Infelizmente já aconteceu o que a gente não queria… American Horror Story fez um trabalho ótimo até o sétimo episódio do ano, mas tropeçou feio no oitavo e conseguiu, com isso, acordar o bichinho que culpa Ryan Murphy por não conseguir ser linear em suas narrativas. Talvez se o nono episódio tivesse recuperado o fôlego os mais desconfiados pudessem esquecer o deslize. Contudo, isso não aconteceu. Ainda tivemos uma hora melhor que a da semana passada, mas a insistência no tom paródico dos últimos acontecimentos segue prejudicando o resultado final. Assim, mesmo que a finale seja boa, o estrago foi feito e o deslize vai configurar as impressões definitivas acerca de Apocalypse.

Ironicamente, são as bruxas de Coven que ajudam a melhorar a narrativa. São elas que mantém nossa relação de afeto com essa temporada, depois que assistimos maravilhados o universo ser retomado com tanto respeito e reverência. Considero o plot dos cientistas o grande equívoco da trajetória e por ele existir, mancha nossas impressões de todo o resto. Há um planejamento que precisa ser seguido e o momento do massacre das bruxas era esperado (Michael já havia dito que fizera). O problema é que o descrédito causado pelos cientistas de peruca foi tão intenso que o entorno dos episódios não consegue escapar da negatividade. É uma pena, porque as perspectivas eram as melhores, mas foram engolidas por uma ideia teimosa que jamais deveria ter saído do papel.

É possível, inclusive, vislumbrar o potencial do enredo na questão da ordem Illuminati, por exemplo. O mito em torno da ordem cresceu muito por conta da internet e faz sentido que num apocalipse moderno esse mito fosse analisado de alguma maneira. Porém, os dois cientistas de peruca foram criados de uma forma tão jocosa que todas as cenas protagonizadas por eles soam como uma piada de auditório. A ideia de que os Illuminati são uma ordem formada por súditos de Satã é bacana, mas não adianta ter uma cena que mostra isso quando as anteriores continuam insistindo na palhaçada dos robôs, da cocaína, dos losers que usam o robô para cavarem elogios… É tolo, idiota e muito desnecessário.

Então, vamos nos atendo ao plano geral. Já sabemos de onde veio Venable, como surgiu o conceito de Cooperativa, como a ideia do apocalipse nuclear ganhou forma. Tudo isso era importante. Sabemos agora, também, o que Michael quis dizer com “achei que tinha acabado com todas elas”. Esse ponto, aliás, também pode ser controverso. As mortes de Quennie e Zoe parecem outro desvio desproporcionado, mas considerando que quem chegou no Bunker foram Cordelia, Myrtle e Madison, faz sentido que tenha sido assim. Essas mortes, que hora podem ser revertidas e hora não, também são um ponto sensível da mitologia de Coven.

Time After Time

A questão da viagem no tempo também já era esperada. O material promocional com as ampulhetas, as imagens em retrocesso na abertura, eram sinais de que o tempo seria uma questão relevante para a história desse ano. O lado Coven desse crossover funciona perfeitamente bem nesse sentido e todas as sequências de estudo dessa possibilidade foram coerentes com o proposto. Billie, inclusive, tem em Mallory uma importante oportunidade de demarcar seu talento como atriz. Em alguns momentos é quase possível ver um traço de originalidade em sua atuação. Essa sequência foi um ponto positivo para ela e para o que já estava planejado desde que o apocalipse aconteceu. A não ser que a próxima temporada seja um prequel, o fim do mundo precisará ser revertido.

 

Verdadeira Anastasia Romanov
Local do massacre da famílía imperial russa

As fotos acima mostram o rosto da verdadeira Anastasia e o porão onde sua família foi executada. A foto foi tirada logo depois do massacre. Como faz em todas as suas temporadas, AHS usa figuras históricas reais para ilustrar sua mitologia e aqui o destino de Anastasia Romanov serve bem aos propósitos do show. Mantidos em cativeiro por conta da revolução, a família imperial russa foi acordada no meio da madrugada, levada ao porão e executada sem chances de defesa. O destino da família se tornou uma lenda porque quando seus corpos foram encontrados, Anastasia não estava entre eles. Isso iniciou uma lenda a respeito da “princesa que sobreviveu”, reforçada pela modernidade e até por uma animação infantil dos anos 90. A razão pela qual Murphy inseriu a história da princesa em AHS também tem seu viés histórico.

Os depoimentos dos executores davam conta de que com a fumaça dos disparos e o pânico no recinto, as execuções se frustravam. Alguns oficiais se assustavam porque atiravam contra as meninas e mesmo assim elas continuavam vivas. Isso ajudou a aumentar a lenda em torno delas, sobretudo porque a família tinha sido muito próxima de um homem chamado Rasputin, que usava de métodos pouco medicinais para cuidar da hemofilia de um dos filhos do Czar. Rasputin teria previsto o massacre da família, justamente porque um pacto com forças do mal teria sido feito para garantir tal destino. Muitos acreditavam que Anastasia teria poderes sobrenaturais e que tentou impedir a morte da família, quando na verdade teorizou-se mais tarde que por estarem com suas pedras preciosas sempre escondidas nas vestes, as meninas não morriam dos tiros por causa do ricochete das balas quando batiam nessas pedras.

Enfim, a referência – como com quase todas que a série já fez – aumenta o brilho do episódio, mas não o salva da estranheza. E essa estranheza é toda causada pelo plot com os cientistas, que prejudica a unidade da narrativa e se descontextualiza da mitologia proposta lá no começo de tudo. Saímos de uma sequência bonita, com referência histórica e base mitológica coesa, para mais cenas envolvendo esse enredo pseudo-satírico mal engendrado. Parecem duas temporadas distintas; e nesse caso isso não é bom.

Com isso, as expectativas para o season finale baixaram. Dificilmente a temporada vai conseguir se recuperar em termos de reputação mesmo que ele seja bom (as críticas a Murphy são sempre implacáveis). Mas, no meio de todo o imbróglio questionável, o papel das bruxas, para mim, continua seguindo de maneira plenamente satisfatória. Sendo assim, Apocalypse será sempre o meu reencontro com o clã que eu tanto defendi e que agora, finalmente, se redimiu.

Notas Illuminatas:

  • Que tapão aquele em Madison.
  • Judas se vendeu por 30 dinheiros e Dinah por trinta episódios.
  • Não dá mais tempo de desenvolver melhor a personagem, infelizmente.
  • Myrtle rainha.
  • Boa a ideia de ter a reunião com os membros da ordem no final do episódio. A solução das máscaras foi bem plástica.

 

 

> Derivado Cast #107 – Adeus Rick, Adeus House of Cards, Bohemian Rhapsody e muito mais

REVISÃO GERAL
Palavra Final
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american-horror-story-apocalypse-8x09-fire-and-reignPenúltimo episódio da temporada segue um pouco melhor que o anterior. Mesmo assim, Fire and Reign ainda tropeça em equívocos.