O dia em que Ryan Murphy resolveu não chamar a atenção.
Para alguns fãs, não há nada mais nocivo para um filme ou uma série do que o amaldiçoado Fan-Service. A categoria é atrativa para espectadores menos analíticos, mas para os avaliadores de storylines o compromisso com “fazer coisas que os fãs querem” pode arruinar a coerência de uma produção. Para ficar mais fácil, podemos usar a temporada final de Game of Thrones como exemplo. Apesar do episódio final não ter feito NADA que os fãs queriam, a decisão de fazer Dani destruir a cidade no penúltimo passa pela especulação de ter sido planejada “apenas para dar aos fãs o espetáculo que eles esperavam”, mesmo que a coisa toda não fosse coerente com a história.
American Horror Story tem alguns fan-services supostos, que se concentram justamente na interação entre as temporadas. Algumas vezes essas interações passam uma ideia de coerência um pouco mais esclarecida (como em Apocalypse) e em outras, soam totalmente desnecessárias (como Queenie em Hotel). Uma das grandes características de Ryan Murphy enquanto showrunner é sua atenção completa ao que está em vigência na cultura pop, o que resulta – é claro – também em uma compreensão de como ELE está criando cultura pop. Sendo assim, era esperado que o episódio 100 fosse ter uma série de referências e provocações para nenhum fã colocar defeitos. Eis a nossa surpresa quando esse foi um episódio que se revelou apenas mais um na progressão da história.
É claro que a virada de narrativa aconteceu, do mesmo jeito que vem acontecendo desde Roanoke. Mas, ela foi uma virada absolutamente coerente com o que foi proposto até aqui. Mesmo com o episódio sendo chamado apenas de Episódio 100 e com a pouca – mas presente – divulgação do “evento”, Ryan (que escreveu o episódio) não se deixou seduzir pela ideia de desviar a trama para executar grandes fan-services, o que, em se tratando de sua prolixa criativa, é algo que merece ser louvado. Foi absolutamente frustrante não ter visto nenhum rosto do elenco original, mas foi interessante perceber que a decisão parte de certo amadurecimento. Amadurecimento que vem desde Roanoke também, quando eles entenderam que há uma imensa possibilidade de sucesso em histórias mais concisas. Roanoke, Cult, Apocalypse e 1984 não se desviam de sua ideia central, algo que não aconteceu muito em Asylum, Coven, Freak Show e Hotel. Tanto que, em recente entrevista, Ryan confirmou aquilo que eu sempre soube: Asylum não é sua temporada favorita (assim como não é a minha). Sua favorita, até agora, é Cult.
Redwood Blood Festival
Foi bastante divertido acompanhar a transformação do Acampamento em mais uma das localidades afetadas pela mitologia que a série abraçou. Eu gosto imensamente disso, porque cria um senso de continuidade precioso depois de quase dez anos no ar. Agora que os espíritos ficam presos no local, a ideia de ter um Festival de música acontecendo por lá soa uma das coisas mais sensacionais que a série já fez. Com o acampamento cercado de serial killers e espíritos assassinos, um massacre da plateia do show pode transformar Redwood num dos maiores núcleos de energia negativa kármica da história de AHS. É realmente animador, se for concretizado, é claro. Por conta da logística pode ser que eles recuem e impeçam o festival de acontecer, mas que seria incrível, isso seria sim.

Há, aliás, uma transformação ainda mais efetiva. Margaret deu uma virada considerável ao se tornar uma empresária especialista em criar entretenimento através dos crimes famosos da história americana. É um pouco de Ryan criticando a si mesmo, criando um império ao explorar códigos de violência tão absolutos. Foi apenas nesse plot de Margaret que conseguimos algumas pitadas de referências a outros anos, com a presença desnecessária de Leslie Jordan e a boa menção a Briarcliff, o sanatório de Asylum. Cheguei a pensar que veríamos Margaret visitando a Murder House ou o próprio sanatório, mas isso não aconteceu.
O único recurso bastante vago desse episódio foi com relação ao que fizeram com Jingles. Geralmente otimista com seus personagens sofredores, Murphy não resiste a redimi-los e Jingles se encaixava completamente no perfil. Toda a história do pecador que é perseguido pelo pecado até se convencer que jamais poderia deixar de pecar é cansativa e previsível. Além de sem fluidez, também. Tudo acontecer no mesmo episódio de 40 minutos não nos deu nenhuma chance de nos afetarmos pelo sofrimento do homem. Só era necessário que todos voltassem ao acampamento e foi isso que foi planejado desde então. De fato, por serem mais concisas, as temporadas ganharam fluidez, mas perderam um pouco da poesia, dos monólogos longos e enfeitados por grandes atores. Os episódios longos e dramáticos se tornaram nervosos e urgentes. A série foi mudando com o tempo, se reajustando, perdendo coisas e ganhando outras, como só os bons fazedores de arte sabem fazer. Dá saudade do que ela foi, mas ainda me divirto com o que ela se tornou.
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AHS 1984 tem sido uma temporada bastante segura, direta, do mesmo jeito que passaram a ser as temporadas nos últimos anos. Se tudo continuar correndo bem (mesmo sem fan service), chegaremos aos dez anos com muitos motivos de orgulho. Eu, enfim, já tenho o meu. Os 100 episódios da série correspondem, também, aos meus 100 textos sobre ela só aqui no Série Maníacos. Do mesmo jeito que no episódio, sendo mais direto e sem “fan service”, essa também é minha celebração.















