Apocalypse comete mais desvios bizarros num episódio que oscila entre a ousadia e o ridículo.
Em quase todas as suas temporadas American Horror Story tinha o que apelidei de “plot retardatário”. Aquele enredo paralelo promissor e que não ganha tempo de tela suficiente para acontecer. Ou que simplesmente acontece de formas paralelas demais, precisando ter sua ligação com a trama central forçada goela abaixo. Em Asylum, por exemplo, a trama ufológica de Evan Peters era condizente com a paranoia americana da época vigente, mas desconectada demais do miolo dramatúrgico daquele ano. Em Freak Show, a trama do museu de aberrações careceu de mais aprofundamento, assim como a ideia do “demônio do vício”, que coadjuvou ao extremo em Hotel. Em Coven os vizinhos religiosos tiveram pouquíssimo tempo de tela e não dá para entender até hoje porque eles estavam ali. Enfim, no emaranhado de ideias para dar conta, algumas terminavam sendo sacrificadas.
Apocalypse já tem seu enredo esquisito estabelecido em Sujourn, um episódio entorpecido que tem lá seus bons pontos, mas que poderia nos poupar de certas digressões. Depois de ter a função de Dinah revelada no episódio anterior, esperávamos que Timothy, o garoto retirado à força dos pais, fosse ser centralizado nos acontecimentos até aqui. O jovem – que foi valorizado no piloto – parece ser uma dessas pontas soltas que não poderão acontecer a tempo. Honestamente, ainda estamos falando de um episódio que explica coisas, mas também estamos falando de uma dramaturgia que em muitos momentos soava como uma estranha paródia.
Not Today Satan
Inacreditáveis 37 minutos de episódio (sem comerciais) já antecipavam a pressa dos roteiristas para terminarem de contar sua história. Sujourn leva sua primeira metade na base da coesão. Cordelia vem tentar trazer luz para Michael (que agora não tem poderes para ressuscitar Mead simplesmente porque um feitiço quis assim), avisa para ele que a guerra está declarada e o moço – perturbado com a morte de sua quase-mãe – começa uma crise existencial bastante condizente com a pós-adolescência que já havia sido ilustrada em Return to Murder House. Assim como aconteceu com Jesus, a falta de respostas e de caminhos claros aflige a prole do poderoso ser. Isso leva o rapaz também a uma espécie de exílio, tomado de visões e presenças, que o ajudarão a compreender sua “missão”.
Até aí, tudo bem. O episódio também acerta na igreja satânica comandada por uma sempre mal humorada Sandra Bernhard, que tenta tirar paixão de seus seguidores e encorajá-los a pecarem com mais intensidade. Faz parte do estilo de Murphy criar essas representações transgredidas do que já está estabelecido culturalmente. Em plenos anos 2000, com tantas flexibilizações de caráter e tantas licenças éticas, a noção de mal foi sendo alterada também. Ao mesmo tempo, seja na igreja cristã ou na satânica, ainda é o fracasso e o pesar que atraem as pessoas para a instituição. Matar em nome do diabo acabava sendo a única e derradeira maneira de comungar com o mesmo.
O humor, sempre presente, permaneceu um risco durante toda essa parte. As dúvidas de Michael com relação aos próximos passos ajudavam as coisas a permanecerem dentro de um mínimo senso de realismo. Contudo, a impressão é de que essa necessidade de choque textual satírico ia agindo contra a correnteza do bom senso. Quanto mais próximo da beira do abismo, mais provável é a ideia de cair nele. Então, jamais será possível entender o que levou o brainstorm do dia a achar que as sequências na empresa de robôs de Peters e Eichner seriam boas para o planejamento do ano. Está difícil até mesmo compreender porque raios os próprios robôs precisavam fazer parte da equação.
Robots and Bad Wigs
É perfeitamente compreensível que as doses de humor e deboche estejam presentes nesse ato final de Sojourn. Michael vai atrás de mais alguns espertos que venderam suas almas em busca de sucesso, dinheiro e invulnerabilidade. Os personagens de Peters e Eichner são o recibo do complexo de inferioridade que pode gerar monstros, tendo dedicado suas vidas agora a desfrutarem de tudo que não foram capazes de conquistar sozinhos. O problema aqui é a concepção. Do figurino, passando pelas perucas até as tiradas que insistem em Ryan Reynolds, tudo construía uma ideia que deveria ser ligeiramente cômica e provocativa, mas acabou sendo bizarra e ridícula.

O episódio quer nos explicar como Michael recuperou Mead, mas já é questionável até mesmo a razão pela qual Mead precisa aparecer como robô na temporada. Ela poderia ter sobrevivido, passado por alguma lavagem cerebral, qualquer outra coisa. Mas, tinha que ser como robô. Ainda pode haver uma justificativa tardia para tal decisão, mas em uma temporada quase exclusivamente mitológica, esse arroubo científico soa inconsistente e descontextualizado (ainda que Michael tenha se valido dele para destruir o planeta). Não foi bom, não foi coerente, não foi atrativo. E mesmo as boas tiradas cômicas não serviram para redimir o pacote.
Tão próximos do fim, ainda precisamos saber como a bomba foi usada e como ficarão os personagens do bunker quando esse longo flashback acabar. Se continuarmos com episódios de 37 minutos a pressa dos roteiristas vai precisar ser maior. Considerando o que já vimos até aqui, começo a torcer realmente para que estejamos diante da primeira temporada não-antológica da história do show que o nono e último ano (se as questões contratuais se confirmarem), seja a continuação da exploração derradeira do último ciclo do inferno.
> A Maldição da Residência Hill – QUASE MORRI DE MEDO!!
Visions of Fanta 1: Venable também apareceu no meio daquela loucura… Mas é sempre divertido ver como Paulson desafia o recorde de Tatiana Maslany.
Visions of Fanta 2: Billy Eichner fez um personagem ligado a uma bruxa e Peters fez um personagem ligado a outra. Mead e Venable também tinham conexões do lado de fora. Será que os cientistas de peruca também foram para o bunker com vidas forjadas?
Visions of Fanta 3: Até a igreja satânica ter coral foi maravilhoso.
















