (1956), quando a pobre dona de casa bem vestida se torna hospedeira da força extraterrena.

Para quem viu Arquivo X, a experiência de assistir Death Valley será diferente. As lembranças e correlações vão pipocar por toda parte, indo desde a forma como as abduções funcionam até coisas involuntárias (como lembrar que explodir cabeças lembra as decapitações que vimos na série nos anos 8 e 9). Arquivo X foi toda construída em cima da ideia de humanos sendo hospedeiros, de conspirações de colaboração e dissimulação, de todo tipo de forma alienígena. Mas, o primeiro episódio dessa segunda parte da temporada evoca mais os primeiros filmes de horror que abordaram alienígenas, sempre retratados como figuras monstruosas ou tentaculares.

The Truth Is… Inside

É muito difícil compreender a decisão de usar duas boas ideias numa temporada tão desmembrada. Tanto Red Tide quanto Death Valley soam adequadas para uma quantidade maior de episódios. Contudo, Murphy vem numa obsessão pelo dinamismo narrativo, entregando histórias corridas, sem preocupação com detalhes e, obviamente, negativamente superficiais. Foram anos esperando por uma temporada com aliens (pedida pelos fãs desde a “sutileza” com que Asylum tratou o tema) e agora são apenas quatro episódios e uma estreia com absurdos TRINTA E NOVE minutos.

Um exemplo cabal de tudo isso que estamos falando é a própria forma como o episódio foi construído. Se houvesse mais tempo, a belíssima apresentação da trama, em preto e branco e passada nos anos 50, poderia ocupar toda a primeira semana. O avanço no tempo, no episódio seguinte, deixaria o resultado final mais elegante, organizado, condizente com a marca da antologia. Ou melhor, com a antiga marca da antologia, a que não se preocupava com o público adolescente.

Quando estreou esse ano, a versão American Horror Stories apresentou 7 histórias independentes e com exceção da história estrelada por Finn Wittrock, absolutamente todas as outras tinham personagens jovens e uma linguagem claramente direcionada à faixa-etária que sustenta, por exemplo, a pirâmide financeira da Netflix. Quando Take me to Your Leader avança para os dias de hoje, parece que estamos diante de outro episódio de American Horror Stories, daqueles que vendiam diversidade dentro dos padrões que a própria carreira de Murphy estabeleceu. É impossível não notar como a perseguição pela beleza e pela sexualidade (seja de brancos, pretos, gays ou trans) se tornou opressiva demais no universo da antologia.

Ao mesmo tempo, a história das abduções dos jovens foi interessante. Os elementos clássicos de filmes como Fogo no Céu (1993) estavam ali, encontrando-se com coisas que os fãs de Arquivo X conhecem bem: os animais mortos, os lapsos do tempo, a volta de desaparecidos como se nem um dia tivesse passado (Amelia Earhart foi realmente uma aviadora que desapareceu na década de 30 sem deixar rastros) e até a gravidez depois de um contato. Essa gravidez, contudo, ganhou mais umas doses de bizarrice ao ser estendida aos rapazes. Uma pena, então, que esses aspectos positivos tenham ficado esmagados num episódio bagunçado, instável, irregular.

Como acontece sempre, apesar dos problemas, a antologia consegue nos segurar na tela. Ainda é difícil aceitar o tempo curto, ainda é difícil aceitar Sarah Paulson e Lily Rabe com 3 minutos de tela, ainda é difícil não fazer comparações (e perguntas). Será que Death Valley e Red Tide vão se conectar? Será que Death Valley foi escrita por Harry? Será que vale pena contar para contar tão pouco? E é enervante, porque o potencial está ali. Mas, parece cada vez mais abduzido

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