“A ideia de que Deus é um gigante barbudo de pele branca sentado no céu é ridícula. Mas se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então claramente existe um Deus. Só que Ele é emocionalmente frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!”
– Carl Sagan
Na mitologia grega existia um deus chamado Helios. Ele era responsável por ditar o dia e a noite, percorrendo o céu com sua carruagem solar. Quando ele passava perto da terra os dias eram mais longos e mais quentes, quando longe eram curtos e mais frios. A noção cientifica do que hoje chamamos de estações do ano é um conceito formado no Renascimento, com as descobertas astronômicas que revelaram o movimento do nosso sistema solar. Ambas as opções são válidas já que ambas partem do princípio da crença: aquilo que acreditamos se torna verdade. Antes acreditávamos em Rá, Helios, Amaterasu e Dagr. Hoje acreditamos no pensamento crítico, naquilo que é provado pela ciência, nas órbitas celestes, na gravidade. Mas onde houver crença ainda há a chance de existência. Assim nessa constante batalha pela fé de seus cultos, os deuses velhos e os novos se digladiam para pesar a balança para seu lado e eliminar de uma vez por todas o inimigo.
American Gods, adaptação televisiva de Bryan Fuller e Michael Green para o romance homônimo de Neil Gaiman é a apoteose visual e narrativa dessa guerra. Acompanhamos a história de Shadow Moon (Ricky Whittle) que ao receber a notícia da morte da mulher, Laura (Emily Browning), é liberado mais cedo da prisão somente para cair de paraquedas no meio do combate entre dois grupos de deuses pela adoração da humanidade.

A narrativa primeiro nos apresenta a natureza migratória das religiões (e consequentemente dos deuses) para depois nos colocar a par da disputa em que Shadow irá se meter. O que falar do prólogo dos vikings e todo o sangue que explode na tela além do que soberbo. Ali, em pouco mais de 10 min. de episódio somos apresentados a como Odin chegou na América, através de sacrifícios de sangue e da crença inabalável de seus fiéis. Somos apresentados também a Sr. Íbis (Demore Barnes), que terá um importante papel na história além de cronista oficial dos eventos. No presente, a relação de Shadow com Wednesday (Ian McShane) é entrecortada com a figura misteriosa de Bilquis (Yetide Badaki).

Shadow além da perda da mulher se vê envolto em sonhos (o pomar ósseo que dá nome ao episódio) e pressentimentos, que ficam ainda mais fortes com a chegada do misterioso e impertinente empregador. Se Whittle atua bem melhor do que ele atuava em “The 100”, McShane destrói em cada frame que aparece, roubando a presença de todas as cenas, com um olhar cínico no rosto e um sorriso que flutua entre o maldoso e o inocente. E formando o trio principal desse piloto temos o Mad Sweeney de Pablo Schreiber, que em meio aos truques com moedas e a sede maníaca por lutas, enriquece ainda mais a experiência.

Se tratando de uma série de Bryan Fuller podemos esperar um visual fantasticamente inebriante. Com uma paleta visual que sempre demonstra esse viés onírico das obras dele, ela não é tão sombria quanto “Hannibal”, nem tão solar quanto “Pushing Daisies”. Os planos são sempre marcados por uma poesia visual que transforma tudo do mais grotesco ao mais lírico, em puro deleite. A já famosa sequência de Bilquis é reproduzida aqui com um misto de fascínio, choque e assombramento. As sequências que envolvem o Technical Boy (Bruce Langley) também são outras que enchem os olhos, com seu visual clean ameaçador e emulações de glitches. O prologo não é a única cena sangrenta aqui, o final carrega ainda mais no grafismo indo bem mais além do que se espera e, estranhamente, continuando belo.

American Gods é uma fábula adulta sobre encontrar o seu lugar no mundo quando tudo parece perdido e polarizado entre duas forças extremas. É também sobre a força da crença e da fé e de como ela serve de alimento para aquilo que é direcionada. Sexy, sangrenta, visceral, bem-humorada, arrebatadora, misteriosa, viciante. Velhos deuses desaparecem, novos deuses surgem. Lhes apresento a uma das melhores séries do ano.
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Anotações de Ibis 1: Ficarei responsável pela cobertura da temporada para o Série Maníacos;
Anotações de Ibis 2: A partir da revelação de cada deus nos episódios subsequentes criarei a sessão que chamarei de “Pequeno Panteao”, falando um pouco sobre cada divindade, sua origem e de qual mitologia ela pertence;
Anotações de Ibis 3: Prestaram atenção na quantidade de planos com laços de forca? Dica: prestem atenção nisso;
Anotações de Ibis 4: Jonathan Tucker apareceu pouco, mas já roubou a atenção também;
Anotações de Ibis 5: Ri muito com a sequência do braço voador, ri ainda mais com a parte do cemitério;
Anotações de Ibis 6: Sério, nunca pensei que ia ver a cena de Bilquis na vida com atores de carne e osso. Obrigado Bryan Fuller por essa graça alcançada!















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