Nova temporada de American Horror Story começa em plena homenagem aos slashers, mas algo estranho paira sobre esse tão descaracterizado ano.

Richard Ramirez, mais conhecido como O Perseguidor da Noite (Night Stalker) começou a assombrar as ruas de Los Angeles exatamente no ano de 1984. Seu primeiro crime foi cometido no mês de junho daquele ano. Ramirez era filho de imigrantes mexicanos e com apenas dois anos de idade sofreu um grave acidente, quando um armário caiu sobre sua cabeça resultando uma ferida que precisou de 30 pontos para ser fechada. Após isso desenvolveu um quadro estranho de convulsões e com menos de dez anos de idade fugia para dormir em cemitérios. Aos 13 teve seu primeiro contato com o assassínio: viu seu primo Mike (que se gabava de ter torturado e matado vietnamitas na guerra) executar a própria esposa. Sua primeira vítima, anos depois, foi encontrada em casa com a garganta dilacerada e múltiplas perfurações por faca. 1984 também foi o ano em que a franquia Sexta-Feira 13 chegava ao final de uma bem sucedida quadrilogia.

A cultura dos slashers invadiu o cenário em 1974, quando O Massacre da Serra Elétrica chocou o mundo com suas cenas de extrema violência visual. O horror tinha encontrado um subgênero lucrativo e perturbador, baseado na ideia extremamente realista de haver um estranho com uma faca disposto a matar sem absolutamente nenhuma motivação. Os anos 70 haviam sido influenciados pelos crimes da Família Manson e obviamente que Hollywood ia se aproveitar do quanto a sociedade americana estava sensibilizada pelo que tinha acontecido com as vítimas do Helter Skelter. Porém, quase como numa tentativa de “amenizar” os aspectos psicológicos que o enredo poderia trazer, os primeiros assassinos slashers eram figuras quase inumanas, que não falavam, não corriam e eram estranhamente “imortais”.

Sexta-Feira 13 estreou em 1980 e se for assistido hoje vai impressionar pela maneira como parece ter influenciado a trama de AHS1984 completamente. O filme também começa no passado e mostra um acampamento sendo condenado depois de crimes brutais não explicados, até que anos depois o tal acampamento é reaberto e os mesmos crimes brutais voltam a acontecer (e todos na mesma noite). Pareceu familiar? Ryan Murphy não dá ponto sem nó e situou a nona temporada de American Horror Story exatamente no centro dessas duas grandes referências: ­Sexta-Feira 13 e Richard Ramirez. Com algumas pitadas de O Massacre da Serra Elétrica, Halloween, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passsado e Pânico. Essa é uma temporada tributo, talvez como nenhuma outra já tenha sido.

Esbarramos, porém, num “porém”. Apesar de todas as referências espertas que a série vem fazendo, esse é um ano emblemático para AHS. A primeira grande mudança de elenco da série foi na quinta temporada, quando Ryan perdeu Jessica Lange. Roanoke provocou a primeira grande descaracterização, mudando todo o sistema narrativo e abrindo mão da famosa abertura. Cult surgiu depois com o elenco mais transformado, tendo apenas Sarah e Evan como referências originais. Em Apocalypse a série voltou às raízes e foi ótimo. Agora, em AHS1984, estamos diante da primeira formação de elenco sem nenhum dos membros originais e com mudanças até mesmo na fonte da série, a única característica visual que nunca havia mudado nesses nove anos. Estamos diante da temporada de American Horror Story que menos se parece com American Horror Story. O que isso vai provocar ainda não é possível dizer.

Emma Roberts retorna para a franquia como rosto principal. Ela esteve num grande número de temporadas e passou para o primeiro lugar na fila de identificação original. Está sendo interessante vê-la como a final girl boazinha sempre perseguida nesse tipo de história. Mas, vale lembrar que na última vez em que atuou em algo assim, terminou sendo a grande assassina da ÓTIMA quarta parte da franquia Pânico. De fato, em seus dois primeiros episódios, AHS conseguiu estabelecer uma conexão sincera com Brooke. A ideia de atravessar a narrativa situando tudo em apenas uma noite (visto que até agora ainda não amanheceu) é arriscada para uma trama episódica, mas os roteiros da série são efetivos na arte de condensar e transmitir informações rapidamente. Já somos capazes de entender um pouco da natureza de alguns personagens como os de Cody Fern, Leslie Grossman e Billie Lourd (Billie, eternamente Billie). Brooke, no entanto, foi a que mais começou a apresentar interessantes camadas.

Enfim, enquanto os acontecimentos dos dois primeiros episódios respeitam estritamente a conhecida dinâmica dos filmes slashers, algo sombrio parece espreitar a narrativa. Desde Roanoke que os episódios de meio de temporada costumam fazer alguma revelação importante que muda a ordem das coisas. Esse ano o episódio número 6 da temporada também é o episódio número 100 da série e é bastante provável que alguma surpresa esteja sendo preparada para acontecer. Assim como Kevin Williamson homenageou os slashers cutucando suas regras em Pânico, não poderíamos ver Murphy mexendo com elas sem também fazer alguma provocação. O episódio 100 foi escrito por ele e Falchuk… Sem dúvida alguma coisa vai mudar.

Boas mortes, texto sagaz, personagens peculiares… AHS 1984 mantém nosso interesse no gênero; e tem feito um ótimo trabalho na sustentação das próprias bases. Mas, até agora está apenas reproduzindo os métodos que fizeram o sucesso das toscas produções dos anos 80. Queremos um pouco mais… E tenho certeza que mais coisas virão.

> OS 5 MELHORES EPISÓDIOS DE FRIENDS!

Sexta-Feira 1: John Carrol-Lynch retorna ao papel de assassino na série. Ele foi o palhaço Twisty de Freak Show e também John Gacy em Hotel.

Sexta-Feira 2: Será que assim como Emma nos enganou em Pânico 4 ela nos enganará agora? Será que Murphy vai mexer no conceito de “final girl”?

Sexta-Feira 3: Richard Ramirez também já apareceu na série. Era – junto com Gacy – um dos assassinos que jantavam juntos no Halloween do Hotel Cortez.

Sexta-Feira 4: Matthew Morrison volta a trabalhar com Murphy na pele de um homem bem dotado que foi comparado ao astro pornô da época, John Holmes.

Sexta-Feira 5: Esse texto foi mais uma maneira de apresentar a temporada, justamente porque é uma review dupla e atrasada. Voltamos à programação normal a partir daqui.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anterior‘Stranger Things’ é renovada para 4ª temporada e Netflix assina contrato com os irmãos Duffer
Próximo artigo[Exclusivo] As séries mais maratonadas por brasileiros, segundo o Tv Time (23 Set – 30 Set)
american-horror-story-1984-9x01-02-camp-redwood-mr-jinglesNova temporada de American Horror Story começa em plena homenagem aos slashers, mas algo estranho paira sobre esse tão descaracterizado ano.